Emir Sader: O fracasso da ultraesquerda

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Corrente é a que mais fracassou na era neoliberal, pelo erro de suas visões e pela impotência decorrente para construir alternativas.

Emir Sader, via RBA em 31/1/2016

As correntes de ultraesquerda e os articulistas vinculados a essa visão são especialistas em fazer balanço crítico das outras correntes da esquerda. Fracassou o chavismo! Fracassou o lulismo! Fracassou o kirchnerismo! E tudo com um tom de se se apoiassem em grandes experiências de sucesso, desde as quais dirigem sua voz radicalmente crítica a correntes que aparentemente teriam sido um fracasso total.

Depois de um silêncio relativamente prolongado, por não saber dar conta do prolongado sucesso dos governos progressistas da América Latina, se dirigem agora para o suposto fracasso dos governos da Venezuela, da Argentina, do Brasil, do Equador, quando não de todos os governos pós-neoliberais, incluindo os da Bolívia e do Uruguai. Não são capazes, antes de tudo, de dar conta das extraordinárias transformações sociais que esses governos puseram em prática nas nossas sociedades e que fizeram deles a esquerda do século 21 e referência até mesmo para as forças de esquerda na Europa, como na Grécia, na Espanha e em Portugal, entre outros.

Tampouco consideram que esses governos, coordenados, foram os responsáveis pelo fortalecimento e pela expansão dos processos de integração regional, do Mercosul à Celac, passando pela Unasur, de forma independente em relação aos EUA.

Enquanto isso, a ultraesquerda não foi capaz de apresentar nenhum resultado de suas posições, que não tiveram sucesso em nenhum país do continente, tampouco na Europa. As alternativas aos governos progressistas estão sempre na direita. Ao contrário, quando apresentam candidatos, os resultados que obtêm são irrelevantes, sempre próximo do 1% de votos. Como última demonstração, os mesmos setores que falam com ênfase do fracasso do kirchnerismo na Argentina, que consideram que entre essa força e a direita não haveria diferenças, e propuseram o voto em branco no segundo turno, tiveram exatamente isso – 1% dos votos. Mas seguem falando com ênfase desde esse 1%.

Porque se trata de que, concentradas no fracasso dos outros, as vozes da ultraesquerda não se dedicam a analisar seu próprio fracasso na própria Argentina. A posição típica dessa corrente, de autonomia dos movimentos sociais, que não deveriam nem participar da disputa política nacional, nem fazer alianças com outras forças políticas, levou à desaparição dos movimentos piqueteiros, que tinham surgido com grande potencial. Não se encontra nenhum balanço autocrítico dos que levaram esse movimento à sua desaparição. Ao contrário, os próprios responsáveis por essas posições e seu fracasso total – intelectuais latino-americanos e europeus – continuam falando com convicção de suas teses, sem aprender nada do sucesso dos movimentos sociais e forças políticas que não aceitaram suas posições, nem do fracasso dos que as seguiram.

Mas o principal fracasso da ultraesquerda foi o de não haver sabido compreender o caráter da época histórica atual, de grandes retrocessos em escala internacional. Continuaram expressando sus posições verbalmente radicalizadas, sem se dar conta de que o objetivo maior da esquerda hoje é derrotar e construir alternativas concretas ao neoliberalismo, projeto em que avançaram tanto os governos progressistas da América do Sul.

Por outro lado, setores da ultraesquerda aderiram às teses liberais contra o Estado, apoiados na “sociedade civil”, como se esta fosse uma tese factível na luta contra o neoliberalismo. Não saíram da fase de resistência ao neoliberalismo, sem participar da disputa hegemônica do governo e sem capacidade de construir forças alternativas. Tem a companhia de ONGs, mas completamente distanciados da história contemporânea concreta da esquerda realmente existente.

Em suma, a ultraesquerda é a corrente que mais fracassou na era neoliberal, pelo erro de suas visões e pela impotência decorrente para construir alternativas. Isso acontece no Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Equador, na Bolívia, no Uruguai, onde se limitam a artigos de crítica. Tampouco consegue se desenvolver em outros países, como o México, Peru, Chile ou a Colômbia. Só existem como colunismo critico, não tem peso algum na luta concreta.

O futuro da luta contra o neoliberalismo continua sendo protagonizado pelas forças e as lideranças – como Evo Morales, Lula, Rafael Correa, Cristina Kirchner, entre outros – que disputam com a direita e seus projetos de restauração conservadora.

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