Flavio Aguiar: Cada país tem a direita que pode

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Extrema-direita cresce no mundo, mas em cada país com seu próprio “estilo”.
Se no Brasil a boçalidade de parte de nossas elites endinheiradas transparece nos insultos e no assédio físico aos “inimigos”, na Alemanha a arrogância vira uma violência covarde à noite

Flavio Aguiar, via Blog do Velho Mundo em 20/10/2015

A crescente ascensão e a desfaçatez da direita e da extrema-direita, longe de serem um fenômeno exclusivamente brasileiro, está largamente presente na Europa inteira, também na Alemanha. Mas a direita em cada país tem seu próprio estilo.

Numa certa passagem de Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Hollanda comparava o nazismo e o fascismo europeus com o integralismo brasileiro, lembrando que a tragicidade daqueles virava a agitação neurastênica dos adeptos deste, ou algo parecido com isto, pois estou citando de memória.

Hoje novas diferenças aparecem, entre as semelhanças da potenciação das atividades das direitas aqui e aí, pela internet.

No caso brasileiro transparece a boçalidade da parte de nossas elites endinheiradas e da classe média que sente seus privilégios (que confunde com direitos adquiridos, vitalícios e hereditários, como as capitanias coloniais), expressa nas camadas de insultos e de assédio físico aos que vê como seus inimigos ou até traidores de classe.

Aqui a boçalidade vira uma arrogância disfarçada de altivez de dia, e uma violência covarde que se ativa à noite. De dia, o que transparece é um desprezo cultural e ético pelos “inferiores” (já que ficou feio falar em raça); à noite, transparece o ataque covarde aos abrigos de refugiados, estejam eles ocupados ou não, sob a forma de incêndios criminosos. Há praticamente um ataque destes por noite, no mínimo. Às vezes são dois ou três.

Ninguém vai insultar a chanceler Ângela Merkel, chamando-a de “vaca” ou outros xingamentos piores. Mas em manifestações da extrema-direita têm aparecido forcas que lhe são reservadas, e ao vice-chanceler Sigmar Gabriel.

No sábado passado, a candidata à prefeitura da cidade de Colônia Henriette Reker, independente, mas considerada próxima à chanceler, foi atacada a golpes de faca no pescoço por alguém que a polícia local identificou como “um desempregado”. Este (a lei alemã impede a identificação de autores ou suspeitos deste tipo de crime antes de seu indiciamento formal, o que, aliás, deveria servir de exemplo para nós e nossa velha mídia) alegou como motivo seu protesto perante o “privilégio” que o país vem concedendo aos estrangeiros, refugiados ou imigrantes. Reker que, embora hospitalizada, foi eleita no domingo, com 52,7% dos votos, era a encarregada de organizar a recepção aos refugiados e imigrantes em Colônia.

O caso lembra perigosamente a prática e as acusações dos nazistas em relação aos judeus na década de 30, quando chegaram ao poder. Só que agora estas práticas e acusações se voltam predominantemente contra os muçulmanos. Mas assim como os nazistas se erguiam também contra outros “inferiores”, como ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, negros etc., o desprezo desta direita emproada e sombria também se ergue contra os “povos do sul”, acusados de serem culturalmente vulneráveis à corrupção, de se recusarem ao trabalho, de propensos ao desperdício etc.

Esta irrupção de violência vem preocupando as autoridades alemãs de todas as inclinações ideológicas, embora mesmo dentro das hostes da União Democrata Cristã, partido da chanceler, e da sua co-irmã bávara, a União Social Cristã, surjam vozes que condenem esta “fácil abertura” que Merkel e o país vêm concedendo às vagas de “invasores” que procuram abrigam no continente, na Alemanha em particular.

A onda de direita não impede manifestações de solidariedade igualmente vigorosas. No fim de semana, à noite, milhares de pessoas saíram às ruas na capital portando velas acesas, em apoio aos imigrantes e refugiados. Em Colônia, no domingo, todos os outros candidatos rivais de Reker fizeram uma vigília, também com velas acesas, em solidariedade a ela.

A realidade é que, como na época da ascensão do nazismo, a Alemanha se mostra um país dividido. Sinal desta divisão foi, na noite da segunda-feira, dia 19/10, a realização de duas manifestações simultâneas na cidade de Dresden, berço dos novos movimentos de extrema-direita que se abrigam sob o nome de “Pegida”.

De um lado, os Pegidas comemoravam um ano do nascimento formal deste movimento. De outro, outros manifestantes protestavam contra o Pegida. A polícia calculou o mesmo número de manifestantes de um lado e de outro: 26 mil para cada um. Apesar da presença dos policiais, o confronto foi inevitável, com feridos e detidos de parte a parte.

Pelo menos há uma diferença: na década de 1930 a polícia, com frequência, fazia vista grossa para a violência dos nazistas, e contribuía para atacar comunistas e social-democratas. Hoje isto não acontece mais, embora durante mais de uma década os órgãos de inteligência da Alemanha tenham se descurado das atividades da extrema-direita, chegando a fechar o departamento específico que se encarregava desta área de investigação, misturando seus membros com os de outros departamentos.

Mas o problema da emergência renovada destas tendências de extrema-direita persiste, e é grave.

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