Saúde: A Folha esconde o que o Datafolha revela

Saude_Posto_Atendimento01

Pesquisa demonstra: Medicina privada é pior avaliada pela população que atendimento do SUS. Mas jornal – repleto de publicidade dos planos de saúde – procura disfarçar os dados.

Ricardo Rodrigues Teixeira, via Carta Maior em 20/10/2015

Nova pesquisa DataFolha, publicada na Folha de S.Paulo em 13 de outubro, indica, mais uma vez, a péssima avaliação da saúde no país. Mas há aspectos importantes dessa pesquisa que, ao apresentar e analisar os dados, o jornal Folha de S.Paulo faz contorcionismos para ocultar. Por exemplo, que a saúde privada é pior avaliada que o SUS. Vejamos.

Lendo os dados divulgados notamos que seis em cada dez brasileiros (ou seja, 60%), acham a saúde péssima. Quando só se avalia apenas o SUS, o número cai para 54% de péssimo.

Quando se avalia a “saúde em geral”, 24% dá nota zero; quando se avalia apenas o SUS, 18% dá nota zero.

A matéria evita comentar (mas pode ser lido nos dados que disponibiliza) que 2% dá nota 10 para a “saúde em geral” e 3% dá nota 10 quando se avalia só o SUS.

E a diferença mais notável: 11% dá nota maior que 7 para a “saúde em geral” e 18% dá nota maior que 7 para o SUS.

Conclusão óbvia, cuidadosamente evitada pela Folha na análise dos resultados: a saúde privada puxa significativamente a avaliação da “saúde em geral” para baixo!

Mas, excetuando o esclarecimento no primeiro parágrafo de que o levantamento envolve a rede pública e privada, no resto da matéria a expressão “saúde privada” nem é mencionada. A comparação é sempre entre a “saúde em geral” e o SUS. Afinal, o objetivo é sempre o mesmo: associar a “péssima avaliação da saúde” ao nome SUS e evitar, a todo custo, de associá-la ao setor privado, mesmo quando é ele que mais contribui para a má avaliação da saúde no país.

Se fosse um jornalismo sério e honesto, lembraria ainda o quanto o setor privado gasta para prestar um mal atendimento a 25% da população (parcela aproximada da população brasileira que tem plano de saúde privado e que gasta 52,5% de todos os recursos gastos com saúde no país, segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde; ou ainda, cerca de R$2.200,00 per capita) e o quanto o setor público tem de recursos para dar atendimento a 83% da população (percentual que referiu ter utilizado o SUS segundo dados deste levantamento do DataFolha) e garantir a saúde coletiva através de medidas que beneficiam indistintamente toda a população (vacinas, vigilância epidemiológica etc.) e, mesmo assim, conseguir ser melhor avaliado (47,5% do total de recursos gastos com saúde no país ou aproximadamente R$1.000,00 per capita).

Outro fato que se pode deduzir dos dados, e que também não é destacado pela Folha, é que se 25% têm plano de saúde e 83% utilizaram o SUS, então o SUS acaba sendo utilizado por muita gente que tem plano de saúde. E aí, se fosse um jornalismo sério e honesto, ela também faria questão de destacar o conhecido calote que os planos de saúde aplicam no SUS, referente aos atendimentos de urgência e emergência, ao tratamento de câncer, transplantes, hemodiálise, entre outros, que os planos negam cobertura e o SUS acaba assumindo (apenas 25% dos valores devidos são ressarcidos ao Sistema Único de Saúde, dessa parte 20% se perde com recursos da justiça, tramitação, prescrição etc.).

Explicitar esses dados reais daria ainda maior dramaticidade à melhor avaliação do SUS comparada à avaliação geral da saúde no país. E nesse caso, a chamada mais justa para matéria seria: “SUS faz mais e melhor com menos recursos que a saúde privada”.

Mas, aparentemente, este jornalismo não é sério nem honesto. Ele não pode ser quando tem compromissos claros com os setores que fazem da saúde um lucrativo ramo de negócios e não um bem público e um direito universal.

Ricardo Rodrigues Teixeira é médico e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Leia também:
Você pode até não perceber, mas utiliza o SUS todos os dias
Projeto de Eduardo Cunha favorece saúde privada e pode enfraquecer o SUS
Congresso Nacional quer acabar com o SUS
Médicos fantasmas do SUS são alvo de investigações
SUS: Governo federal destina R$143,2 milhões para a realização de cirurgias eletivas
O direito à saúde e os médicos: Uma questão de interesses
SUS passa a oferecer transplante de medula óssea
Na Alemanha não existe saúde gratuita, além disso ter um plano é obrigatório, caro e ruim
Cada vez mais, mulheres recorrem ao SUS para ter parto normal
“Mundo pode aprender com experiência do SUS”, diz jornal britânico
Programa Mais Médicos, o Bolsa Família da saúde
Em 2014, SUS registrou 1,4 bilhão de consultas médicas
Por que o Brasil forma médicos para elite
Médicos fantasmas: Brasil descobre por que o SUS não funciona
Mídia ignora operação da PF que prendeu “doutores” ladrões do SUS
Médicos simulavam cirurgia cardíaca sem necessidade para desviar recursos do SUS
A quem interessa desmoralizar o SUS? E quem ganha dinheiro com isso, e muito?
Médicos que fraudaram SUS abriram empresas para sonegar Imposto de Renda
Deputados financiados por planos de saúde declaram guerra ao SUS
A trama de Eduardo Cunha para privatizar o SUS
Banditismo: Máfia de médicos desvia milhões de reais do SUS
As estratégias de destruir o SUS para mercantilizar a saúde
Mais Médicos promove humanização da atenção básica no SUS
Conselho Federal de Medicina condena campanha do SUS contra racismo
Fantástico mostra hospital com atendimento em nível de excelência, mas omite que é 100% SUS
SUS, um direito a ser defendido
Período de formação no SUS aproximará médico da população
José Gomes Temporão: SUS, entre a hegemonia e a americanização
Médicos enfrentam setor privado e lançam contraofensiva pela saúde pública
O SUS e as políticas sociais na mira da “Agenda Brasil”
Pesquisador dos EUA elogia o Saúde da Família do SUS: “É a melhor forma de organizar um sistema de saúde”.
Pagar pelo SUS é distorção no sistema, diz Padilha
Leandro Fortes: Petralha usa SUS para fazer operação cardíaca
Recordar é viver: MP manda Serra tirar dinheiro do SUS do mercado financeiro e aplicar na saúde

Uma resposta to “Saúde: A Folha esconde o que o Datafolha revela”

  1. Moacir R. de Pontes Says:

    Sem falar no desperdício de recursos de formar mais especialistas para o mercado do que generalistas para a Atenção Primária à Saúde. Se metade dos médicos brasileiros trabalhassem na APS já dava 1 médico para 1.000 habitantes. Mas, “A Cidade somos Nós e como for nossa Cidade, assim seremos Nós”.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: