O lamentável papel da Livraria Cultura na agressão a Suplicy

Livraria_Cultura01

Inépcia para organizar eventos complexos.

Carlos Fernandes, via DCM em 25/10/2015

Mais uma vez presenciamos atos de selvageria física e intelectual provocadas por pessoas que abandonaram qualquer coisa que fizesse sequer menção à civilidade e ao respeito perante a pluralidade de ideias.

Dessa vez, o festival de insultos foi realizado dentro das dependências da Livraria Cultura, no momento em que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, dava uma entrevista para a CBN no teatro Eva Herz.

Inacreditável que atos de tamanha ignorância e falta de educação tenham como cenário de fundo uma livraria, um espaço que nos remete aos livros e à arte da conversação. Ainda mais quando essa livraria curiosamente se chama “Cultura”.

Mais inacreditável ainda foi a inépcia com que o acontecido foi tratado. Absolutamente nada foi feito para evitar ou coibir as agressões que se seguiram. De tudo que foi visto ali, podemos chegar à conclusão que a Livraria Cultura não possui qualquer competência para organizar um evento como aquele ou simplesmente foram coniventes com a barbárie.

Não que seja a primeira vez que atos dessa natureza tenham acontecido num ambiente desse tipo. Pouco tempo atrás o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também foi vítima dessa mesma gente em um ambiente que deveria ser de conhecimento e tolerância.

Mas o que chama mesmo a atenção é o fato do clã dos Herz, uma família de judeus alemães que imigraram para o Brasil fugindo do nazismo, tenha feito de seu negócio um reduto de uma classe de políticos e seus simpatizantes que nutrem uma certa ojeriza a imigrantes como eles.

Nem o fato de seu atual império, fundado pelo casal Kurt e Eva Herz, e agora sob o comando de Pedro Herz, ter tido um grande apoio do BNDES em 2011 já no governo Dilma, obtendo um financiamento na casa dos R$31 milhões para modernização e abertura de novas lojas, foi suficiente para que descobrissem qual governo é realmente democrático e preocupado com o desenvolvimento da nação.

Na mesma intensidade que usufruía de um Estado democrático que mantém independentes as suas instituições, inclusive as de grande relevância para a economia do país, como é o caso do BNDES, mais os Herz se atraíam em direção às promessas demagógicas de inoperantes funcionais do porte de José Serra e cia.

A partir daí, foi um pulo para que o atual CEO da Livraria Cultura demonstrasse seu “apreço” pelos seus clientes e o que pensa sobre o povo do país que tão bem o acolheu. Para explicar o porquê de ter vendido às escondidas a histórica edição do jornal Charlie Hebdo após o atentado que vitimou os seus principais editores, Pedro Herz esclareceu:

“O jornal parece um tabloide de distribuição gratuita, mas não é gratuito, por isso o cuidado. Aqui é um país de ladrões, o sujeito entra com má intenção e leva. Ou quer sentar num pufe e ler o jornal, sem comprá-lo. Não temos posição política, vendemos conteúdo.”

Realmente esclarecedor. O cidadão que fez fortuna no Brasil e que permite livremente manifestações antidemocráticas nas suas lojas, acha que é o povo brasileiro (e não os políticos que apoiam esse tipo de atitude) os verdadeiros ladrões. Quanta gratidão.

De um pequeno empreendimento onde a razão de ser era a democratização da leitura, o que hoje conhecemos como a rede Livraria Cultura se transformou num conjunto coeso e maciço de disseminação do que há de mais reacionário e conservador nas relações políticas e sociais.

Ao que parece, os livros já não são mais a sua principal atividade. Aliás, a gestora de investimentos Neo Investimentos comprou em janeiro de 2009 parte da Livraria Cultura. Como se vê, os interesses econômicos aliados aos conchavos políticos que tanto seduzem os capitalistas, não poupam sequer a divina arte de difundir a cultura e o conhecimento. A Livraria Cultura sucumbiu à “cultura pós-moderna” da espetacularização de tudo em troca do lucro fácil.

No seu livro “A sociedade do espetáculo”, lançado em Paris em 1967, Guy Debord já discutia a transformação da cultura na sociedade moderna. Entre muitos achados, Debord afirmava que: “O que as indústrias culturais inventam nada mais é que uma cultura transformada em artigos de consumo de massas”.

É basicamente essa a “cultura” que a Livraria Cultura difunde ao permitir cenas de tamanho apelo midiático. De uma cultura voltada aos valores humanos, às artes, à poesia, à música e ao conhecimento filosófico, o negócio comandado por Pedro Herz se transformou num fornecedor de uma “cultura” voltada ao escárnio e ao efêmero.

Já não há mais motivo algum de ser para a palavra “cultura” na marca “Livraria Cultura”. No ritmo que ela vai, é capaz que nem a palavra “Livraria” caiba mais para denominar o seu empreendimento.

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6 Respostas to “O lamentável papel da Livraria Cultura na agressão a Suplicy”

  1. Daniel Castelo Branco Says:

    Jésus Araújo, e se eu disser que somos herança/frutos da sua geração? Vamos parar de culpar e também vamos deixar desse papo que “já foi o tempo” que não foi não. O tempo é esse, de agora. E não ache que o seu também passou. Pretendo realmente deixar um mundo melhor para meu filho e, seja numa conversa ou mesmo num comentário num site ou em redes sociais, dar ferramentas para ele e outras pessoas conseguirem mudar o mundo também, e não só dizer a ele e os demais que “já se foi o tempo que intelectuais se reunião” e blá blá blá. Pensa nisso, não deixa essa garotada crescer achando que o que está por vir é sempre o pior e que o tempo bom já se foi que isso é muito mal e e difícil de consertar. No mais, a atitude desses desesperados/teleguiados é patética e só mostra o quanto é ruim exaltar que “o tempo bom já se foi…” Agora exaltam até a ditadura… Temos que dar menos atenção/voz a essas pessoas, só, somos muito mais do que isso. Esses caras da política não merecem que nos degladiemos pelas falcatruas deles. Eles podem estar rindo de tudo isso. Vamos disseminando o bem e orientando os que estão sem enxergar saídas que isso naturalmente se replica e as coisas realmente mudam, de dentro pra fora.

  2. Jésus Araújo Says:

    Sou idoso, professor aposentado, rato de livraria, e cheguei ao conhecimento de que a maioria dos que trabalham em livrarias estão lá porque foi o trabalho que encontraram. Poderiam estar vendendo fubá ou feijão, e não haveria diferença alguma; até, talvez, entendam mais de fubá e feijão que de livros. Já se foi o tempo dos intelectuais reunidos numa livraria, discutindo problemas e com o suporte do pessoal da casa

  3. Heloneida (@FHeloneida) Says:

    Nós cidadãos brasileiros precisam aprender a ter classe quando falamos sobre política, religião. Deixamos a selvageria para área do futebol, mas é claro que sem violência gostaria de salientar.

  4. Eliane Barroso Says:

    Não queremos gratidão, exigimos RESPEITO. Se não sabem o que é isso vão para Baltimore!!!!

  5. Robson Roberto da Silva Says:

    essa quadrilha da direita é muito articulada, primeiro plantam uma noticia falsa da saida de Haddad do PT no Estadão, logo desmentida por ele, Isso bem no dia em que vai ter uma sabatina contra Haddad nessa livraria promovida pela radio CBN igualmente pertencente a PIG e coincidetemente os manifestantes se ajeitando na plateia com a jornalistas tendenciosas da CBN vomitando suas acusações contra o PT com vaias e insultos dos coxinhas municiados com seus pixulecos, como crianças birrentas!!! tudo isso não passa de um grande circo montado pela oposição golpista e pela imprensa PIG.

  6. pintobasto Says:

    Há muita coisa que necessita mudar neste Brasil!
    Temos que acabar com a falta de respeito generalizada a todos os valores que sustentam uma sociedade.

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