Dr. Janot, os tiranos desqualificam seus críticos e ditadores os atacam

Fernando Brito, via Tijolaço em 19/6/2017

O doutor Rodrigo Janot teve hoje [19/6] uma catarse, na abertura de um seminário promovido pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Ele disse, segundo O Globo:

Há pessoas que acusam o Ministério Público e a Lava-Jato de abuso. Afirmam que o Brasil está se tornando um estado policial, um estado de exceção. Só dois tipos de pessoas adotam e acolhem esse tipo de discurso. Os primeiros, nunca viveram em uma ditadura, eu vivi. Não conhecem, por experiência própria, o que representa vida sem liberdade. Militam, portanto, na ignorância. Para esses, o esclarecimento dos fatos é mais do que suficiente. Mas há também aqueles que operam no engodo, os que não tem compromisso verdadeiro com o país. A real preocupação dessas pessoas é com a casta privilegiada da qual fazem parte. Empunham a bandeira do Estado de Direito, que vergonha, mas desejam defender os amigos poderosos com os quais se refestelam nas regalias do poder. Para essas figuras não há esclarecimento suficiente, porque a luz os ofusca, fogem da verdade com pavor dos que vivem no embuste. Escondem-se nas cavernas sombrias de seus mesquinhos interesses.

Viveu a ditadura, doutor Janot?

Sou da sua geração, a vivi também. E ela moldou meu juízo, fez-me odiar o arbítrio, a prisão, a condenação sem provas, a alcaguetagem.

Sabe, doutor, mesmo sem provas, tinham a convicção que eu era um elemento subversivo.

Não tive a sorte de conhecer a valentia do Ministério Público – sim, ele existia, não é? – quando gente era presa na escuridão, sequestrada, torturada, morta…

O Ministério Público não nasceu na Constituição de 1988, que lhe dá os poderes que agora tem. Vem de antes, mas não vejo a crítica necessária ao papel sabujo que teve. Isso, embora os senhores sempre lembrem que os admitidos antes dela possam advogar para privados.

Não faço parte de “uma casta privilegiada” como é o Ministério Público, ganhando polpudos vencimentos, acrescidos de penduricalhos, auxílios isso e aquilo que não despertam sua indignação republicana e igualitária. Vivo – e o senhor pode acionar seus mecanismos de espionagem para verificar – do Google e das contribuições dos leitores.

Mas não sou hipócrita, como o senhor, que descobriu, já quase na sexta década da vida, que a política tem o dinheiro como combustível, queira-se ou não. A política, aquela que o levou, com os amigos que agora rejeita, ao cargo que tem.

O senhor diz, tonitruante:

Basta de hipocrisia. Não há mais espaço para a apatia, ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe servil e impotente contra aqueles que deveriam nos representar com lealdade.

Ela começou ontem, doutor Janot, a vilania na política?

Eu tenho mais tempo de vida pública que o senhor e, ao contrário do senhor, nenhuma estabilidade ou vitaliciedade. Certo, não fui ungido por um concurso público. Não posso quebrar seu sigilo bancário, embora o senhor possa quebrar o meu.

Não tenho medo por mim, doutor, mas tenho medo quando vejo alguém, como o senhor, se erigindo em moralista universal.

Os pecados de seu Ministério Público, nestas três décadas em que tudo pôde e nada fez, não podem ser, simplesmente, esquecidos.

As instituições são dinâmicas e nem sempre o que aconteceu no passado devem condená-las ad eternum.

E a disputa do poder não é, senão nas mentes miúdas, uma disputa do riquezas e vantagens, cargos e posições.

E se a ira santa contra o que o senhor viu, quieto, durante três décadas e agora torna emblema, não é possível esquecer a pusilanimidade com que deixou de agir em defesa da única legitimidade democrática, a do voto, quando ela precisou da coragem da qual agora o senhor finge ostentar?

É porque sua valentia se dá sob o pálio da Globo, sem a qual o senhor estaria reduzido à estatura moral que de fato tem.

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