A Operação Carne Fraca e o estado de exceção

Luis Nassif, via Jornal GGN 21/3/2017

PEÇA 1 – OS POLICIAIS CELEBRIDADES CRIADOS PELA MÍDIA
Ao lado, o delegado Maurício Moscardi Grillo. É jovem, passou no concurso da Polícia Federal e é delegado há apenas cinco anos. E destoa dos colegas por dois pontos relevantes.

Primeiro, pelo exibicionismo. Ao contrário dos procuradores da Lava-Jato, a PF sempre primou pela discrição. Grillo gosta dos holofotes, é boquirroto e cultiva frases de efeito, que possam repercutir na mídia.

Segundo, porque é um empreendedor de sucesso. Em 2015 inaugurou o San Marino Residence Hotel, em sua cidade, Bauru, mostrando uma desejável preocupação em garantir o futuro. É um prédio de quatro andares, de propriedade de uma empresa dele e da esposa, com capital social registrado de R$100 mil (clique aqui).

Grillo é filho do titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Antônio Grillo Neto, engenheiro conceituado na cidade, na gestão anterior, de um prefeito ligado ao PMDB.

Moscardo Grillo é agressivo com os críticos, truculento nas ações, e cioso de suas prerrogativas de autoridade. Reprovado no psicotécnico no concurso para Delegado, sua primeira missão foi no Acre. Com suas pirotecnias, prendeu 17 pessoas na Operação G7. Três anos depois, a Justiça Federal do estado absolveu todos os acusados.

Coube a ele, também, prender Guido Mantega do Hospital Alberto Einstein, não respeitando o estado grave de sua esposa.

Foi denunciado pelo jornalista Marcelo Auler por suspeita de utilização de verbas secretas da PF, em 2015, para reformas nas instalações da PF em Curitiba (clique aqui) criando uma área social no prédio que abriga o Grupo de Investigação Sensível (Gise) e a Delegacia de Repressão a Entorpecentes, ambas chefiadas na época por ele. Os gastos foram feitos no mesmo momento em que o delegado solicitava mais verbas para a Lava-Jato.

Com as denúncias, perdeu o comando das duas estruturas. Mas, graças às boas ligações com o Judiciário do estado, conseguiu uma sentença impondo censura às reportagens.

Para conseguir o resultado, Moscardi praticou um ato que pode ser classificado de litigância de má-fé. Ingressou com três ações em juizados distintos, sendo que duas tramitaram paralelamente, a fim de burlar o sistema do juiz natural do feito (clique aqui).

A juíza Vanessa Bassani não apenas ordenou a censura embora tenha absolvido o jornalista do pagamento da tutela antecipada – Grillo queria receber antecipadamente R$35.200,00 ao ano título de indenização.

Criticado por outros veículos, o delegado fez um mea culpa na revista Veja. E continuou fustigando os jornalistas com ações.

Não ficaram nisso as estripulias do delegado Moscardi. Responsável pela primeira investigação sobre o grampo encontrado na cela do doleiro Alberto Youssef, em março de 2014, cometeu erros tão primários que lançaram a desconfiança de que foram propositais, para garantir um resultado favorável à cúpula da Superintendência Regional do DPF no Paraná (SR/DPF/PR) (clique aqui).

Delegados críticos da operação foram atacados rapidamente pelos delegados de Curitiba, aliados aos procuradores e aos repórteres policiais dos jornalões.

Representaram ao MPF contra dois colegas que apuraram as incorreções nas investigações. Em pleno feriado de 11 de agosto, Dia do Advogado, o procurador Daniel Coimbra apresentou à Justiça Federal denúncia contra os dois delegados, classificando-os de “dissidentes”. No final da semana seguinte, o policial repórter do Estadão noticiou o fato com destaque, visando atingir os dois delegados (clique aqui).

O juiz Danilo Pereira Junior, da 12ª Vara Federal de Curitiba rejeitou a denúncia, apontou erro do MPF e absolveu os dois acusados, lembrando o óbvio: era responsabilidade sua alertar os superiores sobre atos que supunham criminosos. Só se se provasse que estavam contando inverdades propositadamente poderiam ser processados.

Nas mãos desse delegado, exibicionista e imaturo, foi colocado o destino de mais de dez anos de esforços brasileiros para ampliar as exportações de carne pelo mundo. Ao conduzir a Carne Fraca, “a maior operação da história da PF”, Moscardi Grillo provocou desconfianças em todos os compradores de carne brasileira, trazendo a maior ameaça ao setor desde a febre aftosa. Depois do alarido da Operação, China, União Europeia, Chile e outros países suspenderam a compra de carne brasileira.

PEÇA 2 – A NARRATIVA DO JORNALISMO E DA PF
O relatório de Moscardi na Operação Carne Fraca assemelha-se em tudo ao jornalismo que hoje se pratica. O repórter-polícia e o polícia-repórter saem sempre atrás de um grande caso, mesma que seja um caso qualquer, com um objetivo claro: confirmar a suspeita, superdimensionar o escândalo e garantir a manchete. A verdade não lhe importa, tem nuances, tem circunstâncias que podem relativizar e enfraquecer a matéria. Interessa, então, a escandalização a seco – que rende manchetes.

No meu livro Jornalismo dos anos 90 preparei um capítulo inteiro sobre as diversas formas de manipulação da notícia.

Vamos a uma lição do antijornalismo da Operação Carne Fraca.

Manipulação 1 – Frases fora do contexto
Uma das formas de escandalização é retirar frases do contexto.

Na peça jornalística da Carne Fraca, reproduzem um diálogo grampeado. E concluem que estão misturando papelão na carne.

Quando escrevi meus dois textos críticos à operação, Facebook, Blog, Twitter foram invadidos por multidões de bolsonaristas com o refrão único: “Então você é a favor de comer papelão”.

Nos dias seguintes, a suspeita foi ironizada por vários especialistas. Bastaria a consulta a um técnico para poupar o relatório desse vexame. Mas a opinião técnica poderia reduzir a escandalização.

Manipulação 2 – Escandalização do nada
O relatório denuncia, em tom grave, que os frigoríficos misturavam ácido ascórbico na carne. Novo pânico instalado nos consumidores. Havia risco de espalhar escorbuto pelo país.

Foram necessários dois dias para se descobrir que o tal ácido ascórbico é a vitamina C.

Dizem os manuais:

Existem muitos agentes redutores e oxidantes comuns em nosso dia a dia. Na medicina e na indústria, um dos agentes redutores mais conhecidos é a vitamina C, cujo nome químico é ácido L-ascórbico ou simplesmente ácido ascórbico.
O ácido ascórbico em solução aquosa possui uma facilidade excepcional para ser oxidado, portanto essa característica faz com que ele seja um ótimo antioxidante. Isso significa que ele protege outras espécies químicas de se oxidarem, em razão do seu próprio sacrifício.

Ora, colocar vitamina C na carne, além de prática habitual, não chocaria os leigos. O que faz, então, o delegado Moscardi:

“Eles usavam ácidos e outros produtos químicos para poder maquiar o aspecto físico do alimento. Usam determinados produtos cancerígenos em alguns casos para poder maquiar as características físicas do produto estragado, o cheiro”.

Pronto, a vitamina C se transforma em ácido letal.

Manipulação 3 – Não relativização dos fatos
No caso da Carne Fraca, em dois anos de investigações foi feito apenas um exame bacteriológico. Foram encontradas irregularidades em apenas 3 frigoríficos. Não se mencionou em nenhum momento todos os sistemas paralelos de inspeção, exigidos pelos países compradores.

PEÇA 3 – BLAIRO, TEMER E AS BARGANHAS POLÍTICAS
O desastre da Carne Fraca é filho direto do impeachment.

Há muito tempo se sabia dos esquemas corruptos do Ministério da Agricultura no Paraná.

Na campanha do impeachment, o deputado Sérgio Souza, PMDB, exigiu manutenção do chefe dos fiscais Daniel Gonçalves Filho para votar contra o impeachment. A então Ministra Katia Abreu e a presidente Dilma Rousseff não toparam.

Em 4 de agosto de 2016, já havia movimentação contra o esquema de corrupção do Ministério da Agricultura no Paraná (clique aqui). O Sindicato Nacional dos Fiscais Federais Agropecuários (ANFFA Sindical) denunciou nomeações políticas autorizadas pelo Ministro da Agricultura Blairo Maggi:

“Ainda segundo o delegado sindical Daniel Teixeira ‘a categoria está perplexa com a nomeação de Gil nestas condições e ainda com a hipótese aventada por ele de nomear a recém exonerada Chefe do SIPOA-PR Maria do Rocio Nascimento’. Na opinião de Daniel Teixeira ‘essa manobra está parecendo uma grande costura política entre PP e PMDB para a manutenção do status quo da gestão da SFA-PR’”.

Provavelmente a operação apurou a caixinha para Sérgio Souza e para o Ministro da Justiça Osmar Serraglio. Mas não foi mencionada no relatório devido à prerrogativa de foro de ambos.

PEÇA 4 – A RESPONSABILIDADE DOS RURALISTAS
Muitos ambientalistas e indignaram com a defesa da pecuária brasileira que, segundo eles, mantém mão de obra escrava e afeta o meio ambiente.

Ora, o caminho é lutar pelo aumento das investigações, das punições contra esses crimes específicos, não pela destruição do setor.

Mais de dez anos atrás, Blairo Maggi sentiu que os problemas com meio ambiente poderiam afetar as exportações de soja. E tomou uma série de medidas para reduzir o dano, depois que foi contemplado com o troféu Motosserra de Ouro.

As ameaças à produção brasileira não estão apenas nas barreiras fitossanitárias, mas também no chamado dumping social, dos quais o crime mais grave é o da situação análoga à escravidão. Se não forem atacadas firmemente, os problemas ambientais e sociais afetarão mais as exportações brasileiras do que dez operações Carne Fraca.

PEÇA 5 – OS PROBLEMAS DO ESTADO DE EXCEÇÃO
Moscardi é cria direta do estado de exceção defendido pelo Ministro Luís Roberto Barroso. Só uma situação de exceção para permitir a um delegado inexperiente e inepto mobilizar mais de mil agentes da PF e comprometer a imagem da pecuária brasileira em todo o planeta.

Na outra ponta, um presidente medroso, que não ousa a mínima crítica contra a Operação, porque a qualquer momento delegados ou procuradores podem vazar delações contra ele. E quem deveria comandar a operação é um Ministro da Justiça cúmplice e beneficiário dos fiscais corruptos denunciados.

Quanto tempo mais demorará para cair a ficha que o maior risco enfrentado pelo país é o fator Temer? A estrutura do Estado está sendo desmanchada, com aparelhamento até de áreas estratégicas.

***

SOBRE OS PECADOS DA CARNE
Igor Fuser em 19/3/2017

1) Precisamos deixar de lado, até evidência em contrário, a teoria conspirativa de que a Operação Carne Fraca é um golpe do imperialismo contra a economia brasileira. Todas as interpretações bem informadas, como a do jornalista Luís Nassif, apontam para uma disputa interna na cúpula da Polícia Federal, ou seja, um conflito no interior do campo governista/golpista, por motivos miúdos.

2) A versão de que empresários estadunidenses seriam os grandes beneficiários com o enfraquecimento dos frigoríficos brasileiros também carece de comprovação. Como me explicou um amigo que entende do assunto (e confirmei pesquisando), os EUA são importadores de carne. Quem, a princípio, teria condições de ocupar o espaço atualmente brasileiro no mercado global de carnes é a Argentina e o Uruguai, mas falta às empresas desses dois países escala para fazer essa substituição de uma hora para outra.

3) Recomendo muita cautela com certo discurso, atualmente em voga em parcelas do campo progressista e/ou de esquerda, de idolatria ao “capitalismo brasileiro”, às “forças produtivas”, a uma ideia abstrata de “desenvolvimento” apresentada como um valor positivo em si mesmo. O importante é avaliar com critério quais são os empreendimentos capitalistas em foco, a quais interesses eles estão servindo, quais interesses estão sendo prejudicados. No caso da cadeia produtiva exportadora de carne, os prejudicados são os camponeses sem-terra, os índios expulsos e assassinados, a Amazônia e o Cerrado destruídos para dar lugar a pastagens, o povo brasileiro submetido a um modelo econômico elitista, concentrador da renda e da terra.

4) A esquerda brasileira, se quiser sobreviver ao atual tsunami político e midiático, precisa defender com firmeza seus princípios, seus valores – princípios e valores classistas que também são morais, éticos e humanistas. Não podemos ser condescendentes com empresas que enganam os consumidores, corrompem fiscais da vigilância sanitária e põem em risco a saúde da população. Isso não significa ignorar o jogo sujo de interesses que está por trás da conduta dos pitbulls da PF, do Ministério Público e do Judiciário em geral, muitos deles movidos por uma ideologia fascista.

5) Sempre é bom lembrar quem somos nós da esquerda – pessoas que fizemos uma opção pela defesa dos oprimidos, pela emancipação nacional e social – e quem são os nossos inimigos. E nós sempre assinalamos com destaque entre esses inimigos a oligarquia do agronegócio, que aliás foi um dos vetores do golpe de 2016, juntamente com todo o resto do empresariado brasileiro (será que já se passou tanto tempo que alguns companheiros se esqueceram disso?).

6) Enfim, devemos ter claro que essa briga da carne é deles, da burguesia e da direita golpista. Não é nossa. A nossa briga, no momento, tem como foco a defesa da previdência pública, dos direitos trabalhistas, do pré-sal e a resistência ao golpismo, golpismo que tem como alvo máximo na atualidade a liderança e a possível candidatura presidencial de Lula.

Agora vou comer o meu churrasco (mentira, estou de dieta).

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3 Respostas to “A Operação Carne Fraca e o estado de exceção”

  1. bloglimpinhoecheiroso Says:

    Como está escrito na matéria, é de Luis Nassif.

  2. Bene Nadal Says:

    A operação “carne fraca”, ao que tudo indica, é só mais um golpe na indústria brasileira… A exemplo do que foi feito com a indústria da construção naval, do petróleo, das ferrovias, etc., agora a indústria da carne… Aliás já vimos isso “em outros golpes”! É só mais um golpe, e outros virão pois a DETONAÇÃO da economia brasileira está só começando… Os neoliberais, não se contentam enquanto as multinacionais, ou transnacionais, como queiram, não tomarem conta pelo menos da parte ocidental do Planeta, depois quem sabe, atacam o outro lado… A defesa de quem defende os neoliberais, é que isso é falácia de uma tal “teoria da conspiração”, apenas repetem o que os meios de comunicação (mercenários), repetem indefinidamente.
    Quem viver verá, o que já devíamos “todos” estarmos sabendo; basta estudarmos os rumos da economia no ocidente, com ênfase, depois da segunda grande guerra… Está explícito em cada golpe, a ação nefasta daqueles que acreditam que deverão “religiosamente”, dominar o mundo, custe o que custar, e o caminho escolhido foi o financeiro… todos deveriam ler “Os Protocolos dos Sábios de Sion”…

  3. Lucy Roitman Says:

    Olá
    Gostaria de saber o autor deste post. Agradeço pela inform
    Enviado do meu iPhone

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