Dallagnol, o “pin-up boy” do silicone jurídico

Fernando Brito, via Tijolaço em 14/6/2017

A arte de escrever – e descrever – é uma maravilha. Ela leva você não só aos fatos, mas aos ambientes em que eles ocorrem e a atmosfera tem um odor que nos leva a compreender aquilo que, no texto frio e industrializado que nos sapeca em geral a mídia, passaria “batido”.

Anna Virgínia Balloussier, esta noite, na Folha faz isso, desenhando o ambiente em que o senhor Deltan Dallagnol deita falação para uma plateia que acha que pode moldar um pais como molda narizes, queixos, seios e cinturas.

E compara o combate a corrupção, deus meus, a um jogo de “Candy Crush”. O pior é que a indigência mental arranca aplausos da plateia. Gente que queria um Brasil lipoaspirado dos pobres que o engorduram.

Nada contra, claro, à cirurgia plástica, por que sou dos que acham que saúde é um estado de bem-estar. Mas tudo contra aquilo que é seguir, insanamente, os padrões que nos são ditados como os únicos em que podemos viver.

Leia a maravilha de texto que Anna publica na Folha:

EM CONGRESSO DE CIRURGIA PLÁSTICA, DALLAGNOL QUESTIONA: “SOMOS GOLPISTAS DOS GOLPISTAS?”
O procurador Deltan Dallagnol, 36, entra no Grand Hyatt Hotel. O primeiro estande à vista exibe amostras de próteses de silicone.

Coordenador da força-tarefa da Lava-Jato, o paranaense de Pato Branco está em São Paulo a convite da ala paulista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). É o palestrante mais esperado desta quarta-feira (14), primeiro dia de uma jornada que discute o mercado das operações estéticas.

Está lá para defender o legado da operação que toca há três anos e já pôs na cadeia figurões como Eduardo Cunha e Marcelo Odebrecht.

O procurador dividiu o rol de palestrantes com especialistas em áreas como gluteoplastia e mamoplastia (intervenções no glúteo e nas mamas). A SBCP não quis informar se Dallagnol foi remunerado pela atividade. Ele disse que falaria com a Folha “depois” (terminada sua fala, centenas de médicos se enfileiraram para pedir autógrafos e selfies).

Lá pelo meio de sua exposição, combate a ideia de uma Lava-Jato seletiva, que teria sobretudo o PT na mira.

“Nós antes éramos os golpistas. Agora nós somos os golpistas dos golpistas? Eu fico confuso”, afirma, lembrando que a operação supostamente algoz do petismo atingiu outros partidos –como o presidente Michel Temer (PMDB) e o senador Aécio Neves (PSDB).

Seu discurso na noite seria sobre ética no trabalho, dizia a assessoria de imprensa do evento. Na hora, Dallagnol faz um apanhado de seu recém-lançado “A Luta contra a Corrupção”.

O livro, que entremeia sua trajetória pessoal na Lava-Jato com uma discussão sobre a corrupção no Brasil, foi posto à venda na baia de uma livraria, um ponto fora da curva entre tantas outras que promoviam acessórios para lipoaspiração e novas tecnologias do silicone.

Naquela que foi chamada de “conferência especial”, o procurador adota a linguagem dos “nativos”.

“O país está desfigurado. Precisamos de uma cirurgia reconstrutiva. Acho que vim no lugar certo para pedir ajuda”, diz a certa altura de sua apresentação.

Outra metáfora à moda da casa: “Você já teve um paciente que se olhava no espelho e se achava mais bonito do que era?”.

Pois bem, “o Brasil se olhava no espelho e se achava mais bonito do que era. A corrupção vende ilusões”.

O cirurgião plástico Rolf Gemperli o apresentou como “uma daquelas pessoas que estão preocupadas com o futuro do nosso país”.

Avisou à audiência que o convidado daria “uma explicação sobre o que é Lava-Jato”.

Dallagnol começou aquecendo os cerca de 1.100 ouvintes com um afago. “Gosto dos médicos porque médicos gostam da Lava-Jato”.

Num debate que se estendeu por 1h30, o procurador comparou sua história à do Brasil, com sucessivos “fracassos no combate à corrupção”, analogia que já traçara em seu livro.

Lembrou de sua atuação no caso do Banestado, na primeira metade dos anos 2000. Eis o desânimo: a investigação implicou 680 pessoas e puniu apenas um punhado de colaboradores.

Conta que a escassez de resultados o levou a pensar que, das duas, uma: “Ou trabalho mal ou sou azarado”. Mas logo percebeu que a situação se repetia com vários colegas.

Desafia o público: alguém conseguiria lembrar de réus condenados por corrupção na última instância (descartados pontos de inflexão como “mensalão” e Lava-Jato)?

Um médico na plateia sugere o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, conhecido como Lalau, preso em 2000 pela participação em desvios de recursos da construção do fórum trabalhista de São Paulo.

Mas Lalau, minimiza Dallagnol, ficou detido “em prisão domiciliar, que é uma prisão tipo ‘nhé’”.

A animosidade a Lula que emana da plateia é nítida. Um doutor lamenta: a classe médica pode até ser politizada, mas é duro ouvir pacientes dizendo que na época do ex-presidente era melhor. “O povo não sabe eleger”.

Outro espectador pergunta se Dallagnol tem uma “previsão real” para a prisão do petista. “Vou exercer meu direito constitucional de ficar em silêncio”. A resposta extrai risos do público.

“Não importa se você é esquerda, direita, centro, cima, baixo, lado… Tem coisa boa para fazer com R$200 bilhões”, diz. É essa a quantia que, segundo ele, a corrupção drena do Brasil.

Para “enfrentar grandes corruptos”, a força-tarefa montou uma “estratégia de fases” cujo “objetivo é superar o jogo Candy Crush”, brinca. Assim, com investigações em parcelas, “a sociedade pode acompanhar este caso quase como se fosse uma série”.

A operação apostou ainda numa estratégia de comunicação inédita, afirma. Foram ao Jô Soares, à GloboNews. Criaram um site. Deram coletivas de imprensa.

Numa delas, Dallagnol se valeu de um polêmico Power Point que colocava Lula no epicentro de um megaesquema de corrupção –ele contemporiza aquele dia no livro, mas não o cita na palestra.

Uma resposta to “Dallagnol, o “pin-up boy” do silicone jurídico”

  1. Aristóteles Barros da Silva Says:

    Aqui no Paraná tratamos gente desse tipo como “piá de condomínio” ou “guri de apartamento”. E, infelizmente, está cheio desse tipo de gente, aqui no Paraná. Repito: vade retro, piazada pançuda!

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: