Luciano Martins Costa: Manual do perfeito midiota em 8 partes

Anteriormente, o Limpinho replicou quatro deliciosos textos de Luciano Martins Costa sobre os midiotas (clique aqui). Agora, publica outros quatros. Aproveite. Divirta-se e aprenda!

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MANUAL DO PERFEITO MIDIOTA – PARTE 5
Se você for um midiota em busca da perfeição, sim, pode sair por aí, alardeando que o terrível ano de 2015 só vai terminar quando a presidente eleita em 2014 for sacada do Palácio do Planalto.

O ano de 2015 terminou na ocasião esperada, o último segundo do dia 31 de dezembro, e você repetiu aqueles votos de “feliz ano novo” para quem estava ao alcance da sua voz ou do seu celular. Mas abre os jornais e as revistas semanais de informação ao longo da primeira semana do novo ano e se depara com o mesmo discurso apocalíptico que conduziu suas emoções nos últimos 12 meses.

Imagina, então, que esse é um daqueles anos que não acabam, segundo a linguagem banal da imprensa. Como se sabe, esse é um dos clichês adotados por aí desde que o jornalista e escritor Zuenir Ventura publicou, em 1988, o livro intitulado 1968 – O ano que não terminou.

Teria sido 2015 um annus terribilis, como o de 1994 para a rainha Elizabeth da Inglaterra, que usou a expressão para se referir ao período em que sua real família foi sacudida por grandes escândalos?

Se você for um midiota em busca da perfeição, sim, pode sair por aí, alardeando que o terrível ano de 2015 só vai terminar quando a presidente eleita em 2014 for sacada do Palácio do Planalto. Afinal, você está convencido de que foi ela quem derrubou a Bolsa de Pequim.

Aliás, uma das características da condição de midiotice é essa paranoia que se manifesta em visões como a daquele colunista de Veja, para quem o governo toma decisões unicamente com a intenção de provocá-lo.

Há muitos estudos interessantes sobre a narrativa do apocalipse, mas você pode encontrar os melhores exemplos exatamente na imprensa tradicional, especialista em fabricar profecias catastróficas.

Não é difícil imaginar como essas profecias têm o condão de se autorrealizar. Dou um exemplo simples: você vai às reuniões do condomínio e passa metade do tempo falando de crise. O síndico e os membros do conselho fiscal fazem a mesma coisa. Então, chega a hora de fazer as projeções para o ano seguinte. E você se surpreende com um aumento absurdo na taxa do condomínio?

Mas é difícil enxergar essa relação entre o bombardeio de informações negativas e a concretização de maus resultados econômicos. É preciso ler mais do que a mídia hegemônica. É preciso consultar os meios de comunicação que propõem mais reflexões do que emoções, mas quem é refém desse movimento condicionante da imprensa dominante – a quem chamamos de midiotas – não consegue romper esse círculo.

Hanna Arendt explicou como se dá esse movimento, em suas reflexões sobre o nazismo na Alemanha e a supressão das liberdades civis no antigo regime soviético, em sua obra intitulada Origens do totalitarismo.

O grande perigo de ficar obcecado com as narrativas apocalípticas é aquele vislumbrado por Friedrich Nietzsche: “Não se deve olhar por demasiado tempo para o abismo, porque eventualmente o abismo pode olhar para você”.

Se você vasculhar o noticiário desta primeira semana de 2016, vai encontrar aqui e ali dados interessantes sobre a condição do Brasil como um dos principais destinos de IDP – Investimento Direto do País – e de uma melhoria considerável na balança comercial. Sejam quais forem as causas apontadas pelos especialistas, o que você dificilmente vai achar é uma análise abrangente, que lhe permita entender as características do momento econômico.

Outro assunto que você não vai encontrar na mídia hegemônica é um debate satisfatório sobre a proposta de recriação da CPMF. Mas também não precisa: você é contra, certo?

Outra coisa, que não tem nada a ver com economia: de repente, você se pegou de antipatia por aquele bon-vivant chamado Chico Buarque, não foi? E não é pelo fato de que sua mulher, sua filha e até sua mãe ainda acham lindos aqueles olhos verdes no meio de tantas rugas. É porque ele pensa diferente de você sobre quase tudo, certo?

Então, fique tranquilo: essa intolerância com as divergências é uma das garantias de que você segue sendo um midiota quase perfeito.

Para ler: Origens do totalitarismo, de Hanna Arendt.

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MANUAL DO PERFEITO IDIOTA – PARTE 6
A vacina mais conhecida para a midiotice é um axioma atribuído a Sócrates – o filósofo, não o ex-jogador de futebol: “Só sei que nada sei”.

A querida leitora, que se diz incomodada com esta série de reflexões, pergunta: existem midiotas de “esquerda”?

Claro, pois a midiotice é uma síndrome emblemática do sistema social dominado pela mídia e pode ser contraída em qualquer ponto do espectro ideológico.

A principal característica dessa condição é o encurtamento da visão de mundo – a cosmovisão ou orientação cognitiva de uma pessoa ou de uma coletividade: o midiota orienta sua percepção da realidade num sentido adstringente, por assim dizer, ou seja, simplifica toda complexidade para que venha a caber na caixinha de suas crenças.

A vacina mais conhecida para a midiotice é um axioma atribuído a Sócrates – o filósofo, não o ex-jogador de futebol: “Só sei que nada sei”.

Porém, não são conhecidos registros dessa frase nos relatos sobre os diálogos do filósofo, e muitos estudiosos consideram que se trata de uma expressão de humildade, não condizente com o que se sabe de Sócrates.

Mais comumente, admite-se que a frase significa que a nenhum ser humano é dado conhecer algo com certeza absoluta.

Essa é, portanto, a principal característica dessa síndrome cognitiva e cultural: o midiota interpreta o produto da mídia como um retrato direto, absoluto e objetivo da realidade, sem se dar conta de seus desvios, subjetividades, contradições e malversações.

Mais ou menos como faz o crente que assiste aquelas encenações de “exorcismo” em certas igrejas e acredita que o diabo está ali mesmo, rosnando e transtornando a opção sexual do infeliz.

Por exemplo, os principais jornais do País e as emissoras de rádio e televisão dos grandes grupos de comunicação esconderam um detalhe das denúncias no escândalo da Petrobras – justamente a parte que colocava como suspeitos políticos do PSDB. Ao mesmo tempo, lançaram holofotes sobre uma suposta declaração comprometendo o ex-presidente Lula da Silva.

Em seguida, publica-se que a acusação a Lula estava num resumo que o denunciante havia apresentado ao negociar a delação premiada, mas não consta dos autos.

A semana chega ao fim com o desmentido de que houvesse tal depoimento no processo – mas o midiota segue repercutindo o que já se demonstrou não ser verdadeiro.

O que pensa o midiota sobre isso? A resposta: nada. Ele só registra a parte que condiz com seus pressupostos.

O midiota, seja qual for sua orientação ideológica, tem um aspecto típico: ele se inflama ao falar de qualquer assunto, e repete seguidamente os mantras que alimentam suas convicções. É absolutamente impermeável ao contraditório e, se alguém o corrige, tasca logo uma etiqueta na testa do interlocutor.

Aliás, as redes sociais registraram um desentendimento público entre três ou quatro dos mais ativos e reluzentes representantes da midiotice nacional, com fartura de palavrões e xingamentos.

O episódio lembra um aspecto interessante dessa síndrome: a evidente insensatez desses protagonistas cabe no que disse certa vez o filósofo Michel Foulcault sobre a absorção da loucura na vida moderna.

Esse fenômeno, que vem sendo estudado por pesquisadores como o terapeuta Peter Pal Pelbart, indica que boa parte da sociedade vive, pensa e toma decisões com a cabeça numa nuvem que podemos chamar de “desrazão”.

É aí que mora o perigo.

Para ler: Loucura e desrazão, de Peter Pal Pelbart.

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Christian Bale em cena do filme A grande aposta. Foto: Reprodução/IMDB.

MANUAL DO PERFEITO IDIOTA – PARTE 7
Então, por que ficar macaqueando que o Brasil foi à falência por culpa dos políticos se, no final, é você quem vai pagar a conta?

Você assiste ao Jornal Nacional e se impressiona com as caras e bocas dos apresentadores quando falam da economia brasileira? Fica assombrado com as manchetes catastrofistas dos principais diários do País? Repete por aí o que dizem os comentaristas das emissoras de maior audiência? Acha realmente que o Brasil foi para o ralo, e que a causa é o modelo econômico que desperdiça recursos com programas sociais?

Esses são sintomas muito claros de midiotice, que impede de ver distorções entre a realidade e o retrato pintado pela mídia hegemônica.

Por exemplo, você entendeu o que significou a manutenção da taxa oficial de juro, quando todos os especialistas apostavam num novo aumento de 0,5 ponto porcentual?

Nem se pergunta o que os especialistas vão fazer com as apostas que deram errado?

Bem, o autêntico midiota realmente não se propõe esses questionamentos e absorve como verdadeiro tudo que encontra no chamado ecossistema da imprensa tradicional.

Mas, não seria o caso de fazer uma pequena reflexão? Por exemplo, se o Brasil realmente está no fundo do poço, por que você precisa esperar uma hora ou mais para conseguir uma mesa naquele restaurante?

Vou dar aqui uma lista de livros interessantes que ajudam a entender de que lado está a mídia tradicional: A Armadilha da globalização, de Hans-Peter Martin e Harald Schumann, O horror econômico, de Viviane Forrester, A economia da desigualdade, de Thomas Piketti.

O que você vai concluir dessas leituras: uma aliança tácita entre o poder econômico e a imprensa dá corpo e voz ao discurso da unanimidade contrária a qualquer tentativa de esclarecimento das muitas e profundas contradições do sistema financeiro mundial.

Se fica difícil ler até o fim um livro que ameaça tirar você dessa condição, vá ao cinema. Está em cartaz o filme A Grande Aposta, baseado no livro do ex-corretor de valores Michael Lewis, que escreve para a agência Bloomberg News. Ali está desenhada, de forma didática, a origem da crise que o Brasil enfrenta. Você vai entender como aconteceu a crise financeira de 2008 e de como ainda pagamos os prejuízos causados pela grande fraude de Wall Street.

Mark Spitznagel, que na ocasião ganhou US$1 bilhão ao apostar contra as especulações com a securitização de financiamentos imobiliários, vem anunciando uma nova quebra no mercado mundial de ações. Boletins de analistas norte-americanos, como os da Newsmax Finance, alertam que grandes fundos de investimento estão com excesso de liquidez e que o sistema produziu uma gigantesca bolha, como a que explodiu em setembro de 2008.

Eles precisam encontrar ativos mais sólidos para aplicar seu dinheiro virtual. Não é difícil adivinhar quanto interesse teriam em governos favoráveis a uma massiva privatização de bens públicos, certo?

Quando você acha que vai ler isso na imprensa hegemônica ou ouvir um comentário daquele seu colunista tão apreciado?

O que isso tem a ver com o noticiário demonizando o governo, a política econômica brasileira e pregando a conveniência de entregar o País aos caprichos do mercado?

Você repete o discurso hegemônico da imprensa. Você é um midiota.

Então, por que ficar macaqueando que o Brasil foi à falência por culpa dos políticos se, no final, é você quem vai pagar a conta?

Para ler: “George Soros alerta para novo crash”, em Business Insider.

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MANUAL DO PERFEITO IDIOTA – PARTE 8
Você é bombardeado diariamente com a tese de que os problemas se devem aos gastos excessivos do setor público – o que leva o midiota a amaldiçoar os políticos e achincalhar todos os servidores do Estado e das autarquias.

Analistas de fundos de investimento voltam a alertar sobre novos sinais de agravamento da crise sistêmica que desestruturou a economia global em 2008. Na imprensa brasileira tradicional, com exceção do jornal Valor Econômico, tudo que se apresenta ao leitor é o risco de uma redução do apetite da China por commodities.

“Compla, compla, compla”, como diriam os torcedores do Corinthians: se os chineses param de comprar, a recessão bate à porta do mundo ocidental.

O que falta aos chamados diários genéricos está resumido no título de uma reportagem assim apresentada na edição de quinta-feira, dia 29/1, do Valor: “Lucro do Bradesco cresce e passa de R$4 bilhões no trimestre; inadimplência sobe”.

Essa é uma boa matriz para se iniciar uma investigação jornalística sobre as dificuldades enfrentadas pelo Brasil. Sabe-se que a reforma do sistema financeiro nacional, realizada em 1995 com o Proer – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional –, criou uma rede de grandes bancos dominantes e deixou para os cofres públicos a parte podre do sistema.

Você não vai ler muita coisa sobre isso na mídia tradicional nem vai ouvir comentários indignados nas emissoras hegemônicas de rádio e televisão. Para fugir à regra, um blogueiro de O Estado de S.Paulo abordou o assunto no ano passado (clique aqui). Mas o tema fica longe das manchetes.

Você pode refletir como, num sistema financeiro praticamente oligopolizado, quem perde é sempre aquele que precisa de financiamento, por isso são importantes as recentes medidas para a retomada da oferta de crédito.

Talvez você não saiba que, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, uma condição para que os bancos aceitassem a instabilidade na transição para o real foi essa reforma. Em resumo, tratou-se do seguinte: o governo resgatou com dinheiro público sete grandes bancos do País – Bamerindus, Nacional, Econômico, Mercantil, Crefisul, Pontual e Banorte. Foram injetados R$16 bilhões para salvar essas instituições.

Em seguida, o governo tomou o controle desses bancos e fez a seguinte operação: a parte boa, dos bancos que possuíam ativos valiosos, foi vendida de volta para o setor privado – o Itaú abocanhou o Nacional; o Bamerindus foi para o HSBC; o Econômico, envolvido em gestão fraudulenta, acabou nas mãos do Bradesco, e assim por diante.

Passados 20 anos, a parte podre ainda pesa na bolsa da viúva: três dos sete bancos que receberam ajuda do governo FHC devem ao Banco Central cerca de R$30 bilhões.

O ex-presidente Lula da Silva impediu que o Banco Central aceitasse o pagamento da dívida em FCVS, os Fundos de Compensação de Variações Salariais, considerada uma moeda podre, e a pressão voltou com a posse de Dilma Rousseff, mas ela vetou a operação em duas ocasiões.

Finalmente, em 2011, a presidente Dilma aprovou uma lei permitindo que os devedores entrassem para o plano de financiamento de dívidas do Refis, o que lhes valeu um enorme desconto mas garantiu o recolhimento de parte do esqueleto.

Se o governo tivesse aceitado a proposta dos banqueiros, o Banco Central teria sofrido uma perda superior a R$40 bilhões.

Mas você não vai se incomodar com isso, certo? Você está certo de que o problema do Brasil são os gastos do governo.

Afinal, essa é a resposta mais simples. E a vida do midiota, como sabemos, se resume a fugir de coisas complicadas.

Acontece que alguns setores poderosos afetados pela crise internacional, como o agronegócio, a indústria paulista e as grandes empresas de comunicação, sonham com um novo Proer especialmente desenhado para eles.

Mas para isso precisam de um governo mais simpático ao capitalismo sem risco – ou melhor, àquele capitalismo de vinte anos atrás em que o lucro era privado e o prejuízo é público.

Ah, eles precisam principalmente da torcida organizada dos midiotas.

Luciano Martins Costa é jornalista, escritor e mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros O mal-estar na globalização, Satie, As razões do lobo, Escrever com criatividade, O diabo na mídia e Histórias sem salvaguardas.

2 Respostas to “Luciano Martins Costa: Manual do perfeito midiota em 8 partes”

  1. daysens Says:

    Os artigos esclarecem sobre a origem do midiota. Tudo decorre da não diversificação de suas leituras. E, como efeito, perde o senso crítico, repetindo sempre o mesmo discurso.
    Trata-se da “síndrome do papagaio”.

  2. Magda Santos Says:

    PERFEITO!!!

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