André Singer: Candidatura de Dória é uma aventura desesperada

Vestido de gari, prefeito de São Paulo, João Dória, tira selfie em seu primeiro dia útil de trabalho. Foto de Rivaldo Gomes / Folhapress.

André Singer em 2/4/2017

A ascensão de João Dória no PSDB é sinal do desespero que tomou conta dos partidos tradicionais. Diante da aniquilação que a Lava-Jato vem produzindo, surge todo tipo de ideias bizarras, sonhos pueris e ambições midiáticas. A destruição partidária pode levar o Brasil a cronificar a instabilidade deflagrada com o impeachment de Dilma Rousseff.

Ao atual prefeito de São Paulo falta o componente essencial para postular o cargo. Não se trata de experiência na administração pública – afinal Fernando Henrique Cardoso e Lula também prescindiam de currículo na área quando assumiram o posto mais importante do país. Dória carece é de um projeto nacional que esteja ancorado em bases sociais consistentes.

Poder-se-ia argumentar que tanto FHC quanto a principal figura petista traíram a própria trajetória ao assumir o Planalto. Com efeito, Fernando Henrique ignorou o discurso ético do PSDB e aliou-se ao que havia de mais fisiológico no Congresso. Lula, por sua vez, arquivou a postura anticapitalista do PT e estabeleceu fortes vínculos com o capital.

No entanto, ambos o fizeram em nome de realizar mudanças – em sentido respectivamente oposto – que tinham relação com o acúmulo anterior dos seus partidos. Cardoso alinhou a nação brasileira à globalização neoliberal, obtendo em troca a estabilidade monetária. Lula estabeleceu marco inédito nos investimentos voltados aos mais pobres, reforçando ao mesmo tempo a confiança na democracia.

As opções tomadas foram difíceis e tiveram altos custos, sem que o espaço me permita detalhá-los aqui. Basta dizer que no interior das duas agremiações majoritárias houve choro e ranger de dentes. No final, contudo, a maioria sustentou as lideranças presidenciais, criando as condições para efetivar os programas por eles traçados.

FHC e Lula tinham legitimidade por resultarem de um lento enraizamento durante a luta contra a ditadura. Surgidos para a política representativa entre os anos 1970 e 1980, o professor renomado e o sindicalista carismático haviam contribuído para a construção de instituições desde a sociedade. Perto deles, Dória soa apenas como um empresário “pop star” que flutua nas telas.

É verdade que PSDB e PT encontram-se numa tremenda encalacrada, assim como tudo o que foi construído desde a redemocratização. Tendo se envolvido, ao que parece, no sistema corrupto de financiamento político vigente a partir de 1945, os irmãos-adversários podem acabar ambos tragados pela Lava-Jato. Mas se buscarem atalhos em lugar de uma renovação profunda, aí, sim, a porta será aberta para aventuras que nunca terminam bem.

Os exemplos de Jânio Quadros e Fernando Collor estão aí para nos lembrar.

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Rodrigo Vianna no Twitter
A resposta histérica e arrogante de Dória. Ele pensa que está na bancada de “O Aprendiz”? Aécio agia igualzinho. São os tucanos mimados.

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SINGER ENFIA O DÓRIA PELA GOELA DO JOÃO
Via Conversa Afiada em 3/4/2017

Da seção dos leitores da Folha:

A carta de João Dória publicada ontem confirma o conteúdo de minha coluna publicada anteontem (“Aventura”, “Opinião”, 1º/4). O referido prefeito não tem substância democrática para postular a Presidência da República. A não ser em contexto autoritário.
ANDRÉ SINGER, cientista político (São Paulo, SP)

A forma como Dória se dirigiu a Singer só foi publicada porque se trata do prefeito. Leitores comuns não teriam cartas como essa publicadas. Começou bem o novo projeto editorial.
LUIZ GORNSTEIN (São Paulo, SP)

O prefeito João Dória deveria convidar todos os políticos de nosso país para palestras sobre gestão profissional, planejamento e responsabilidade com dinheiro público. Poderia, inclusive, estimulá-los a irem às ruas para conhecer e conversar com a população.
CARLOS GASPAR (São Paulo, SP)

Uma crítica política deve ser respondida com argumentos políticos. Se o prefeito não possui essa capacidade, que se mantenha calado, sob pena de destruir todo o esforço de seus marqueteiros em erguer a imagem de um homem capaz e confiável.
MARTHA TANIZAKI (São Paulo, SP)

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