O sistema político e a mídia trabalham para impedir que a vontade popular seja ouvida

Luis Felipe Miguel, lido no Esquerda Caviar em 16/3/2017

O governo, como esperado, ignora as manifestações e amplia sua ofensiva sobre o Congresso, aumentando as vantagens que oferece a deputados e senadores (cargos, prebendas, oportunidades de negócio) para compensar o desgaste causado pelo eventual apoio a uma proposta tão impopular.

A imprensa não consegue ignorar as manifestações, mas adota estratégias diversas para minimizá-las. O Estadão dá na capa o “transtorno” com a paralisação dos transportes (embora as enquetes todas tenham mostrado que os usuários concordavam com as razões do movimento). A Folha, que se quer mais esperta, dá uma foto que mostra a dimensão do ato na Paulista, mas a manchete é “Protestos contra reformas de Temer ocorrem em 19 capitais”. O texto na capa, logo em seguida, já diz: “Ao menos 19 capitais e o Distrito Federal tiveram protestos…” Como assim, “ao menos”? Que tipo de jornalismo é esse que, em tempos de internet, não consegue saber se ocorreram ou não manifestações em sete capitais brasileiras? E porque a manchete pelo menos não arredondou para 20, uma vez que o DF, afinal, também é capital, a capital do país?

Dentro, a reportagem está no caderno de economia, como se a reforma da previdência não fosse questão política. E não existe maneira de o leitor da Folha saber que, além das “ao menos 19 capitais” e do DF, a população foi às ruas em dezenas e dezenas de cidades do interior.

Também está, bizarramente, na seção de economia a notícia de que Rodrigo Maia assinou “despacho técnico” que permite que a reforma trabalhista seja aprovada sem passar pelo plenário da Câmara, tramitando apenas na comissão especial que a discute. É claramente uma medida desesperada para tentar impedir que a pressão popular repercuta no Congresso.

O sistema político funciona, em grande medida, no sentido de impedir que a vontade popular seja ouvida. Ela é invocada de forma ritual, usada quando convém, desprezada quando necessário. Mesmo nos regimes considerados democráticos é assim: a soberania popular se curva diante dos interesses poderosos. A Grécia que o diga. No Brasil pós-golpe, sob um governo que não tem nenhum incentivo para ouvir a população, pois não deve seu mandato a ela, é pior ainda. Por isso, as manifestações de ontem precisam ser entendidas como um começo. A esperança de derrotar os retrocessos e garantir os direitos depende de fazer a mobilização crescer em intensidade, tamanho e disposição de luta.

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