MBL e Vem Pra Rua convocam população para mais uma farsa

João Filho, via The Intercept Brasil em 12/3/2017

Depois de passarem meses hibernando durante o governo não-eleito de Michel Temer, os grupos que ajudaram a levá-lo ao poder anunciaram que voltarão às ruas. As manifestações em todo o Brasil estão marcadas para dia 26/3 com uma pauta difusa. O Vem Pra Rua, grupo liderado pelo empresário Rogério Chequer, diz que fará uma defesa da Lava-Jato. Ele jura que o movimento é suprapartidário, mas já publicou vídeo ao lado de FHC pedindo voto para Aécio – um ultra delatado na operação.

O MBL também sairá em defesa da Lava-Jato, mas também por outras bandeiras: fim do Estatuto do Desarmamento, fim do Foro Privilegiado, contra o fim da Polícia Militar, Reformas Trabalhista e Previdenciária e fim das mamatas dos políticos e do judiciário

Ambos os grupos já adiantaram que irão poupar Michel Temer e o governo. Chequer chegou a dizer que “as manifestações não serão para detonar o governo Temer, mas contra a corrupção, a impunidade e em defesa da renovação da política velha”.

Achei sensacional esse protesto a favor. Defender a Lava-Jato poupando o governo Temer é como querer proteger Davi dando tapinha nas costas de Golias. É como denunciar o golpe e a corrupção durante o dia, mas beijar a mão de Aécio Neves em festinha de aniversário à noite. Não faz sentido.

O grupo político que sustenta o governo vem trabalhando sistematicamente para boicotar a Lava-Jato. Dentre tantas medidas para estancar a sangria e jogar areia nos olhos da Polícia Federal, destaco as duas tentativas mais importantes que tiveram apoio direto de Temer:

Projeto de Leniência: no fim do ano passado, André Moura (PSC), homem ligado a Cunha e líder do governo na Câmara à época, foi orientado por Temer para mobilizar a base e aprovar com urgência o projeto que, na prática, representaria o fim da Lava-Jato, segundo os procuradores da operação.

Anistia ao caixa 2: depois de tentar por duas vezes anistiar o caixa 2 no ano passado, a turma da pesada de Temer voltou com tudo essa semana. Segundo apuração da Folha, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), e o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB/CE), ambos afinadíssimos com Temer, têm se reunido com líderes dos partidos “para discutir a melhor maneira de aprovar não só a anistia ao caixa 2, mas também um pacote mais amplo, incluindo anistia a doações oficiais nos casos em que o dinheiro for considerado de fonte ilícita”.

Portanto, que história é essa de defender a Lava-Jato poupando quem está usando e abusando da máquina pública para driblar a operação? Que luta contra a corrupção é essa que poupa os corruptos? Não é um pensamento que tenha sentido lógico, mais parece uma crença, uma fé. É como aquele papo de odiar o pecado, mas amar o pecador.

Sem muito esforço é possível entender a passada de pano do MBL para o pecador, já que suas ligações com Temer e PMDB não são de hoje. Não é possível mais manter o apartidarismo de fachada.

Primeiro, o PMDB ajudou a financiar as manifestações do grupo a favor do impeachment. Depois, um dos principais líderes do MBL entrou para o DEM apadrinhado pelo governista Pauderney (DEM/AM), que já foi condenado por desvios milionários em seu estado e é acusado de receber R$250 mil de empresa investigada na Lava-Jato. Mais tarde, Michel Temer pediu ajuda ao movimento para “tornar as reformas mais palatáveis”. Na reunião que o fundador do grupo, Renan Santos (réu em, pelo menos, 16 ações cíveis e mais 45 processos trabalhistas), teve com Moreira Franco ( investigado na Lava-Jato) ficou combinado que o MBL ajudaria na comunicação do governo para vender as reformas previdenciária e trabalhista. E eles estão seguindo à risca o pedido do comandante. Vão para as ruas defender essas propostas do governo, como já estão fazendo sistematicamente em suas redes sociais.

Essa ação em defesa da Lava-Jato serve apenas para prestar contas para o seu rebanho e tentar manter, pelo menos nas aparências, coerência com o discurso histórico destes grupos. Não se luta contra a corrupção no Brasil hoje, de fato, sem denunciar e apontar o dedo na cara da cúpula governista que trabalha diuturnamente para se safar driblando as investigações. Não há mais aquela intolerância contra a corrupção que havia durante o governo Dilma. Corruptos agora serão poupados para que avancem as reformas rejeitadas pela população nas urnas. É disso que se trata a manifestação convocada para o dia 26. Estamos diante de uma farsa.

Os movimentos não são independentes, não são apartidários e não lutam contra a corrupção. Viraram linhas auxiliares de Temer e prestam serviço de assessoria de comunicação ao governo. Tanto nas redes, quantos nas ruas, esses grupos dizem defender a Lava-Jato enquanto trabalham e traçam estratégias junto de políticos envolvidos até o pescoço na operação.

Na última quinta-feira, incomodado por perder espaço, Renan Calheiros disse que Eduardo Cunha comanda o governo de dentro da cadeia. Os fatos comprovam que o senador não está exagerando, conforme explica o roteiro da chantagem descrito pelo Poder 360. Ou seja, temos um senador da República, aliado do presidente, afirmando que um criminoso comanda o governo Temer de dentro da prisão na base da chantagem. Será que isso fará MBL e Vem Pra Rua pedirem o impeachment do seu aliado político? Ou esse modus operandi à la PCC, denunciado por um integrante do próprio governo, não é tão grave quanto as pedaladas fiscais?

Não sabemos ainda se o Pato Inflável da Fiesp estará presente na manifestação. É que o seu patrono Paulo Skaf (PMDB) é acusado na Lava-Jato por receber propina da Odebrecht, e seus aliados já estão trabalhando para trazer a CPMF de volta. O Pato, que foi às ruas para lutar contra a corrupção e o aumento de impostos, deve estar constrangido. Ao que tudo indica, dali só podemos esperar coerência e vergonha na cara de um boneco inflável.

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