Sob o tacão da mídia, TSE prepara nova violência contra a democracia

Miguel do Rosário, via O Cafezinho em 16/3/2017

Lasciate ogni speranza,
voi ch’entrate.

A frase que Dante fixou na porta do inferno nunca foi tão atual como no Brasil do golpe.

A cassação da chapa de Dilma/Temer me parece favas contadas. Se o golpismo tinha poder sobre o TSE antes do impeachment, agora a sua ascendência tornou-se infinitamente mais poderosa.

Reportagem da Folha de dois dias atrás (só tive tempo de analisá-la hoje), transmite um recado nada sutil para o relator do processo no TSE.

O título da matéria aborda a vida sexual do ministro, coisa que nunca se viu em relação a nenhum outro magistrado.

É mais um capítulo do regime de exceção: mídia chantageando ministros à luz do dia.

A podridão não para por aí. A matéria da Folha reúne, num só texto, todas as armas da mídia e do golpe para convencer um ministro a obedecer suas diretrizes: ameaças, propinas, vaidade, indicação a um cargo superior.

A ameaça já foi abordada. A exposição da vida sexual do ministro no título de uma matéria, num país tão homofóbico como o nosso, me parece suficientemente ameaçadora.

A propina é uma promessa óbvia. Não falta dinheiro para juízes que aderem ao golpismo. A Globo dá prêmio. Revistas norte-americanas dão prêmios. Chovem convites para palestras, inclusive no exterior, mediante cachês sobre os quais o CNJ, oportunamente, decretou sigilo, em meados de 2016 (na mesma semana em que, coincidentemente, Sérgio Moro foi convidado para uma palestra num importante think tank de Washington).

Por que o CNJ decretou sigilo sobre valor de palestras de juízes exatamente no momento mais delicado da vida política nacional, em que a crise política pede transparência absoluta, em especial para magistrados? Por que a imprensa corporativa, sempre tão curiosa sobre a renda dos políticos, não demonstrou o mesmo interesse por essa estranha renda extra para juízes?

Voltando à matéria da Folha sobre Herman Benjamin, o fator vaidade também não falta. A matéria é bem direta nesse ponto:

Benjamin é vaidoso, dizem os mais próximos, e sabe que tem oportunidade de fazer história a poucos meses de deixar a corte, em outubro deste ano.

A expressão “Fazer história”, numa matéria da Folha, não deixa dúvidas: é aderir de vez ao golpe.

Por fim, o jornal abana a última cenoura à frente de Benjamin: uma vaga para ministro do STF. A referência não poderia ser mais direta. Parodiando, Nelson Rodrigues, os malandros perderam a modéstia.

Benjamin quer aproveitar a oportunidade [a votação da cassação da chapa Dilma/Temer] para se credenciar a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

A coisa é muito direta. Benjamin cassa a chapa e, mais tarde, ganha uma vaguinha no STF.

Michel Temer não precisa se preocupar. Cinco ministros do TSE (são sete, no total) já indicaram, segundo o Estadão, um dos porta-vozes oficiais do golpe, que irão votar pela separação das chapas. Ou seja, vão cassar somente Dilma e preservar o mandato de Temer, em nome da “estabilidade política”.

A questão intrigante é, se não vão cassar Temer, porque perder tempo julgando Dilma, que não é mais presidenta? A resposta é simples: consolidar a narrativa da “luta contra corrupção”, desviar o foco da crise econômica e, sobretudo, uma demonstração de poder por parte do mesmo consórcio que liderou o golpe.

Em tempos de exceção, todos ministros antecipam seu voto alegremente. Ou então se trata, como também é possível, de uma estratégia malandra da imprensa corporativa, que vota no lugar dos juízes.

É tudo tão simples!

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