Brasileiro é jurado de morte por grupo remanescente da Operação Condor

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Joaquim de Carvalho, via DCM em 1º/3/2017

O fiscal da Corte do Uruguai, Jorge Díaz, que tem funções equivalentes às do procurador Rodrigo Janot no Brasil, encontrou em sua caixa de e-mails uma mensagem com ameaça de morte a ele e a mais 12 pessoas que lutam para que a violação aos direitos humanos que ocorreu durante as ditaduras militares na América do Sul seja investigada e os acusados, processados.

Na lista das pessoas ameaçadas de morte, está o nome de um brasileiro, Jair Krischke. A notícia foi divulgada no dia 17 de fevereiro pelo site de notícias e análises políticas uruguaio Brecha, veículo que, no passado, quando era um semanário impresso, teve o escritor Eduardo Galeano como editor-chefe.

No Uruguai, a notícia repercutiu até em programas de rádio, com um debate sobre as atividades de grupos remanescentes da ditadura.

O jornal espanhol El Pais também noticiou a ameaça de morte. Mas, no Brasil, até agora, silêncio absoluto. O brasileiro Krischke, um dos ameaçados, é o líder do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Brasil, com sede em Porto Alegre.

No auge das ditaduras na América do Sul, Krischke ajudou a encontrar refúgio para perseguidos políticos de todo o continente.

Contatado pelo Diário do Centro do Mundo, Krischke diz que pediu providências ao consulado do Uruguai em Porto Alegre e foi informado de que, de fato, existe a mensagem com o nome de jurados de morte e que ele está na lista.

Agora, Krischke quer levar o tema para a Comissão de Direitos Humanos da OEA.

“Não vou dizer que não tenho medo, mas temos que enfrentar essa situação e descobrir onde e como esses grupos ainda se mantêm em atividade”, afirmou Krischke.

A investigação no Uruguai esbarrou numa primeira dificuldade: o e-mail partiu de uma conta usada no sistema de internet conhecido como Tor, que mantém seus usuários no anonimato.

Aos 77 anos, casado, cinco filhos, proprietário de uma loja que herdou do pai em Porto Alegre, Krischke é respeitado internacionalmente por sua luta em defesa dos perseguidos pela ditadura e pela punição aos envolvidos em casos de tortura.

Com o fim das ditaduras militares, Krischke teve atuação decisiva na localização de militares argentinos e uruguaios processados em seus países e foragidos no Brasil.

Filho de alemão, Krischke tem uma atuação parecida com as atividades de judeus que buscaram ao redor do mundo nazistas acusados de crime contra a humanidade.

Graças ao seu empenho pessoal, o general uruguaio Manuel Cordero foi localizado há alguns anos em Santana do Livramento e extraditado para a Argentina, onde foi processado pelo crime de tortura dentro da Operação Condor, rede que uniu ditaduras militares da América do Sul, inclusive a brasileira, na perseguição e repressão a opositores do regime.

Cordero, que servia no Uruguai e fez intercâmbio nos porões de Buenos Aires, foi condenado a 25 anos de prisão e, já idoso, deve morrer na cadeia.

Krischke também teve atuação decisiva na localização de outro militar uruguaio envolvido na Operação Condor, o coronel Pedro Antônio Mato Narbondo, que fugiu para o Brasil depois de processado em Montevideo.

Ele também morava em Santana do Livramento, com nome ligeiramente alterado. No processo em que obteve cidadania brasileira, por ser filho de brasileira e casado com uma brasileira, passou a assinar Pedro Antônio Narbondo Mato.

A Itália, que investiga a Operação Condor há quase 20 anos, pediu a extradição do coronel uruguaio e, por pouco, ele não escapou.

O ministro Marco Aurélio Mello, invocando princípio da lei da anistia, negou a extradição, mas foi voto vencido e Narbondo Mato ou Mato Narbondo poderá ser extraditado.

No momento, o coronel Narbondo cumpre prisão domiciliar no Brasil – o que, na opinião de Krischke, é um absurdo, já que o expediente da prisão domiciliar não se aplicaria a um caso de extradição.

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O general Barneix, em cujo nome chegou a ameaça, se suicidou em casa.

Krischke já esteve na Itália e em Buenos Aires para prestar depoimentos sobre a ação dos militares envolvidos em tortura. Também ajudou na localização do filho de uma militante argentina entregue para a adoção depois que sua mãe lhe deu à luz.

Na preservação da memória do terror de Estado, Krischke implantou na cidade de Porto Alegre, em convênio com a prefeitura da cidade, um projeto que identifica com uma pedra na calçada os imóveis utilizados para violação de direitos humanos, como casas de tortura.

Atitude parecida existe na Alemanha, para que o passado não enterre o horror do nazismo.

Esse projeto resultou num “convite” para que conversasse com dois militares de alta patente do Sul a respeito do que pretendia com a colocação das pedras.

“O senhor não vai colocar pedras no meu quartel, vai?”, perguntou um deles.

“Eu não sabia que o senhor era dono de quartéis. Pensei que fossem da República”, respondeu.

A conversa se estendeu das 19 horas até 1 da madrugada. Krischke explicou que sua ação não era contra os militares, mas em defesa da dignidade humana.

Ele prefere manter o nome dos militares de alta patente em sigilo, dado o caráter informal da conversa, mas cita o encontro para demonstrar que os militares estão ativos na defesa do que fizeram quando governaram o Brasil. Não foram colocadas pedras na frente dos quartéis.

Segundo Krischke, os militares ainda têm atuação decisiva nos países do Cone Sul – menos na Argentina, mais no Brasil, no Uruguai e no Chile. A diferença em relação à Argentina e ao Uruguai é que lá as ditaduras militares são temas de debates abertos, enquanto, no Brasil, o assunto permanece quase como tabu.

Foi nas ações de trazer ao presente as memórias do passado – para que nunca mais se repitam erros – que se encontra a origem da ameaça de morte agora investigada no Uruguai.

O grupo que enviou a mensagem ao procurador Jorge Díaz se intitulou Comando General Pedro Barneix. O nome do grupo é uma referência ao oficial que se suicidou em setembro de 2015, quando seria preso, por ordem judicial, pelo envolvimento na tortura e morte do militante de esquerda Aldo Perrini, em 1974.

Barneix era então um jovem tenente do Batalhão de Infantaria de Colonia, Uruguai, onde Aldo se encontrava preso.

Barneix teve o nome relacionado ao caso de tortura e morte depois que atuou numa comissão para localizar desaparecidos políticos e foi criticado pelos resultados pífios.

Apesar disso, era considerado um militar de confiança do primeiro governo de Tabaré Vasquez, considerado de esquerda, e foi cotado para assumir o Ministério da Defesa.

Implicado na morte do militante Aldo, o general Barneix foi convocado a depor, mas se recusou. A Justiça, então, mandou busca-lo à força. Quando os policiais estavam na porta de sua casa, se matou com um tiro na cabeça.

Alguns meses depois, o Grupo de Investigação de Arqueologia Forense, que identificava ossadas humanas que poderiam ser de desaparecidos políticos, foi invadido e teve arquivos levados embora.

A polícia ainda não identificou os invasores, mas, com a ameaça de agora, se reforça a suspeita de que seja o mesmo grupo.

Diz a mensagem enviada ao procurador Jorge Díaz: “O suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune, nem se aceitará mais nenhum suicídio por processos injustos. Para cada suicídio a partir de agora, mataremos três escolhidos aleatoriamente na seguinte lista (e seguem-se os nomes)”.

A mensagem enviada para a caixa postal do fiscal da Corte do Uruguai é interpretada pelas vítimas da ameaça do Comando General Pedro Barneix como uma evidência de que o ninho da Operação Condor não desapareceu por completo.

E também como prova de que os ovos gestados naquela época se transformaram em serpentes.

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Ditadores Pinochet e Videla.

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