As igrejas evangélicas brasileiras agora querem ser a operadora de celular dos fiéis

Um novo meio de pregação figura em centenas de milhares de chips pelo país. E é só o início do culto.

Guilherme Tagiaroli, via MotherBoard Vice em 9/3/2017

As igrejas evangélicas não estão nem aí: se é pra espalhar a palavra, usarão os meios precisos. A gente sabe que que elas se utilizam de programas de televisão, operadoras próprias de TV a cabo, serviços de streaming tipo Netflix com filmes e pregações e, por que não, cartões de crédito. Para fechar o círculo, a última fronteira a ser explorada por algumas denominações é fornecer um serviço de operadora móvel.

No mercado nacional, há pelo menos três exemplos de igrejas evangélicas que atuam como uma operadora móvel virtual (ou MVNO, Mobile Virtual Network Operator, no jargão das telecomunicações). A pioneira nisso foi a Assembleia de Deus com a Mais AD; depois veio a Igreja da Fé (que está homologada, mas ainda não opera) e, mais recentemente, a Sara Nossa Terra com a Mais Parceiros de Deus.

Não é à toa que essas igrejas são pioneiras na modalidade de negócio. “Essas denominações são muito ágeis”, explica Edin Abumansur, do departamento de teologia e ciências da religião da PUC-SP. “Algumas tradicionais, como católica, luterana ou metodista, até por um senso de proteção, se movem de forma muito mais lenta. Enquanto isso, em algumas igrejas neopentecostais, as decisões geralmente são centralizadas e tomadas de forma mais rápida.”

Na prática, as igrejas não têm infraestrutura de rede — até porque seria caríssimo — e geralmente não têm expertise própria. Para criar essas operadoras virtuais, costuma haver três partes envolvidas: uma operadora vertical (como Vivo, Tim, Claro ou Oi) que aluga parte de seus ativos, uma companhia que trata dos trâmites legais da construção da operadora virtual e, por fim, a denominação religiosa que entra com os fiéis. O interessante neste processo é que a igreja não costuma investir na criação dessas operadoras. É uma habilitadora de operadora móvel virtual que vai atrás delas.

O modelo de negócios é de compartilhamento de receitas. A partir do momento que uma pessoa compra a recarga de celular e a utiliza, há uma divisão entre a operadora principal e a habilitadora que, por sua vez, repassa parte dos ganhos para a instituição religiosa. “As operadoras veem nesse processo uma possibilidade de aumento de base, enquanto a operadora virtual conta com a oportunidade de usar os ativos e receber um faturamento”, afirma Fabio Casotti, gerente de monitoramento das relações entre prestadoras da Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações).

“Com a operadora virtual, ele consegue mandar uma mensagem instantânea sobre um evento para milhões de pessoas em questão de segundos”.

O mercado brasileiro de telecomunicações é gigante. A Anatel contabiliza cerca de 240 milhões de acessos (ou, se você preferir, chips de telefonia ativos). Logo, em termos absolutos, qualquer nicho pode alavancar uma operação de pequeno ou médio porte.

O pulo do gato das operadoras virtuais é a segmentação. As grandes operadoras estão preocupadas com os clientes de modo geral e dificilmente trabalham com algo específico para nichos. No caso das igrejas, a divulgação dessas operadoras é 100% direcionada aos fiéis. “Pra que vamos continuar usando outras operadoras, que patrocinam indiretamente eventos mundanos [como Carnaval, comerciais de novelas que ferem os nossos princípios e até parada gays], se temos uma operadora nossa, que fornece os mesmos serviços e ainda contribui na obra de Deus?”, diz um trecho de um vídeo promocional do canal da Mais AD, a operadora da Assembleia de Deus, no YouTube (abaixo). Todo dinheiro obtido pela operadora, afirmam seus responsáveis, é direcionado a obras sociais e missionárias.

Além de ajudar financeiramente a denominação religiosa, as operadoras virtuais costumam trabalhar com conteúdos específicos, como mensagens de um líder ou com links para instalação de novos apps. A estrutura de telecomunicações acaba sendo uma ferramenta eficiente de comunicação para esses nichos.

“Imagine um líder religioso que precisa comunicar algo para 2 milhões de pessoas. Antes, ele tinha que fazer uma série de intervenções, investimento em publicidade e folhetos. Com a operadora virtual, ele consegue mandar uma mensagem instantânea sobre um evento para milhões de pessoas em questão de segundos”, explica Aline Storchi, CEO da Movttel. A companhia é responsável por habilitar as operadoras virtuais da Assembleia de Deus e da Sara Nossa Terra, que utilizam a rede da Vivo.

No que diz respeito às ofertas de planos, elas são bem parecidas com as das operadoras principais. Até por uma questão de contrato, as operadoras virtuais contam com portfólio parecido de serviços. Tanto Sara Nossa Terra como a Assembleia de Deus oferecem os mesmos dois planos pré-pagos semanais (que custam R$8,00 e R$10,00, respectivamente) e outros dois mensais (que custam R$40,00 e R$191,00), tipo Controle.

As operadoras atuantes não divulgam números de usuários. A Movttel informa que em um ano de operação da Mais AD foram emitidos 100 mil chips. A empresa aguarda fechar o ano de 2017 com 500 mil clientes (que abrange não só igrejas evangélicas, mas outros nichos atendidos pela companhia).

Independentemente disso, há motivos para crer que o ramo crescerá. Dados do Datafolha do fim de 2016 mostram que três em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais são evangélicos — o que representa uma massa de 60 milhões de pessoas. Considerando que as operadoras estão no início, há muito chão para levar a palavra a este público.

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