Esqueçam a Justiça e a mídia: Lula tem de se defender na política

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Fernando Brito, via Tijolaço em 1º/2/2016

Como facilmente era antevisto ontem, os jornais de hoje publicam a chamada, com alguns acréscimos: “Lula admite ter ido ver apartamento”.

“Admite” é uma versão mal disfarçada de “confessa”, que é o sentido que a palavra tem ali.

Mas usar “confessa” seria evidenciar o absurdo e o nonsense do que se está fazendo: criminalizar o que não é, nem nunca foi, crime: ver, pretender comprar, eventualmente comprar aquilo que desejar e pelo qual puder pagar. E com seu dinheiro, pois ex-presidente sequer pensão pelo cargo recebe, o que é outra distorção moralista ao revés, pois não lhe permite a opção de não ter atividade remunerada por empresas ou instituições privadas.

No caso de Lula, chega-se ao absurdo de criminalizar idas a um sítio e até um barquinho de lata vira “sinal” de favorecimento indevido.

Ontem, Lula chegou ao extremo de transparência que um homem tem a seu alcance: exibiu, sem ser obrigado, sua declaração de bens à Receita Federal.

Não adianta.

Convence, com isso, apenas as pessoas que estão fora da “onda” criminalizante que despejam sobre ele. A mídia, a quem caberia esclarecer com base nos fatos e nos documentos apresentados, faz o inverso: trata tudo como “confissão”, “admissão de culpa”.

Culpa de quê? Não importa, culpa.

Se não for disso, é daquilo; se não for daquilo também, alguma achar-se-á.

Não é preciso provas e nem sequer lógica no fato de que se trata de um bem ao alcance de quem teve oito anos o salário de presidente (R$35 mil, hoje), quem tem aposentadoria, que recebeu, depois de deixar a Presidência, como dirigente do PT e que se dedicou à única que parece ser a atividade possível a ex-mandatários do País: o mercado de palestras.

Quem tiver dúvidas, leia a avaliação de George Legmann, que respondia (não sei se ainda o faz) pela organização das palestras do tucano:

[…] Lula deve ganhar R$200 mil a cada apresentação de uma hora no Brasil, e R$300 mil quando falar no exterior, considerando que são esses os valores médios pagos a ex-presidentes e grandes nomes de organismos internacionais ou CEOs de multinacionais na área de tecnologia. […] Legmann revelou a O Globo que FHC ganha R$180 mil com palestras no país, e cerca de US$170 mil (aproximadamente R$300 mil) ao falar nos Estados Unidos ou Europa.

Verifique que os valores estimados pelo “empresário” de FHC são de janeiro de 2011 e que, até por sua posição, ele não poderia valorar com equilíbrio as diferenças de prestígio entre um e outro presidente.

Embora não o seja mais, porém, a “culpa” do Lula é ser “um pobre” e um pobre não pode comprar um apartamento que não vale nem a metade (e olhe lá) de só um dos dois que pertencem a Aécio Neves, embora este nunca tenha tido um emprego privado na vida.

Não pode comprar um bote de lata para pescar no lago de um sítio, embora o outro possa fazer, com a aprovação do Ministério Público, um aeroporto com o dinheiro do governo de Minas Gerais para ir de avião à fazenda da família.

Reside aí o grande crime de Lula, não ter entendido que é e será sempre maldito para a mídia e a elite brasileira. Pode até ser tolerado, jamais respeitado e, quando lhes é possível – e a Lava-Jato o tornou – será apontado como execrável aos urros de uma classe média emburrecida, comedores de migalhas que desprezam os famintos.

Pobre não pode ter apartamento que não seja na periferia, não pode ter carro para não engarrafar as ruas, não pode dar aos aeroportos um clima de rodoviária.

É como escreveu, ontem [31/1], o professor Flávio de Castro, da UFMG, arquiteto e homem afeito, portanto, às questões da estética no sentido filosófico, dos sentimentos que alguma coisa bela (e, por oposição, também as “feias”) desperta dentro de cada indivíduo.

Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.
A questão é classista.
Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.

Está aí a raiz da questão e, por isso, a forma pela qual tem de ser enfrentada. Não temos uma imprensa ou um judiciário com o senso de isenção mínimo suficiente para jogar no lixo o que lixo é.

Não, o que temos é uma matilha, em parte ávida de sangue e em parte lívida de medo de também ser atingida pelas presas dos que rosnam e mostram os dentes.

A luta tem que se dar no campo onde eles, apesar de toda a sua força e poder, jamais conseguiram subjugar completamente o povo deste país: na política.

Porque passou da hora de entender que, embora sem descuidar – como fizeram tanto tempo – das respostas judiciais à detratação e aos abusos, é na política que se pode encontrar como juiz o povo, o povo pobre que, instintivamente sabe como embora não saiba a diferença entre Guarujá, Leblon e Higienópolis, sabe e sente a diferença de representação que têm Lula, Aécio e FHC.

Não esperem – como faz, preguiçosa e repetidamente o PT – que esta onda se quebre e vire espuma naturalmente. Não vai virar, senão oferecermos o peito ao choque e ao embate do mar de armações.

É como se diz na primeira cena de A tempestade, de Shakespeare: “Permanecei nos camarotes; estais mas é ajudando a tempestade.”

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