RIP jornalismo: Programa Roda Viva afirma que faz propaganda do governo golpista

Kiko Nogueira, via DCM em 14/11/2016

Michel Temer prestou um favor aos brasileiros que estavam em dúvida se deveriam assistir ao Roda Viva com ele.

Ele cometeu um ato falho diante do jornalista Willian Corrêa, que entrou ao vivo no Facebook, inexplicavelmente animadíssimo, após a gravação da entrevista.

– Presidente, eu sei que deveria pedir permissão para sua assessoria, mas é pra registrar que o senhor é gente como a gente. O que o senhor achou? Nós fomos muito virolentos (sic) ou não?

– A virolência (sic) nessas coisas é importante. Eu pude em uma hora e meia dizer o que o governo está fazendo. Cumprimento vocês por mais esta propaganda.

Corrêa seguiu adiante, numa boa.

O âncora do Jornal da Cultura passeava pelo Palácio do Planalto, serelepe. Cometeu um dos vídeos de bastidores mais constrangedoramente reveladores das últimas décadas.

Parou em Eliane Cantanhêde, num determinado momento.

– Ele foi muito bem. Muito equilibrado e muito afirmativo. Não recusou nenhuma pergunta. Ele está escrevendo um romance. E olha, cá pra nós, aqui baixinho, que ninguém nos ouça: de romance o presidente entende, hem?

Eliane fica devendo uma explicação sobre a pegadinha Didi Mocó. Ele podia ter recusado alguma questão? O romance é com Marcela? Ela quer dizer que Temer é romântico? É com você, Lombardi.

O DCM entrevistou Dilma Rousseff três vezes, uma delas exclusiva, e Lula uma vez. Em nenhuma dessas ocasiões houve qualquer sugestão de assuntos que deveriam ser evitados ou algo do gênero.

Se houvesse, não teríamos participado.

Lula e Dilma falaram do que estava na ordem do dia – dos escândalos de corrupção do PT à escolha de Temer para vice, por exemplo. Fomos acusados de ser chapa branca por grande parte da mídia chapa branca, que enxerga tudo como ela.

O Michel pós golpe é um desastre, mas pelo menos foi honesto ao alertar as pessoas sobre a natureza desse tipo de programa. É propaganda, mané.

De quebra, deu mais uma razão para ver “Homeland” na Netflix.

***

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O ÂNCORA WILLIAN CORREA AFUNDOU O RODA VIVA SEM SE DAR CONTA
Paulo Nogueira, via DCM em 15/11/2016

Involuntariamente, o jornalista Willian Corrêa, âncora do Jornal da Cultura, produziu um dos vídeos mais reveladores sobre o jornalismo brasileiro destes tempos.

Ao longo de sete minutos, ele retratou a festa brega que se seguiu ao Roda Viva com Temer, gravado no Alvorada e que foi ao ar ontem [14/11].

Estavam ali Temer, é claro, autoridades da Cultura e as estrelas da noite – os jornalistas que compuseram a bancada, de Eliane Cantanhêde a Sérgio Dávila, e por aí vai. Dávila diz uma frase de grande originalidade: o melhor detergente para a sociedade é a transparência. Não entendi a relação entre transparência e Roda Viva, mas deve ter sido um problema meu.

Eliane em seguida se aproxima da câmara e conta, em tom de segredo, que Temer está escrevendo um romance. “E ele é bom de romance”, sussurra. Eliane deve estar esperando ansiosamente seu exemplar gratuito do livro em construção.

Corrêa foi extremamente efusivo com os jornalistas – mas ninguém foi tão louvado por ele como ele próprio. Sempre que falou na força da bancada, ele fez questão de se referir a si próprio entre os titãs. “Grandes figuras perguntando, uma grande figura respondendo”: cita alguns e, sem nenhuma cerimônia, se coloca entre as “grandes figuras perguntando”.

O vídeo vale pelos detalhes. Merece ser visto uma, duas, várias vezes para que você não os perca.

O melhor deles foi um em que Corrêa pega pelo braço Temer. E diz que queria mostrar que Temer é gente como a gente. Deus, ele parecia estar falando de Churchill, ou de Gaulle, ou de Getúlio Vargas, e não de um presidente extremamente impopular.

A melhor maneira de Temer mostrar que é gente como é gente não é pelas mãos de Corrêa. É apresentando-se ao povo, em vez de fugir como tem feito até agora.

O melhor estava por vir. Temer agradece por mais essa “propaganda”. Pro-pa-gan-da. O Roda Viva foi chamado de propaganda.

Não poderia haver descrição melhor do que esta, mas daí a admitir é uma longa jornada. Temer não parece ter noção do que seja jornalismo e do que seja propaganda, e com certeza os jornalistas presentes não o ajudaram entender a diferença.

Temer ri, sem se dar conta do disparate – e do insulto aos entrevistadores. Corrêa segue-o na risada solta e tola, também alheio, aparentemente, à força destrutiva da palavra “propaganda”.

O fecho da cena é um primor. Alguém não identificado, ao lado de Temer, dá uma gargalhada gutural, que deve ter sido ouvida por toda Brasília.

É a célebre risada ao adulador. Ele gargalha como se Temer fosse Mr. Bean num grande momento de humor. Você reconhece este tipo de reação em vários ambientes. No mundo corporativo, é um clássico. As pessoas riem de qualquer coisa que o presidente diga – mesmo quando não se trata de piada. Na dúvida, riem.

É um mundo à parte aquele. O presidente da Cultura, Marcos Mendonça, elogia a entrevista. “Toda a mídia” estava ali representada.

Toda?

E a mídia de esquerda, com seus milhões de leitores?

Mas até entendo. Você não pode esperar que a combativa mídia de esquerda compareça a um programa para fazer propaganda de Temer.

Um internauta definiu tudo num comentário ao final do vídeo. “A que ponto chegou o nosso jornalismo…”

Pois é.

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