Em 2001, FHC barrou a transposição do São Francisco que Lula e Dilma fizeram

Via Brasil 247 em 6/3/2017

Uma das principais obras do País e uma das marcas da gestão petista na presidência da República, a Transposição do Rio São Francisco já começou a levar água para nordestinos. O ex-presidente Lula compartilhou em sua rede social vídeos de pessoas comemorando a chegada da água na região. “Se não fosse Lula e Dilma, não teria isso aqui não”, diz um morador de Sertânia, ao mostrar a água chegando no reservatório da cidade (leia mais). Depois de concluída, a obra levará água para quase 400 cidades nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

O curioso é que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) prometeu realizar a obras em suas duas campanhas eleitorais (1994 e 1998). Vale ressaltar que, no mês passado, o seu correligionário, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), quis tirar uma “casquinha” na obra ao chamar parte da responsabilidade para si. “As tubulações e bombas que foram utilizadas no Cantareira agora estão servindo à população da Paraíba e de Pernambuco”, diz o texto publicado por Alckmin no Facebook.

Confira agora uma reportagem da Folha, publicada em 2001, em que fala sobre a desistência de FHC em fazer a obra sair do papel, o que era promessa de campanha:

FHC DESISTE DE TRANSPOR O RIO SÃO FRANCISCO
THOMAS TRAUMANN
DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente Fernando Henrique Cardoso desistiu de realizar a transposição do rio São Francisco, uma das suas promessas eleitorais das campanhas de 1994 e 1998. A decisão foi comunicada a assessores e parlamentares, segundo apurou a Folha.

Oficialmente, a obra, orçada em R$3 bilhões, só não começou porque aguarda há dez meses a autorização do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). A construção continua incluída no Avança Brasil, o programa de obras do governo federal, e tem R$200 milhões previstos no Orçamento deste ano.

Mas, na prática, a transposição não sairá do papel.

Planejado e adiado desde o reinado de d. Pedro 2º, o projeto de transposição previa a construção de uma espécie de rio artificial que levaria, por canais de irrigação, as águas da bacia do São Francisco na divisa entre Pernambuco e Bahia para o próprio Pernambuco, além de Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

A Folha apurou que, para evitar choque com as bancadas dos Estados beneficiados, o governo poderá manter a obra em suas previsões para o ano que vem. Mas será jogo de cena.

Na realidade, o governo vai substituí-lo por um plano de incentivo à agricultura familiar e ao plantio de árvores nas margens do rio São Francisco, orçado em R$70 milhões. A maior parte das margens do rio sofre com desmatamento e assoreamento. O dinheiro já foi liberado para o Ministério da Integração Nacional, mas é disputado também pelo Ministério do Meio Ambiente.

Nos últimos três anos, estudos de engenharia, viabilidade técnica, impacto ambiental e audiências públicas sobre a obra consumiram cerca de R$4 milhões.

“Agora não dá”
A decisão de abandonar o projeto da transposição foi transmitida pelo presidente nas últimas semanas a assessores e parlamentares. Nas conversas, o presidente usou como razão a atual seca no Nordeste, que reduziu a vazão do São Francisco para os níveis mais baixos dos últimos 30 anos.

Repetiu o argumento em entrevista publicada na sexta-feira no jornal Correio Braziliense: “Transposição, agora, não dá. Não tem água no São Francisco”, disse o presidente.

Na assessoria do Planalto, são enumerados outros quatro motivos para descartar a transposição. O primeiro é circunstancial. Segundo o próprio relatório de impacto ambiental encomendado pela Integração Nacional, a obra pode derrubar em até 10% a produção de energia da Chesf (a central hidrelétrica que utiliza as águas do rio) entre os reservatórios de Itaparica e Xingó.

Seria um efeito colateral politicamente indefensável em tempos de racionamento de energia.

Outra causa é política: o último grande defensor da ideia no governo, Fernando Bezerra (PTB/RN), foi defenestrado em maio do ministério da Integração. Seu substituto, Ramez Tebet (PMDB/MS), não tem interesse no projeto nem base eleitoral no Nordeste.

Além disso, a construção tem oposição dos políticos da Bahia, Sergipe e Alagoas – os Estados de onde a água sairia para chegar a Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

O terceiro motivo foram os seguidos adiamentos do projeto no governo FHC. Mesmo se as obras começassem amanhã, em ritmo acelerado, dificilmente FHC conseguiria inaugurar ainda como presidente o primeiro dos seis trechos da transposição.

Os assessores palacianos informaram que seria contraproducente o governo iniciar uma obra tão gigantesca sem saber se teria apoio do próximo presidente.

Por último, FHC disse nas conversas que o governo não tem dinheiro. Os R$3 bilhões estimados para a transposição equivalem ao orçamento anual da Eletrobrás. Os defensores da transposição argumentam que o governo federal gastou R$850 milhões para combater os efeitos da seca de 1999.

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