O Richtofen, a Cracolândia e o racismo

Pegos na Cracolância: acima, Andrea von Richtofen; abaixo, o ator Rubens Sabino Silva, que trabalhou no filme Cidade de Deus.

Anderson França em 30/5/2017

Agora, no caminho pra casa, três pessoas falaram comigo mostrando no celular a foto de um jovem branco, loiro, que foi encontrado na Cracolândia. Pelo que entendi, é o irmão da moça que assassinou os pais, em 2002.

Então, algumas pessoas se comoveram bastante com o “triste fim” de um jovem, antes com uma família estruturada, hoje usuário de crack.

Olha. Eu vou te falar um negócio, depois a gente se acerta, só me escuta no amor: Isso não é comoção. Isso é racismo.

Somos ontologicamente racistas. Racistas pra caralho. Racistas de manhã. Racistas à tarde. Sozinhos. No banheiro. Vendo XVídeos. Comendo Fruit Loops. Orando na igreja.

O racismo é uma característica nossa, uma construção de milênios, acho que a gente é tão racista que, no fundo, a gente não acredita que essa lei de injúria racial seja de verdade, porque no fundo, não é.

Qualquer 800 reais de multa e você pode xingar preto e nem preso vai.

Calma.

Sabe por que é racismo?

Porque você e eu partimos do fato dele ser um jovem branco. Sim, sim. É verdade. Sejamos sinceros. NINGUÉM TÁ NOS VENDO.

Só eu e você, aí no seu celular.

Ele é branco. Traços de gente bem-nascida. Não pode um jovem de classe média, branco, loiro, “cair” ou se “desviar” da sua natural e austera missão no mundo: de ser um exemplo para as raças, porque este é o destino dos brancos.

Nós ficamos horrorizados com um branco que se perde tanto assim de seu nobre destino, ainda mais num sistema feito para ele prosperar, e esse branco agora estar num lugar de gente preta, pobre, fudida, cracuda.

Porque o vício é coisa de preto. Os pretos que estão lá são vagabundos. Endemoniados. Lixo humano. Merecem mermo. Tem mais que derrubar casa e matar com todo mundo dentro. Fodace.

Mas o garoto, esse não. Esse a gente tira, porque, poxa. Ele é bonito. É como um anjo caído. Merece redenção.

É isso, e apenas isso, que nós pensamos.

Eu não quero que você surte, e me pergunte se é pra deixar matar o garoto, eu quero que você entenda que vidas negras importam.

Todas as vidas, lato sensu, ali na Craco, importam, aliás, mas vidas negras importam.

Vamos lá, companheiros brancos, socialistas nervosinhos, cross fit estressadinhas, marombadinhos esforçados, gerentinhos de camisa pra dentro da calça, feministas do Leblon, NÓS SABEMOS QUE A COMOÇÃO É SELETIVA.

Um grande ator, negro, que participou de um dos maiores filmes brasileiros, foi encontrado na mesma Craco, e sabe o que disseram?

Vocês sabem.

Ele era preto.

Meu convite, cara, é que a gente não seja seletivo. Que o menino com sobrenome alemão tenha humanidade no tratamento, como os Silva que estão lá neste momento, na Praça Princesa Isabel.

Vamo ampliar essa humanidade aí, gente.

Meu convite não é pra surtação de maluco que vocês dão quando eu venho aqui provocar, é pra vocês mudarem a porra da mente, por dentro, e se não vamos deixar de ser racistas, que pratiquemos coisas não-racistas, para que a mulekada veja, e seja menos racista que o que nós fomos.

Uma resposta to “O Richtofen, a Cracolândia e o racismo”

  1. moreiralucasf Says:

    Gostei do texto. Mas discordo em partes.
    Como negro vindo do nada, filho de pai motorista e mae lavadeira, tenho tudo pra dizer que foi mais dificil chegar até aqui por ser negro. Nao foi. Eu queria fazer textao anti-racista dizendo que sofri demais por ser negro. Nao sofri. Na real o que dificulta a vida mesmo é começar do zero, do nada, e ter que correr atras de uma galera que aos 5 anos já está na escola de ingles, de musica, de teatro. Que na hora de escolher a carreira pode tirar um ano ou dois pra se descobrir, viajar pelo mundo e depois voltar e passar na melhor universidade publica que meu dinheiro pode lhes pagar enquanto eu trabalhava das 06h30 as 18h30 pra pagar um curso técnico meia boca. Ser preto nao fez diferenca. Ser pobre sim.
    Nem por isso sou cego a ponto de dizer que não há diferenças entre raças. A escravidao deixou um rastro de gente preta sem terra, sem teto, e criou uma populacao pobre quase toda preta. Quase. Minha avó materna vivia na miséria tb, mas é tao branca quanto a neve. Decende de imigrantes europeus. Casou-se com meu avó, preto como café, decendente direto de indios e escravos africanos.

    O pensamento racista nao está em todos, ao meu ver. Mas é foda ver um preto maltrapilho na rua e nao lembrar da bandidagem com quer compartilhei a infancia na rua de casa. Infelizmente o esteriótipo está criado na nossa mente, e ele nao nasceu do nada ou foi inventado por uma elite branca opressora.

    Achei sua comparacao meio injusta.
    Nesse caso, o irmao da piscopata realmente tinha chances maiores na vida, nao apenas por ser branco. Seu azar foi ser irmao de um animal mal formado.

    Diferente dele, o Rubens teve a vida sofrida nas ruas desde cedo. Só um milagre o salvaria. E aconteceu. Sem nenhuma perspectiva ou merecimento foi chamado para atuar em “Cidade de Deus” onde teve aulas de teatro e uma oportunidade. Nao aproveitou. Teve outras tantas chances, mas nao conseguiu vencer o vicio.

    Independente do caminho que os levou até lá, ambos chegaram pelas próprias pernas e merecem apenas colher o que plantaram.

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