Palmério Dória: O sobrevivente José Dirceu

Palmério Dória em 2/5/2017

Tem história esse perímetro em que moro. Chego em alguns minutos à rua Maria Antônia. Foi do teto do Mackenzie que partiram os tiros contra a Faculdade de Filosofia bem aqui, em 2 e 3 de outubro de 1968. José Dirceu, uma das principais estudantis, é alvo da direita hidrófoba desde aquela época.

Mas foi outra a vítima da Batalha da Maria Antônia, travada durante dois dias entre estudantes de esquerda da Filosofia e estudantes de direita do Mackenzie, com paus, pedras, rojões, coquetéis molotov, ácido sulfúrico – e as armas de fogo dos mackenzistas, entre eles membros do CCC.

Pela uma e meia da tarde do dia 3, um repórter fotográfico flagra cinco deles no teto de um prédio da Universidade, cujo reitor havia apoiado o golpe militar. Um, à frente do grupo, faz pontaria com uma carabina. Cá embaixo ouvem-se gritos de “ambulância! ambulância!”, e vem carregando o estudante José Carlos Guimarães, colegial que ia a um livraria e, resolvendo engrossar as hostes da turma da Filosofia, levou aquele tiro na cabeça, que o matou antes de chegar ao hospital. Testemunhas identificaram o atirador como Osni Ricardo, do CCC e informante da polícia.

Dias frenéticos, tempestuosos. Em 12 de outubro, 215 homens da Força Pública e do Dops estouraram em Ibiúna, no Congresso da UNE, que reunia cerca de 1.000 estudantes no Sul do Estado. José Dirceu, presidente da UEE, estava entre os líderes presos, gente do calibre de Vladimir Palmeira e Luís Travassos, personagens de reportagem de capa da revista Realidade.

José Genoíno propõe que se procure entre as centenas de presos em Ibiúna no Congresso, para ver quantos foram eliminados, desapareceram, ou levaram tamanho susto que desistiram de fazer política de uma vez por todas. Aí está uma das razões para a falta de representativa política, uma das tragédias do nosso tempo.

E não deixa de ser um milagre que José Dirceu tenha sobrevivido.

4 Respostas to “Palmério Dória: O sobrevivente José Dirceu”

  1. COPACABANA EM FOCO Says:

    Foram líderes e organizadores da Passeata dos 100 mil ou mais. Estive na manifestação contra o governo militar, realizada no centro do Rio de Janeiro em 1968, com a participação de intelectuais, operários, profissionais liberais, estudantes e religiosos. A história nunca será esquecida, pois, em qualquer parte do mundo alguém sempre relembrará como foi os anos de chumbo realizada em quase toda na América Latina. Tortura Nunca Mais!!!

  2. Marizete Ribeiro Says:

    Realmente, a direita raivosa e insana sempre vai querer eliminar cabeças pensantes como José Diceu. Vida longa para esse guerreiro sobrevivente.

  3. Eliane Barroso Says:

    Zé Dirceu, pela sua inteligência e pelo alto poder de diagnosticar os movimentos da sociedade, é o grande temor da direita reacionária e imbecil, desde 1968!

  4. Jandyra Abranches Says:

    Não é milagre, é RAÇA.

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