Michel Temer, o presidente surreal

Em seu surrealismo, Temer se coloca como um messias, cuja missão é, em suas próprias palavras, “colocar o Brasil nos trilhos”.

A melhor forma de entender o apego do peemedebista ao cargo é fazer um restrospecto de todos os esforços que ele fez para chegar à presidência.

Fábio Terra, via CartaCapital em 8/6/2017

“Quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele”, diz o adágio popular. Logo, quem quer ser, que a vista.

Michel Temer sabe disso muito bem. Assim, a melhor forma de entender a resistência do peemedebista em renunciar ao cargo de presidente é olhar para todos os esforços que ele fez para chegar ao cargo.

O primeiro sinal da vontade de Temer de ser presidente foi o lançamento, em outubro de 2015, do “Ponte para o Futuro”, um programa de governo do PMDB que, naquela época, ainda fazia parte do governo Dilma Rousseff.

Pouco depois, “vazou” uma carta em que ele chorava suas mágoas com a presidenta petista. Surrealmente, Temer se disse surpreso com a carta ter vindo a público enquanto que, surpresos, nos perguntávamos: se ele tinha medo do “vazamento” da carta, por que não falou com Dilma pessoalmente? Não trabalhariam os dois no mesmo Palácio do Planalto? Não teria ele, o telefone dela? O Jaburu não fica ao lado do Alvorada?

Depois, o desejo Temer pela presidência expressou-se pelo partido por ele presidido (e pelo qual ele foi eleito à vice-presidência) ter saído, em 29 de março de 2016, do governo para o qual foi eleito. Embora o PMDB deixasse, então, de ser governo, Temer permaneceu na vice-presidência do governo do qual saiu.

Obsessivo, em 7 de abril de 2016, portanto, antes do julgamento do impeachment de Dilma na Câmara, ocorreu um novo “vazamento”: um áudio de Temer dizendo à nação que se sentia preparado para ser presidente, mesmo ainda existindo uma presidente no cargo.

Em guerra com o governo com o qual foi eleito, mas do qual saiu, Temer pregava a pacificação e reunificação do país, querendo o cargo de presidente por meio de algo tão pacífico e unificador como um processo de impeachment.

Temer alcançou seu sonho interinamente em 12 de maio de 2016 e, em definitivo, em 31 de agosto de 2016, quando o Senado ratificou o impeachment de Dilma.

Porém, permaneceu o caráter surreal de tudo o que envolveu sua chegada ao cargo.

Em seus seis primeiros meses de governo (interino e definitivo, portanto) Temer perdeu seis ministros. Dos seus cinco assessores especiais, quatro não estão mais com ele e destes, dois estão presos. Claro, é impossível esquecer que ele é o primeiro presidente de nossa história a ser investigado pelo STF por conta do “encontro gravado” entre o presidente e Joesley Batista, em maio de 2017.

Sejamos todos surreais e finjamos que houve edições no áudio gravado por Joesley: ainda assim, o presidente não o ouviu dizendo que havia comprado juiz e procurador da república? Não percebeu que ele queria atrapalhar a Operação Lava-Jato? Não o notou dizendo que pagava propina a Cunha? Achou mesmo que era uma ajuda à uma família despossuída? Como não sugeriu a Joesley ajudar os milhões de brasileiros que passam fome? Onde estariam os ouvidos, e o bom coração, de Temer?

A não correção dos erros no presente é a porta aberta para sua recorrência no futuro.

O que acontece no Brasil é surreal. Já o era com Dilma e assumiu contornos dramáticos com o nosso presidente surreal.

Embora saibamos que Temer quer se proteger com a prerrogativa do foro privilegiado, entremos na onda do governo surreal que nos lidera. Assim, perceberemos que, em seu surrealismo, Temer se coloca como um messias, que crê ser o obstinado portador da missão de, em suas próprias palavras, “colocar o Brasil nos trilhos”.

Uma dica bíblica cabe-nos, então: “Vigiai-vos dos falsos profetas que se chegam a vós em pele de ovelha, mas que por dentro são lobos vorazes”.

Fábio Terra é professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia.

3 Respostas to “Michel Temer, o presidente surreal”

  1. magda f santos (@magdafsantos) Says:

    ERA BOM QUE ELE COMEÇASSE A COLOCAR SUA VIDA PARTICULAR NOS TRILHOS TRATANDO O MELIANTEZINHO MIRIM E TIRANDO A PESCOÇUDA DA VIDA DEVASSA!!

  2. Péricles Pegado (@PericlesPegado) Says:

    Gente! Ele é apenas uma das “marionetes” do sistema, como Eduardo Cunha, seu irmão siames, ele não estaria no poder se “as forças ocultas” ainda não precisassem do traíra! Breve ele será defenestrado pelo sistema, como dizia o Roberto Marinho: “eu o coloquei e o tirei’! Assim será também com “treme”.

  3. numerum Says:

    .
    Essa “gente” não mente: incautos são os que lhe interpretam mau. “Por o pais nos trilhos” e uma declaracao vaga: ou seja, trilhos que levam aonde é o que se deve saber.
    Hoje levam o país nos trilhos rumos ao caos, à desgraça, ao inferno e, estes são os “trilhos” temerosos. Os trilhos tucanalhas, os trilhos da “ponte para o passado medieval”, bancado e orientado pelo meio-por-cento de donos do dinheiro, que nem são do país, mas são transnacionais sem pátria, centralizados no EUA e Europa.

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