Por que não houve uma Lava-Jato para FHC

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Benjamin Steinbruch

Luis Nassif, via Jornal GGN em 21/10/2015

Existem dois FHC. Um que fala para os iletrados – classe média, empresários pouco politizados, leitores da mídia – e outro que ambiciona falar para os historiadores.

O primeiro se vale de um moralismo rasteiro, primário e de uma falsa indignação. O segundo tenta se mostrar o homem de Estado, frio e calculista, dominando as regras da real politik.

Pelos trechos até agora divulgados, as memórias de governo de Fernando Henrique Cardoso – frutos de gravações que fez durante sua gestão – visam a história. Dê-se o devido desconto para algumas passagens repletas de indagações hamletianas sobre dar e receber. Provavelmente, FHC gravou essas cenas olhando-se no espelho e fazendo pose. Nas demais, emerge o político esperto, o homem de Estado cujo maior papel foi ter garantido a governabilidade para que seus economistas implantassem o modelo neoliberal.

Acomodado, pouco ambicioso na implantação de políticas de corte, com baixíssima capacidade de entender os fenômenos do desenvolvimento ou da massificação das políticas sociais, FHC cumpriu competentemente o papel que lhe caiu no colo, de viabilização política de um modelo neoliberal de economia.

Ele admite, então, que em 1996 foi alertado por Benjamin Steinbruch, dono da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) sobre a corrupção na Petrobras, então presidida pelo notório Joel Rennó. Havia a necessidade de intervenção na empresa, mas, apesar da gravidade dos fatos, ele nada fez. Segundo ele, não queria mexer no vespeiro antes da aprovação da lei do petróleo.

Em relação ao presidencialismo de coalizão, tem a honestidade de admitir que, sem as concessões, não se governa.

É curioso analisar o discurso atual de FHC, enfático contra o loteamento político, e suas alegações na época, enfáticas na defesa do loteamento político.

“A responsabilidade é minha, a decisão é minha, mas não vou fazer um ministério sem levar em consideração a realidade política. Com a experiência dos últimos anos sei que, se não existe base de apoio político, é muito difícil o governo fazer as modificações de que o Brasil necessita”.

“Não estou loteando nada. Estou simplesmente fazendo o que disse que faria: buscaria o apoio dos partidos políticos, das forças políticas da sociedade, e o faria para poder governar tendo em vista a competência técnica”, relatou.

É o mesmo presidente que loteou a Petrobras para o grupo de Joel Rennó e admitiu que nada faria para mudar a situação.

É igualmente curiosa sua indignação contra uma CPI dos Bancos, preparada por José Sarney e Jader Barbalho para investigar as jogadas com o Econômico e o Nacional. Taxou a CPI de “falta de juízo absoluto […] Foi uma manobra para abalar meu poder, para me limitar politicamente, me atingir indiretamente”.

É retrato de outros tempos, a maneira como enfrentou as denúncias da Pasta Rosa – com documentos comprovando o financiamento de campanha de vários políticos pelo Banco Econômico. A Polícia Federal intimou o presidente da Câmara, Luiz Eduardo, filho do senador Antônio Carlos Magalhães. A reação de FHC foi imediata: “A Polícia Federal foi além dos limites desse tipo de mesquinharia […] Em todo caso, o procurador Brindeiro colocou um ponto final nisso”.

Por tudo isso, não se tenha dúvida que, em um ponto ele foi nitidamente superior a Lula: na capacidade de entender o jogo dos demais poderes de Estado – Polícia Federal, Ministério Público, Justiça – e saber conservá-los sob rédea curta.

Leia também:
Coletânea de textos: FHC, o vendilhão da Pátria

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