Venda de gasodutos da Petrobras: Um prejuízo maior que a Lava-Jato?

petrobras_gasodutos01

Por que a Petrobras deve sair de um nicho sem riscos e entregar lucro garantido à BIP, para assumir ela própria os riscos da mudança na regulação?

Rogério Lessa, via Aepet e lido na Carta Maior em 30/11/2016

Foi anunciada no edital de convocação para a Assembleia Geral Extraordinária de 30 de novembro de 2016 a reestruturação societária da TAG para permitir a venda da Nova Transportadora do Sudeste (NTS) para o consórcio de investimento liderado pela firma canadense Brookfield Infrastructure Partners (BIP). Desde que foi anunciada pela atual administração da Petrobras a intenção de vender nossa principal malha de dutos, por onde escoará a totalidade do gás do pré-sal, a um agente estrangeiro, diferentes questionamentos foram levantados em relação à conveniência desta operação. Em Nota de Esclarecimento ao investidor de 31/10/2016 [1], a Petrobras tenta esclarecer alguns pontos escuros desta negociação, porém sem dar os detalhes necessários para a justa avaliação das condições acordadas com o comprador escolhido para assumir o transporte do gás natural da maior província produtora de óleo do Brasil.

A seguir, reforçamos os seguintes questionamentos que deveriam servir de suporte para órgãos externos de controle e para o próprio Conselho de Administração da Petrobras interromper esta operação até que sejam devidamente esclarecidos os contratos e condições da negociação com a BIP, sob risco de expor o Sistema Petrobras a danos patrimoniais irreparáveis.

Despesas com capacidade não utilizada
1) A Petrobras afirma que os cinco contratos para transporte de gás (GTA) com a NTS continuarão vigentes. Ora, se olharmos para o 2015 [2], o próprio balanço da TAG estabelece que apenas 57% da capacidade contratada com a NTS foi efetivamente utilizada, segundo se mostra na tabela abaixo.

petrobras_tag01

Clique na imagem para ampliá-la.

O valor estimado para 2015 de pagamento por essa capacidade firme não utilizada é de R$2,22 bilhões. Sendo a NTS 100% da TAG e a TAG 100% da Petrobras, o balanço consolidado não seria totalmente prejudicial para a Petrobras, fora os tributos pagos sobre aquele montante. Diante disto, questionamos quais foram os fundamentos técnicos sobre a disponibilidade futura de gás natural usados para justificar a manutenção dos contratos vigentes, tendo em vista que (1) se prevê um aumento de apenas 27% na produção de gás no período do PNG 2017-2021 que não será suficiente para cobrir a capacidade dos gasodutos não utilizada atualmente e (2) que a construção da unidade de processamento de gás (UPGN) da Rota 3, que efetivamente aumentará a capacidade de transferência de gás dos nossos campos do pré-sal, foi suspensa e ainda não foi iniciada a licitação para continuidade da obra.

Isto posto, é necessária a transferência de semelhante lucro a um operador estrangeiro? Não afeta isto os interesses da Petrobras? Quando se refere aos seus “direitos de cessão dos contratos”, quem seriam esses agentes interessados? Saiba-se que a Petrobras produz a nível nacional mais de 81% do gás natural [5]; proporção maior ainda na área de concessão da NTS?

Dívidas da TAG
2) Do balanço da TAG [2] observa-se que ao final de 2015, sua dívida (visão controladora) aumentou a um valor de R$24,5 bilhões, enquanto a visão consolidada com as subsidiárias (NTS NTN) era R$28,3 bilhões. Quanto destas dívidas correspondem à NTS? Será esta dívida assumida pela BIP? Quem assumirá a dívida da TAG, constituída basicamente pelos financiamentos para a construção dos dutos que estão sendo alienados? Na taxa de câmbio de hoje (R$3,41/dólar) o valor pago pela NTS (US$5,19 bilhões, equivalentes a R$17,7 bilhões) não cobre as dívidas da controladora TAG, logo a afirmação da Petrobras de que “representará, integralmente, uma entrada de caixa para o sistema Petrobras” é dúbia. Estamos diante da entrega dos ativos com retenção da maior parte do passivo financeiro.

Bilhete premiado para a BIP
3) A “Lei do Gás” (Lei nº 11.909, de 4 de março de 2009) garante ao transportador remuneração suficiente para seu investimento (lucro) mediante reajuste tarifário periódico. Trata-se de um negócio de retorno garantido, sem riscos para o proprietário dos gasodutos, tanto que a NTS apresentou um lucro líquido de R$275 milhões em 2015, enquanto a TAG amargou um prejuízo de R$2,19 bilhões decorrente do encarecimento da sua dívida [2]. A própria BIP transmite esta tranquilidade aos seus acionistas no seu site [3]:

“Stable and growing cash flows with no volume risk”
“NTS is entitled to continue to earn a return on and return of capital remaining in the business, plus recovery of all operating and maintenance costs until the end of the concessions in 2039 through 2041”.

Por que a Petrobras deve sair de um nicho de negócios sem riscos e entregar lucro garantido à BIP, para assumir ela própria os riscos da mudança na regulação? A ANP manifestou sua intenção de “atualizar” o marco regulatório da tarifação de transporte de gás, passando do valor fixo para um valor variável segundo a distância transportada [4].

Isto afeta diretamente os interesses da Petrobras que deverá pagar mais para integrar o gás do pré-sal à malha remanescente da NTN. Este cenário foi avaliado ao longo da transação?

Asfixia financeira da Transpetro
4) A Transpetro, subsidiária integral da Petrobras, é a operadora dos gasodutos da NTS e NTN. Ao todo, esta atividade representa 78% da receita operacional líquida da Transpetro e contribui para o lucro do Sistema Petrobras. Porém, anunciou-se que o contrato de O&M da BIP com a Transpetro está garantido apenas por cinco anos [6], sendo que os contratos da Petrobras com a NTS se estendem até 2030 e 2031. Estas negociações são simples extensões dos contratos atuais? Elas não apresentam desvantagens para a Transpetro? De qualquer forma, a BIP poderá optar pela contratação de outro operador após os primeiros cinco anos de contrato, como manifesta aos seus investidores no seu site [3]:

“Initially, the pipelines will be operated by a subsidiary of Petrobras under a multi-year operations and maintenance contract. Over time, Brookfield Infrastructure will have the flexibility to transition NTS to a fully stand-alone operating business and internalize all management and operating functions, if desired.”

Lembrando que a BIP é o principal acionista da mais extensa malha de dutos dos EUA (NGPL), operada pelo seu sócio KM Inc. possuindo experiência de O&M em mais de 135.000 km de gasodutos na América do Norte. O que impediria a renegociação dos contratos de O&M com a Transpetro, reduzindo sua margem de lucro, tendo um sócio com tamanhas credenciais no negócio? A ANP (Resolução 39/2014) não estabelece requisitos técnicos para o operador além de “experiência atestada nas atividades de projeto, construção, ampliação, operação e manutenção de gasodutos de transporte no Brasil ou no exterior”. Isto causaria um sério golpe à Transpetro, limitando seu caixa, e para a Petrobras um entrave à otimização da operação da malha de acordo com os planos futuros de expansão da produção de óleo e gás no pré-sal. Perder-se-á toda a expertise operacional da mais estratégica malha de dutos do Brasil.

Obscura transparência
5) Por fim, devemos salientar a absoluta falta de transparência por parte da Petrobras durante o processo de alienação de ativos. Trazemos a público conhecimento os fundamentos da liminar concedida pela Juíza Federal Telma Maria Santos Machado da 1ª Vara Federal de Sergipe para suspensão da venda dos campos de Baúna e Tartaruga Verde. A liminar desestima a interpretação da Petrobras sobre a dispensa de processo licitatório para alienação dos seus ativos e sustenta que o art.29 da Lei 13.303 não inclui venda de ativos de sociedade de economia mista como caso para dispensa de licitação pública. Segundo esta interpretação, a venda sem licitação pública da NTS fere a Lei 13.303 e seria objeto de contestação na Justiça.

Conclusões
Diante do exposto consideramos que a venda da NTS ao consórcio liderado pela BIP constitui gestão temerária de ativos estratégicos para o desenvolvimento econômico da Petrobras e poderá trazer prejuízos para o Sistema Petrobras que não foram devidamente esclarecidos pela Administração da Companhia.

Diretoria da Aepet

Notas:
[1]
Esclarecimentos adicionais sobre venda de participação na nova transportadora do Sudeste
[2] RA e Demonstrações Contábeis TAG 2015
[3] https://bip.brookfield.com/press releases/2016/09 23 2016 115242937
[4] ANP propõe nova forma de tarifar transporte de gás partir de 2018
[5] ANP divulga anuário estatístico 2016
[6] Transpetro está negociando novo contrato de operação e manutenção com a NTS
[7] Liminar Baúna-Tartaruga Verde

Leia também:
Quanto custou o impeachment de Dilma?

2 Respostas to “Venda de gasodutos da Petrobras: Um prejuízo maior que a Lava-Jato?”

  1. daysens Says:

    A sociedade brasileira precisa estar alerta.
    Afinal, o nosso País, que, até alguns poucos anos atrás, era tido como uma Terra sem petróleo, com a descoberta do pré-sal abriu-se uma nova era, uma nova perspectiva para o nosso País, para o nosso Povo!
    Assim, toda atividade referente ao nosso petróleo deve ser, preferencialmente, ofertada para empresas brasileiras, para o Povo Brasileiro.
    É assim com os grande Povos da Terra.E os Brasileiros são um Grande Povo.

  2. Geraldo Lobo Says:

    Só há uma saída: resistência civil e cívica! Sabotagem dos lucros certos dos novos ganhadores das benesses do governo. Se ganham na sacanagem oficial, venceremos na anti-sacanagem individual!!!

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: