O dia em que Moro finalmente piscou

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Sintonia fina: Moro recebe um prêmio da Globo com João Roberto Marinho à sua esquerda.

Paulo Nogueira, via DCM em 5/3/2016

E Moro piscou.

Não existe expressão: Moro piscou.

Há outras, mas não tão boas. Por exemplo: sair pela tangente.

Foi assim que o jurista José Gregori, insuspeito de petismo, se referiu ao triste papel de Moro na sexta-feira, dia 4/3.

“Na realidade o que parece é que esse juiz queria era prender Lula. Não teve a ousadia de fazê-lo e piscou”, disse à BBC Gregori, ministro da Justiça de FHC entre 1997 e 2000.

Antes, com a mesma clareza, Gregori afirmou o que você não leu e nem vai ler em nenhum editorial das grandes empresas jornalísticas. “Não existe na nossa legislação a figura da condução coercitiva sem que tenha havido antes a convocação. A praxe tem sido essa: você convoca a pessoa a comparecer e, se ela não comparecer, então na segunda vez vem a advertência de que ela poderá ser conduzida coercitivamente.”

Mas ficou claro: a Lava-Jato não opera com praxe, para usar a palavra de Gregori. Opera com exceção.

Moro piscou em algum momento na manhã de sexta-feira, dia 4/3, quando já não havia dúvidas de que havia o risco de que a situação fugisse do controle e corresse sangue de brasileiros.

A prisão de Lula não seria aceita de forma passiva não apenas pelos petistas, mas por todos aqueles que já não suportam mais serem tratados como débeis mentais pela aliança entre Globo, Moro, PF e MPF.

Não estranharia se na piscada de Moro houvesse havido a intervenção da Globo. Porque também para a Globo a situação começou a se deteriorar.

As redes sociais explodiram em ódio e indignação contra a Globo. No Twitter, hashtags anti-Globo viralizaram. Nas ruas, repórteres da emissora enfrentaram hostilidade e escárnio.

Num dos melhores momentos, um manifestante aproveitou que uma repórter da GloboNews estava no ar e se colocou atrás dela para que a câmara mostrasse um cartaz que falava da Paraty House, a mansão criminosa que a Globo alega não ser dela a despeito de todas as evidências de que é.

A sequência de fatos – Jornal Nacional [tuíte de um jornalista da Globo se gabando na quinta-feira, dia 3/3, de que no dia seguinte Lula seria detido] e a condução coercitiva determinada por Moro – foi mais que do milhares e milhares de pessoas poderiam engolir.

A Globo voltou a ser vista como o que sempre foi: como um instrumento da plutocracia para manipular os brasileiros e afastar, por golpe, governantes populares.

Na Era da Internet, em que as informações circulam sem o controle das empresas jornalísticas, as consequências dessa repulsa à Globo seriam imprevisíveis caso a prisão de Lula fosse efetivada.

Moro piscou, ou saiu pela tangente, como disse Gregori. E a Globo, ao que tudo indica, também.

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Avatar de Moro sem ficar envergonhado: Erick Bretas, diretor de Novas Mídias da Globo.

A Globo claramente está aloprada, mas isso não significa que queira se suicidar. Numa demonstração do desequilíbrio avassalador de seus executivos de jornalismo, o diretor de Novas Mídias Erick Bretas colocou como avatar no Facebook, ontem [4/3], a foto de Sérgio Moro.

Isso depois de dizer, sem pudor e sem noção da gravidade do que afirmava como diretor da maior empresa de mídia do país, que Dilma tinha que ser deposta e Lula preso.

Se Bretas está postando este tipo de conteúdo desvairadamente golpista sem que ninguém lhe chame a atenção, você pode avaliar a temperatura no jornalismo da Globo.

Graças à internet, e não apenas a ela, o Brasil de 2016 não é o Brasil de 1954 e nem o Brasil de 1964, ocasiões em que a Globo teve uma contribuição abjeta para a destruição de dois regimes consagrados pelos votos – sem pagar depois o preço por isso.

Foi o que se viu ontem, quando a reação ao golpe fez Moro piscar e com ele sua aliada Globo. Ou, se preferem Gregori, saírem pela tangente.

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