O traficante da favela e o traficante do Senado

Guilherme Coutinho em 31/5/2017

Bandido bom é bandido morto. Traficante quando é alvejado pela polícia é motivo de comemoração. Se ele estiver na favela. A imagem desse bandido no imaginário brasileiro é sempre um negro, pobre, em uma área carente, segurando um fuzil. Mas droga é um negócio lucrativo e nem todo traficante está na periferia. Recentemente, um grampo da Polícia Federal flagrou uma frase emblemática do senador Zezé Perrella: “Não faço nada de errado, só trafico drogas”.

O senador ficou politicamente marcado pelo caso de quase meia tonelada de cocaína, encontrada no helicóptero pertencente a uma empresa de sua família. O piloto, que era funcionário de seu filho, Gustavo Perrella, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi preso e os Perrella absolvidos. Zezé Perrella já era senador, com foro privilegiado e ainda exerce seu mandato, pelo PSDB. A conversa, divulgada pela PF, foi justamente com outro senador tucano, Aécio Neves, que cobrava de Perrella mais fidelidade em suas declarações sobre a Operação Lava-Jato.

O senador reafirma que é inocente no caso do helicóptero e que foi irônico na gravação da PF. Mas não há dúvidas de que os indícios de uma ligação, ainda que indireta, com o tráfico são contundentes. No entanto, o caso não ocupou tanto destaque nos noticiários ou nos debates nas redes sociais. A polêmica declaração passou praticamente batida pela mídia ou pela ala conservadora da sociedade. Afinal, Zezé Perrella é branco, rico, empresário, senador e, no alto de sua moralidade, participou da comissão que julgou Dilma Rousseff, por supostos crimes de responsabilidade.

Na periferia, não é preciso haver tantas evidencias. Ações violentas nas favelas brasileiras é rotina. Muitas vezes, com mortes de inocentes. Normalmente, os números não são tão divulgados, pois os mortos são em sua ampla maioria negros e pobres. A sociedade aprova uma verdadeira chacina étnica em nome da “guerra às drogas”, e ao mesmo tempo admite que os grandes casos de apreensão de drogas continuem obscuros e mal explicados.

No Congresso Nacional, a impunidade e indignação seletiva já estão virando uma infeliz tradição do povo brasileiro. Na favela, a violência e a arbitrariedade é uma triste rotina. Indícios de crimes, quando emergem em ambientes tão distintos, despertam uma reação incrivelmente diversa das autoridades e da população: a uns, pena de morte; a outros, absolvição. E assim segue a hipocrisia no país da desigualdade.

Guilherme Coutinho é especialista em Direito Público, comunicólogo e responsável pelo blog Nitroglicerina Política.

Uma resposta to “O traficante da favela e o traficante do Senado”

  1. magda f santos (@magdafsantos) Says:

    POIS TA NA HORA DE SE FAZER JUSTIÇA VERDADEIRA!!

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: