Nabil Bonduki: Na Cracolândia, Dória deixa cair a máscara de bom gestor

Nabil Bonduki em 30/5/2017

Para quem ainda tem dúvidas, Dória mostrou, na última semana, que é pouco preparado para administrar uma cidade da complexidade de São Paulo. Se busca cargas mais elevadas, precisa comer muito feijão com arroz na planície.

A gestão pública requer muito para além da gestão de um negócio. Área de conhecimento com teoria e conceitos próprios, exigência e experiência, além da habilidade política, sensibilidade humana e capacidade de ouvir opiniões contraditórias antes de tomar decisões.

A Prefeitura de São Paulo não é para amadores. Estrutura complexa, com centenas de milhares de funcionários e terceirizados, lida com inúmeras políticas setoriais, regidas por leis, requerendo coordenação e articulação. Não é uma empresa de marketing, um canal de comunicação ou um negócio de lobby.

O prefeito ignora essa realidade. Preocupa-se mais com o Facebook do que em formular políticas públicas em conjunto com sua equipe. Quer parecer como um gestor eficiente e autoritário, que acorda e dorme tarde, como se bastasse para gerir uma megacidade. Espera resultados rápidos, mesmo que efêmeros, para reforçar essa imagem falsa.

Desinformado e sem estratégia, vislumbrou na equivocada ação policial na Cracolândia mais uma oportunidade para se promover como um eficiente defensor da ordem e da limpeza urbana e social. De blusão preto, que lembra como milícias fascistas, se misturou aos policiais e declarou que a Cracolândia teve acabado, para os seus segredos espanhóis.

Sem coordenação institucional, planejamento e apoio de especialistas, não existe um drama dramático. Improvisadamente, derrubou casarões ocupados, ferindo moradores, e anunciou um arquiteto de grife para maquiar uma área, como se essa fosse um assunto. Um Cracolândia mudou de lugar e se espalhou.

Ignorando como leis do país e os direitos humanos universais, o prefeito pretendeu, com bravatas, tirar uma questão social do mapa da cidade, eliminando os seres humanos que consideram indesejáveis e suprimindo os territórios que ocupavam. Por fim, pediu autorização judicial para recolher, coletiva e compulsoriamente, supostos usuários de drogas, contrariando um Lei Antimanicomial, sancionada por FHC em 2001. Uma mobilização da sociedade, da Defesa Pública e do Ministério Público freou os instintos autoritários do prefeito.

O prefeito “novo” reproduz o vício dos políticos: interrompidos programas das gestões anteriores, sem propor nada no lugar. De “novo”, apenas uma habilidade no Facebook. Que ele tenha humildade de dar dois passos atrás: aperfeiçoar os especialistas, avaliar os pontos positivos e negativos do Braços Abertos e debater com uma sociedade a melhor forma de enfrentar o problema.

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