Golpe dentro do golpe: Temer perde apoio do PSDB e é chutado pelo “deus mercado”

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Sem tempo e perdendo apoio no Congresso, Temer tenta correr com as reformas que retiram direitos dos trabalhadores.

Líder tucano afirmou que Temer terá dificuldade para terminar o mandato que, em tese, iria até 31 de dezembro. Cunha Lima apoiou o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, mas garante que sempre foi favorável a eleição direta

Via Blogoosfero em 21/12/2016

A base aliada do presidente de fato, Michel Temer, no Congresso, tem sofrido uma série de abalos, nas últimas 72 horas. O mais recente foi uma entrevista do senador Cássio Cunha Lima (PSDB/PB), líder dos tucanos na Casa, noite passada. Para o ex-governador da Paraíba, a presidente do STF, ministra Carmen Lúcia, deveria substituir o “ilegítimo Michel Temer (PMDB) na Presidência da República”.

O tucano afirmou que Temer terá dificuldade para terminar o mandato que, em tese, iria até 31 de dezembro. Cunha Lima apoiou o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, mas garante que sempre foi favorável a eleição direta.

“Infelizmente o TSE não concluiu o julgamento a tempo, o impeachment andou mais rápido…”, justificou-se o líder do PSDB no Senado.

Ao apresentar o nome de Carmen Lúcia para substituir Temer, o senador tucano disse que ela “é uma mulher cuja honestidade e probidade ninguém discute. Que tem experiência, tem capacidade e que poderia cumprir um período de transição”.

Com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), eliminado da concorrência no último julgamento do STF, Lúcia tornar-se-ia a substituta imediata de Temer.

Na Câmara
Não bastasse a estocada no Senado, Temer sofreu, também na noite passada, a primeira derrota na Câmara. Os deputados aprovaram a renegociação das dívidas dos Estados em termos diferentes do projeto aprovado no Senado. O projeto segue agora, para sanção presidencial, sem nenhum dos condicionantes contra os servidores públicos.

A derrota do governo foi possível pela unificação de interesses diversos. Os governadores dos Estados, os representantes dos servidores e o desejo de Maia de se reeleger presidente da Câmara com o apoio dos governadores estão entre eles.

Ocupante do Ministério da Fazenda, o economista Henrique Meirelles deixou claro, no entanto, aos Estados, que há mecanismos de contingenciamento. “Essa vitória, parcial, vai precisar da pressão dos servidores e das forças democráticas para se sustentar. Agora é esperar a pronunciamento do decorativo golpista hoje às 20:30 para apagar as luzes e/ou bater panelas”, afirmou o articulista do Correio do Brasil, Val Carvalho.

Sem ferramentas
A dois anos de encerrar o seu mandato, o presidente Michel Temer terá, na prática, apenas 2017 para colocar a cambaleante economia brasileira nos eixos. E, para isso, poderá contar basicamente com alívio na política monetária, ao mesmo tempo em que precisará ter capacidade de articulação para garantir votações de importantes medidas no Congresso. A observação é do jornalista Luiz Guilherme Gerbelli, em artigo da agência inglesa de notícias Reuters.

O fundamental, segundo especialistas consultados pela Reuters, é que o governo aja com rapidez e decisão para recuperar a confiança abalada recentemente pela falta de reação da atividade e pela intensa crise política.

“As crises econômica e política se retroalimentam. O governo não está conseguindo romper esse ciclo com medidas que favoreçam o crescimento”, afirma o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo.

Passo acelerado
O prazo, no entanto, é curto. A eleição presidencial de 2018 deve começar a pautar as discussões e articulações políticas a partir do segundo semestre do ano que vem. Além de impor travas legais, sobretudo, com investimentos públicos no período eleitoral.

“Haverá um calendário político complicado pela frente e pouco amigável para seguir com reformas. E, ao fim do primeiro semestre de 2017, já entramos na lógica eleitoral de 2018”, diz Melo.

Sem espaço para aumentar gastos, a equipe econômica deve se apoiar na redução da taxa básica de juros. O objetivo será aliviar a situação da economia, ao tentar baratear o crédito e abastecer o consumo. O BC já reduziu a Selic em duas ocasiões, em 0,25 ponto percentual cada, para 13,75% ao ano. E sinalizou que vai acelerar o passo daqui para frente.

“A queda da inflação abre um bom espaço para o recuo dos juros. Mas esse efeito só chegará à economia se os spreads pararem de subir”, afirma a economista e sócia da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro. Ela acrescenta que o ambiente de risco tem impedido a redução dos spreads bancários. Trata-se da diferença entre o custo de captação do banco e a taxa efetivamente cobrada ao consumidor final.

Atividade econômica
Nas contas dela, cada corte de 0,25 ponto na Selic costuma gerar crescimento de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB). Mesmo assim, ao final de quatro trimestres. Mas, acrescentou a economista, diante dos cenários econômico e político turvos, essa transferência pode ter perdido potência.

O cenário de recessão, desde 2015, é uma das principais variáveis que pavimentaram, agora, o caminho para quedas nos juros básicos. Mas, talvez ciente do peso do papel do BC neste momento, o presidente da autoridade monetária, Ilan Goldfajn, já afirmou que qualquer impulso para atividade econômica gerado exclusivamente pela política monetária seria temporário.

Economistas consultados semanalmente pelo BC, por meio da pesquisa Focus, veem que a Selic fechará 2017 a 10,50%. E o PIB deverá crescer apenas 0,58%, depois de encolher 3,48% em 2016. Mas já não é difícil encontrar especialistas que acreditam que a economia vai estagnar em 2017. O fato amplia os riscos de recessão pelo terceiro ano seguido.

O pessimismo econômico para 2017 cresceu. Dados da economia real não corresponderam ao avanço inicial dos índices de confiança de empresários e consumidores com a troca de comando na Presidência de Dilma Rousseff para Temer.

Lua-de-mel
Quando ele assumiu o cargo, em maio passado, analistas chegaram a projetar que o PIB poderia crescer 2% no ano que vem com a aposta de que um governo mais pró-mercado seria suficiente para resgatar o crescimento econômico.

“O período de lua-de-mel do governo com os mercados e analistas está praticamente acabando. O governo não deve conseguir recuperar a confiança da qual ele já mereceu. Isso deve fazer de 2017 um ano complicado. É difícil imaginar que a economia saia do lugar” diz a pesquisadora do Instituto Peterson, Monica de Bolle.

Na avaliação da economista, o BC perdeu o timing. Já deveria ter promovido corte mais agressivo na taxa de juros para aliviar o quadro econômico.

“A situação do Brasil é tal que os balanços dos setores público e privado, dos Estados e das famílias estão arrebentados”, disse.

Para tentar acalmar os agentes econômicos e dar impulso à economia, também em meio ao cenário político conturbado, o governo anunciou algumas medidas, como um programa de regularização tributária e medidas para fomentar a redução do custo do crédito.

Sem tempo
A capacidade política da gestão Temer será fortemente testada. Tem, adiante, a necessidade de aprovar no Congresso em 2017 reformas consideradas importantes. Tais como a da Previdência, mas pesa o fato de os principais nomes do governo e do próprio presidente estarem envolvidos em denúncias de corrupção.

“Para 2017, o quadro continua com dificuldade econômica e política. Não há sinais claros de melhora. A operação Lava-Jato deve continuar se desdobrando e provocando impacto na classe política”, afirmou o diretor para América Latina da consultoria Eurasia, João Augusto de Castro Neves.

Nas projeções da consultoria, a probabilidade de Temer não concluir o mandato aumentou de 10 para 20%. Apesar da incerteza política, o governo tem conseguido mostrar alguma força nessa área. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limitou o crescimento do gasto público por 20 anos já foi promulgada. E a reforma da Previdência recebeu admissibilidade da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para seguir adiante.

“Os políticos não veem outra alternativa, não têm outro barco, por isso Temer deve continuar com capital político em 2017”, disse Castro Neves.

Nuvens à frente
Mas o cenário não é totalmente azul. Para aprovar as mudanças na Previdência, o governo vai precisar de muita habilidade com lideranças políticas, centrais sindicais e trabalhadores. Alterações no sistema de aposentadoria têm sido sempre alvo de resistência e críticas, e o governo propôs mudanças bastante rígidas, como a que obriga o trabalhador a contribuir por 49 anos para receber o teto quando se aposentar.

“Se, além da PEC dos gastos, Temer conseguir entregar a reforma da Previdência. E promover algum encaminhamento para os desequilíbrios estaduais. Terá deixado um bom legado”, afirma o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) Samuel Pessôa.

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