Guilherme Boulos: Uma frente para disputar as ruas

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As relações desfavoráveis devem ser enfrentadas, e não servir de argumento para mais recuos. Não foi essa a escolha do governo Dilma. Mas precisa ser a dos movimentos sociais e da esquerda brasileira, se não quisermos ser levados pelo governo ao abismo.

Guilherme Boulos, via Le Monde Diplomatique em 8/9/2015

O sinal de alarme soou. Com o avanço das pautas conservadoras – nas instituições e nas ruas – e a crise do governo petista, unir forças tornou-se uma questão de sobrevivência para a esquerda brasileira. Daí as diversas iniciativas de “frentes de esquerda”.

Que num momento como este precisamos organizar uma frente, parece claro. O que não é tão evidente é qual seriam o caráter e os objetivos dela. E, ainda, se a resposta a esses temas possibilita a formação de uma única frente ou não.

Esse é o debate que temos atualmente e que precisa ser encarado sem receios. Definir para onde queremos ir passa por entender como chegamos até aqui e os impasses que estão colocados para as forças populares hoje no Brasil.

Esgotamento de uma estratégia
O Partido dos Trabalhadores caminha para completar treze anos no comando do governo federal. Durante os dois mandatos de Lula e os cinco anos de Dilma Rousseff vimos o apogeu e o esgotamento de uma estratégia política: o projeto de avanços sociais sem reformas estruturais.

É verdade que os governos petistas melhoraram as condições de vida dos mais pobres, seja por meio da facilitação do crédito para o consumo, seja pela geração de novos empregos e pelo aumento gradual do salário mínimo, seja ainda por meio de programas sociais como o Bolsa Família, o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida (com todos os seus limites e contradições). E a esquerda erra se não for capaz de reconhecer isso, estabelecendo sinal de equivalência com o neoliberalismo tucano.

É igualmente verdade, porém, que esses governos mantiveram intocadas as estruturas arcaicas da sociedade brasileira. Não tocaram no tema distributivo, não ousaram mexer em privilégios e não pautaram nenhuma das reformas populares tão necessárias aos trabalhadores. Além disso, conservaram o modelo de governabilidade conservadora que tem sido eficaz em garantir que tudo fique como está desde o fim da ditadura militar.

A perspectiva de limitar-se às mudanças possíveis sem conflito nem mobilização circunscreveu o projeto petista a manejos no orçamento federal e ao uso dos bancos públicos para estimular a economia. Isso foi suficiente para gerar crescimento econômico enquanto a maré internacional estava favorável. Com o crescimento, aumentava-se a arrecadação, o que permitia a reprodução do modelo.

No entanto, a maré virou após 2008 e as condições para manter a estratégia foram sendo minadas ano a ano. A margem para conciliação de interesses foi se reduzindo na sociedade brasileira. Com o avanço da crise econômica, o véu do consenso rasgou-se e o conflito social reapareceu numa cena de polarização. A partir de junho de 2013, a política transbordou para as ruas e abriu-se o período de disputa pelas saídas estratégicas.

Ao final das eleições de 2014 ficou claro que as coisas não podiam mais permanecer iguais. As condições econômicas não permitiam mais o “ganha-ganha” e as condições políticas estavam bem mais deterioradas para o governo petista.

A saída é pela esquerda
A direita brasileira foi rápida e eficiente em construir sua própria narrativa para a crise do petismo e apresentar suas saídas. O mantra – repetido sem limites pela grande mídia – foi desmoralizar o PT como partido da corrupção e associar a crise fiscal à ideia de que o governo “gastou demais” ou aos “roubos na Petrobras”. O discurso pegou.

A saída política oferecida foi um pacote de medidas e reformas regressivas e a fragilização do poder do Executivo. Essa agenda ganhou força com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara e as manifestações de 15 de março.

Entre os projetos que passaram a pautar a agenda nacional estão a ampliação da terceirização, uma contrarreforma política, a redução da maioridade penal e a revisão do modelo de partilha do pré-sal.

Nesse cenário, a posição do governo Dilma foi a pior possível. O governo não apenas deixou de estabelecer agendas progressivas, como também fortaleceu as regressivas, com a aplicação de (e insistência em) um ajuste fiscal antipopular.

Editou medidas provisórias que atacam o seguro-desemprego e as pensões, aumentou compulsivamente os juros e cortou investimentos nos principais programas sociais. Se tinha com isso a pretensão de garantir a governabilidade junto à banca e à direita, tudo indica que fracassou: a instabilidade política só cresce. O que o governo conseguiu com essa política foi reduzir sua popularidade a 10% e fortalecer as saídas à direita.

Que alternativas teria? Encampar uma agenda política de reformas populares, ajustando as contas por meio de tributação progressiva aos ricos e assumindo de fato temas cruciais, como a democratização das comunicações e uma reforma do sistema político. Criar uma pauta que mobilizasse setores populares.

A situação estava dada: ou se retrocedia ou se avançava, não havia muita margem para o meio-termo. Insistir em recompor um pacto quando não havia mais condições para isso, visando evitar o conflito, apenas repôs este último num terreno mais desfavorável.

Alguns devem estar pensando: “Está bem, mas e as relações de força? O governo não faz o que quer, mas o que as circunstâncias permitem”. É verdade, ninguém faz política nas condições que escolhe. Mas também ninguém é apenas refém das relações de força, podendo sempre intervir para alterá-las. O governo é uma ferramenta poderosa para incidir nas relações de força. Encarar relações desfavoráveis como um impeditivo para enfrentamentos só fortalece e consolida ainda mais essas relações. Se diante de um avanço da direita o governo só cede à direita, quem ele está fortalecendo?

Que há outras possibilidades, a história nos mostra. Em nossa América Latina, nos últimos tempos, vários governos enfrentaram condições desfavoráveis e responderam a elas apostando na mobilização popular e no enfrentamento político. Conseguiram avançar em reformas que pareciam impossíveis, criaram novas relações de força.

Aqui mesmo, em abril deste ano, vimos algo nessa direção. A aprovação do projeto da terceirização parecia assegurada até que mobilizações nas ruas e nas redes reverteram o quadro e devolveram o projeto para a gaveta no Senado.

As relações desfavoráveis devem ser enfrentadas, e não servir de argumento para mais recuos. Não foi essa a escolha do governo Dilma. Mas precisa ser a dos movimentos sociais e da esquerda brasileira, se não quisermos ser levados pelo governo ao abismo.

Desafios de uma frente
A esquerda brasileira precisa apresentar uma saída para a situação política que não seja mais do mesmo. Que não seja tentar recuperar uma estratégia e uma tática que já demonstraram sinais de esgotamento.

Ante o bloqueio de avanços sociais precisamos responder com um projeto de reformas populares que seja capaz de representar saídas claras para a crise.

Ante a impermeabilidade do sistema político à participação popular precisamos responder com a retomada de amplas mobilizações, fazendo das ruas palco principal de um projeto político de esquerda.

Esse deve ser o maior objetivo de uma frente hoje no Brasil: retomar a capacidade de mobilização social, impulsionando um novo ciclo de ascensão das lutas populares. É nas ruas que alteraremos as relações de força.

O caráter da frente que defendemos é essencialmente de mobilização, capaz de canalizar as insatisfações populares para um projeto de esquerda.

Isso implica garantir um equilíbrio difícil, mas necessário. De um lado, a frente precisa ser um bastião contra a ofensiva conservadora e as saídas regressivas para a crise. De outro, ser capaz de enfrentar as políticas antipopulares desse governo com igual decisão.

É possível que não consigamos enfrentar todos esses desafios numa única frente, dada a diferença de posições que ainda persistem na esquerda brasileira. Há aqueles que estão dispostos a enfrentar o golpismo e a ofensiva conservadora, mas não têm a mesma disposição para combater as políticas do governo. E há outros que, identificando de forma simplista a direita com o governo, flertam com a onda antipetista, acreditando ilusoriamente que podem tirar algum saldo à esquerda.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e vários outros movimentos e organizações da esquerda têm se empenhado desde o fim de 2014 em construir um espaço de frente que faça esse duplo enfrentamento, focando a construção de uma agenda de mobilizações nacionais. Essa frente foi importante para a construção de dias de luta, como o 15 de abril, o 29 de maio e o 15 de junho. Agora convocou a mobilização de 20 de agosto.

Esperamos que, mesmo nessa diversidade de frentes e posições, a esquerda brasileira tenha a capacidade de estar unida nas ruas para enfrentar os desafios da conjuntura.

Guilherme Boulos é membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

3 Respostas to “Guilherme Boulos: Uma frente para disputar as ruas”

  1. Bule Verde Midiativismo Says:

    O POVO PRECISA FALAR! O POVO PRECISA SER OUVIDO!
    O POVO PRECISA SER ATENDIDO!
    Esquerda do Brasil: Ocupar as ruas, soltar o texto! Se empoderar das pautas do povo brasileiro! Reivindicar nossos direitos esquecidos e amontoados nas gavetas cheias de escorpiões do judiciário, do legislativo, etc…
    Enquanto os podres poderes estão se digladiando em emaranhados infinitos de causas “próprias”. Se perdem na manipulação de leis que os favoreçam, nós povo, aqui no andar de baixo, estamos partindo pra outra. Precisamos tomar outras providências, antes de afundarmos no buraco negro do retrocesso.
    A esquerda precisa ser ouvida e não amansada por discursos inócuos da direita nos podres poderes.
    Sensatas palavras, Boulos!

  2. Eliane Barroso Says:

    Boulos, sempre excelentes análises e propostas!

  3. Bule Verde Midiativismo Says:

    Sensatas palavras Boulos!

    A esquerda precisa ser ouvida e não amansada por discursos inócuos da direita nos podres poderes.
    “Ante o bloqueio de avanços sociais precisamos responder com um projeto de reformas populares que seja capaz de representar saídas claras para a crise.

    Ante a impermeabilidade do sistema político à participação popular precisamos responder com a retomada de amplas mobilizações, fazendo das ruas palco principal de um projeto político de esquerda.

    Esse deve ser o maior objetivo de uma frente hoje no Brasil: retomar a capacidade de mobilização social, impulsionando um novo ciclo de ascensão das lutas populares. É nas ruas que alteraremos as relações de força.

    O caráter da frente que defendemos é essencialmente de mobilização, capaz de canalizar as insatisfações populares para um projeto de esquerda.

    Isso implica garantir um equilíbrio difícil, mas necessário. De um lado, a frente precisa ser um bastião contra a ofensiva conservadora e as saídas regressivas para a crise. De outro, ser capaz de enfrentar as políticas antipopulares desse governo com igual decisão.”

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