Para economista, governo quer convencer população de que “é bom perder direitos”

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Ministro Henrique Meirelles disse que “Brasil hoje já está crescendo e essa recessão já terminou”.

Ao dizer que recessão terminou, ministro da Fazenda usa estratégia midiática, em momento de fragilidade das pessoas. “Com argumento calculado e repetição, você convence pessoas que tomar veneno é bom”.

Eduardo Maretti, via RBA em 22/2/2017

A fala do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ontem [21/2], segundo a qual a recessão brasileira acabou, “é o tipo de declaração para vender otimismo e um resultado que ainda não veio”. Mais do que isso, para o economista Guilherme Mello, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a declaração de Meirelles faz parte de uma estratégia midiática que envolve milhões de pessoas, muitas das quais acabam sendo convencidas de que o país e a economia vão bem e que reformas contra seus próprios direitos são positivas para elas e para a nação.

“Você consegue, com a propaganda certa, o argumento calculado e a repetição, convencer pessoas que tomar veneno é bom. Por mais que a realidade diga que a coisa vai muito mal, exatamente por isso as pessoas querem e precisam acreditar que vai melhorar. Então, se usa esse momento de fragilidade das pessoas para bombardear uma mensagem de otimismo através da imprensa, repetidamente, para ver se a coisa cola”, diz Guilherme.

Com base nessa estratégia, o economista prevê que, para emplacar a reforma da Previdência, os atuais governantes vão tentar convencer as pessoas de que elas ganharão com as mudanças, que, na verdade, significarão a retirada de grande parte da chamada rede de proteção social que o povo brasileiro ainda tem. “Explora-se o medo, as necessidades e os desejos das pessoas para convencê-las de que coisas que as prejudicam, na verdade, são para o bem delas, que é muito bom para elas perderem o direito de se aposentar, e parte das pessoas vai acreditar. Isso é grave.”

“O Brasil hoje já está crescendo e essa recessão já terminou. É uma recuperação sólida, impulsionada por medidas fundamentais. A PEC do Teto foi impulsionadora desse crescimento, e a (reforma) da Previdência, além de ser fundamental, está no centro desse processo”, disse Meirelles, na companhia do presidente Michel Temer, em reunião da comissão especial da reforma da Previdência, no Palácio do Planalto. “A mensagem é de que é mais importante ter a segurança de que vão receber a aposentadoria do que a expectativa de que vão se aposentar um pouquinho mais cedo ou tarde, gerando insegurança no futuro”, acrescentou.

Sinais
Segundo Meirelles, “sinais sólidos de recuperação” da economia são a valorização da Bolsa de Valores, ganhos de valores relacionados ao Banco do Brasil, à Petrobras e à Vale, além da queda do risco Brasil e do dólar.

Porém, para “decretar” o fim da recessão, seria preciso de pelo menos um trimestre de crescimento positivo. Segundo Mello, os dados em que alguns analistas se baseiam para dizer que a economia está se recuperando “são muito questionáveis quanto à amplitude”. Por exemplo, a informação de que a indústria paulista voltou a contratar. Segundo o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp/Ciesp, a indústria paulista teve saldo positivo de 6,5 mil vagas em janeiro. Mas, na comparação com janeiro de 2016, o saldo é negativo em 5,73%.

O número de desempregados é de cerca de 12 milhões de pessoas. Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, a taxa média de desemprego em 2016 chegou a 11,5%. As projeções do mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2017 são de 0,5%.

“Se o país crescer 0,5% este ano, o desemprego aumenta. Precisa crescer 2%, 3% para ter uma queda de desemprego razoável”, disse a economista Esther Dweck à RBA na semana passada.

Divulgados na semana passada, dados relativos ao comércio varejista indicam que, em 2016, foram fechadas 108 mil lojas em todo o país, pior resultado da série histórica desde 2005.

Todos esses dados, em conjunto, mostram uma situação que não se supera por decreto ou pela vontade de um ministro. “Quando Meirelles fala que a recessão acabou, está olhando para onde sempre olhou, para os que ele sempre representou, os investidores financeiros. Mas existe um descompasso entre o Brasil dos rentistas, que teve ganhos patrimoniais, porque a Bolsa subiu, e o Brasil verdadeiro, dos 99% dos brasileiros, que continua em uma situação de crise profunda”, diz Guilherme Mello.

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BASE DE TEMER QUER IMPEDIR ENTIDADE DE DIZER QUE PREVIDÊNCIA NÃO TEM DÉFICIT
Via Brasil 247 em 23/2/2017

Perdendo o debate na opinião pública sobre a reforma da Previdência, que deixará 70% da população sem aposentadoria, a base de Michel Temer na Câmara tenta partir para a censura para conseguir aprovar a reforma.

Em reunião com Michel Temer, os deputados Carlos Marun (PMDB/MS) e Júlio Lopes (PP/RJ), membros da comissão especial responsável pela reforma na Câmara, reclamou da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip).

Segundo a coluna Expresso, os deputados querem que a Advocacia Geral da União acione a Justiça para que a Anfip pare de divulgar que não há déficit na Previdência. A entidades, e vários outros especialistas no assunto, atestam que na verdade, a Previdência brasileira é superavitária desde 2006, levando em conta a arrecadação da Seguridade Social, que inclui Saúde, Assistência e Previdência.

Marun e Júlio Lopes alegaram que a “contrainformação” dificulta a tramitação do projeto no Congresso. “O presidente Michel Temer ouviu a reclamação e ficou de pensar no assunto”, diz a coluna.

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