O mimimi patético do Banco Central

Banco_Central08_Tombini

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central.

Luis Nassif, via Jornal GGN atualizado em 10/1/2016 às 22 horas

Correção: o BC não atribuiu a alta da inflação à decisão da equipe econômica de enviar ao Congresso o orçamento com déficit. Aponta uma influência pequena no resultado final. Acabei me enredando em uma matéria falaciosa de O Globo (clique aqui). Alertado pelo Diogo Costa, corrijo pontos do post e mantenho os demais.

A carta de explicações do Banco Central – para justificar o não cumprimento das metas de inflação – é um documento patético. Provavelmente a demonstração mais explícita, nesses anos todos, da mediocridade de sua atuação.

Na carta, o BC se jacta de ser o último bastião da seriedade no país. Reclama que a inflação não cedeu porque o governo enviou ao Congresso um orçamento com déficit, o que provocou o rebaixamento do rating brasileiro comprometendo a estratégia anti-inflacionária do banco. Simples assim! Escreve como se o maior pecado do governo tenha sido macular as projeções do Banco Central.

Correção: menciona o fato mas lhe confere um peso mínimo, ao contrário do que disse O Globo, no qual me baseei.

É inacreditável que um órgão relevante, composto por um batalhão de PhDs formandos aqui e no exterior, seja representado por um presidente que ousa uma nota oficial desse nível.

Correção: inacreditável fui eu indo na conversa de O Globo. É uma nota técnica. Mantenho o restante do post.

Basta analisar as razões que levaram à frustração do orçamento: uma brutal recessão, ampliada por uma política monetária extraordinariamente restritiva. A economia continua sendo desmontada e o BC não consegue avançar além das metas inflacionárias.

É um trabalho de burocrata de manual. Toda semana mede os humores do mercado. Se aumenta a expectativa de inflação, aumenta-se a Selic. É como se todo o instrumental do banco se limitasse a definir a Selic e controlar seus efeitos sobre o câmbio. E pouco importa os efeitos sobre o corpo econômico. Substitua-se Alexandre Tombini por um robô, já que, na prática, não passa de um robô acompanhado de notas de rodapé.

A economia está desmontada, com níveis recordes de queda do PIB e aumento sensível do desemprego. A Selic atua sobre a demanda e sobre o câmbio. Se a economia está despencando quase 4%, é evidente que não há nenhum espaço adicional (e nenhuma necessidade) de derrubar ainda mais a atividade.

Se a inflação persiste, com quase 4% de queda do PIB, obviamente a demanda não é causa da inflação.

A inflação foi alimentada por duas rodadas de alta de preços – a inicial, com reajuste dos insumos (câmbio e tarifas) e a segundo, com os repasses para os preços finais, agravada pela seca que influenciou os agrícolas. Com a recessão atual haverá pouco espaço para repasses de preços. Agora é sentar e aguardar que as altas de 2015 saiam gradativamente do ano calendário.

O desafio central é (Acorde, Tombini!) estancar a queda da atividade econômica. Não se trata de problema trivial nem de opção ideológica entre mercadistas e desenvolvimentistas. Trata-se de um problema real, que está jogando as três instâncias administrativas (União, estados e municípios) em uma crise fiscal similar às de 1991 e 1999, e ameaçando o sistema bancário com problemas de monta, se as empresas não recuperarem a capacidade de pagamento. Ou seja, o estancamento da queda do nível de atividade é vital não apenas para a recuperação fiscal, mas para se impedir o caos.

O que faz o Banco Central?

A queda do grau de investimento se deve a dois pontos: a queda recorde da receita fiscal e a elevação recorde da dívida bruta. Ambos os pontos têm a mão, os pés e todas as digitais do BC. Ao jogar a Selic em 14,25% (projetando uma taxa real de quase 7% para os próximos 12 meses!) e, sobre ela, ainda se joga o custo fiscal dos swaps cambiais, o BC ampliou exponencialmente a vulnerabilidade fiscal do país, dando um salto na relação dívida/PIB (principal indicador analisado pelas agências de risco). Não foi o 0,5 ponto de déficit primário que provocou o rebaixamento, foram os 8 pontos de PIB de crescimento da dívida bruta.

O país precisa urgentemente de uma agenda positiva. Na impossibilidade de recorrer a qualquer medida fiscal, um dos fatores de mudança de expectativas são as chamadas reformas estruturais.

Há um caminhão de propostas que poderiam estar na agenda do BC, desde alternativas às operações compromissadas – uma herança nefasta do período inflacionário – até a formas criativas de destravar o crédito.

Nas mãos de Tombini, toda a inteligência acumulada no BC, a tropa de economistas PhDs aqui e no exterior, serve para quê? Apenas para elaborar cenários futuros fantasiosos sobre a inflação e desculpas previsíveis para justificar o passado

O governo Dilma tem de recuperar urgentemente sua autoridade. Esse episódio, de um BC pretendendo enquadrar o ministro da Fazenda (e, por consequência, a própria presidente) é inédito. Ainda mais com base em argumentos tão medíocres.

Ou assuma a presidência ou a entregue para um colegiado composto por Tombini, pelo procurador aloprado do TCU, pelos delegados da PF incumbindo seus ministros de escrever a ata.

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