Não há o menor risco de quebradeira de “nossa indústria da carne”, porque “nossa indústria” nunca foi nossa

Charlles Campos, via Sul21 em 20/3/2017

Assim que me formei fui chamado para ser veterinário na cidade interiorana onde passei boa parte da minha infância. Tal cidade é um dos maiores polos pecuários do país, com fazendas que retêm rebanhos bovinos enormes.

Eu achava, como todo mundo acha, que, em consequência, essa cidade estaria riquíssima, com infraestrutura aprimorada e com um povo feliz, saudável e próspero. Quando cheguei, o choque: ela era tão atrasada quanto quando a vi pela última vez, em meus 7 anos. O povo padecia das mesmas fronteiras da subsistência: o funcionalismo municipal e o comércio minguado – ou seja, subemprego. Ruas de asfalto precário, casas populares geminadas horrorizando a paisagem. Escolas ruins, saúde capenga. Uma cidade estacionada no tempo cercada de magníficas fazendas cheias de nelore majestático.

Fiquei dois meses lá. Trabalhei como um condenado, fazendo cesarianas, cirurgias outras etc. etc. Fui feliz, voltava para casa radiante. Eu era contratado da maior loja agropecuária de lá, o senhor Doutor. Falaram para mim que era só eu comprar uma terrinha, investir em gado, e eu ficaria rico. Ou então que eu me casasse com alguma das filhas de fazendeiros que pudessem ser pescadas na admiração de me ver todo sujo de secreções no trato de uma das milhares de vacas do patriarca. Ou seja: era só eu me deixar engolir pelo agronegócio, uma espécie de venda da alma.

Como eu sempre tive interesses culturais bem acima da minha aptidão para a veterinária, eu deixei o emprego. A grande pecuária não circula dinheiro. A grande pecuária é uma parasita discreta, mesmo com seu tapete branco estendido pelos milhares de hectares de pasto verde, e muito gananciosa. Não redistribui lucro, porque tem todos os benefícios escusos que o dinheiro em quantias cósmicas consegue com abonos, propinas, mão-de-obra barata.

Daqui 50 anos, a cidade estará do mesmo jeito. Então, eu gostaria de entender por que batem os pés os que apontam que multinacionais brasileiras do agronegócio devem ser preservadas, mesmo à custa de acobertamentos de crimes graves. Em que elas geram dinheiro para o Brasil? Subemprego? A velha ética do subdesenvolvido que quer garantido sua situação básica de 12 horas de trabalho e um prato de comida? Não seria hora de a esquerda progressista aproveitar a história e tomar frente nas velhas questões de reforma agrária e precarização da vida no campo?

Essas empresas não detêm o rebanho brasileiro. O rebanho daqui é o segundo maior do mundo (tirando a Índia, que não é economicamente viável), de onde vocês acham que o mercado internacional que ora se fecha para o Brasil vai conseguir suprir o consumo de proteína bovina? Não há o menor risco de “quebradeira” de “nossa indústria da carne”, mesmo porque a “nossa indústria” nunca foi nossa. Em que ela aprimora a vida social, política e econômica do país?

A esquerda brasileira se prova mais uma vez empacada em clichês e velhos e ineficazes hinos de guerra, se fazendo igual o cão que late, mas quando o carro para ele não sabe o que fazer. Essa é uma situação única para a esquerda aproveitar para erguer um debate substancial sobre importantes questões, mas ela para sem forças e sem norte, e chora para que o carro volte a se mover e a deixe em paz com sua encenação vazia.

Charlles Campos é médico veterinário e há 15 anos atua na área de inspeção de carnes bovinas.

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