Flávio Aguiar: No Brasil, o buraco é mais em cima

Getulio_Vargas01Como em 1954, há uma burguesia e uma classe média que se sente ameaçada pela ascensão social de setores dos “de baixo”: esta é a raiz dos panelaços.

Flávio Aguiar, via Carta Maior em 7/8/2015

Uma amiga minha, veterana militante do Partido Socialista no começo dos anos 50, me contou a seguinte história. No dia 24 de agosto de 1954 ela se preparava, na cidade onde vivia, no interior paulista, para sair à rua comemorando com outros militantes comunistas a queda de Vargas. Neste momento, ela e todos os outros foram surpreendidos pela notícia do suicídio e a leitura da Carta Testamento no Repórter Esso. Ficaram perplexos, atônitos, nada fizeram.

Enquanto isto, “as massas” saíam às ruas, notadamente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, depredando os jornais e as sedes dos partidos conservadores. Militantes do PC tentaram assumir o controle das manifestações, em parte para “dirigi-las”, em parte para evitar que suas sedes fossem igualmente empasteladas (na época o termo era este), como foram rádios e jornais conservadores. A foto com uma caminhonete do jornal O Globo virada deveria servir de exemplo para os aprendizes de golpe de hoje, mas certamente será em vão.

A perplexidade de minha amiga dura até hoje. Sinal de que ela ainda não entendeu o que então estava acontecendo.

Dá pra compreender. As esquerdas tinham um esquema na cabeça. E o que o primeiro período Vargas provocara fugia aos esquemas. Era mais fácil então sair pelo esquema moralista de se refugiar nas denúncias programadas pelo grupo liberal – com Lacerda, ex-comuna à frente – do que tentar o vislumbre do que acontecera nos últimos vinte e tantos anos, desde 1930.

A partir de 30 duas coisas tinham se consolidado: uma classe média ciente de seus direitos – que consideravam privilégios – e que se identificava com Lacerda, e uma classe trabalhadora urbana, recém ciente de seus direitos e de suas conquistas, e que se identificava com as propostas de Vargas, CLT, nacionalismo etc. O conflito social se expressou através dos manifestos do estamento militar – o famoso “dos Coronéis” à frente – e da pressão para que Getulio caísse.

O caso se resolveu à bala. Uma única, que postergou o golpe por dez anos, apesar das novas tentativas contra Juscelino e a de 1961.

Por detrás da crise política havia de fato uma crise social que não cabia nos manuais da esquerda de então. Supostamente, nos manuais comunistas, o Brasil vivia uma crise de um sistema feudal pré-capitalista que necessitava passar ao “estágio do capitalismo superior”. Nas teorias mais radicais, o conflito entre capital e trabalho estava adormecido pelas políticas populistas de Vargas. E o que acontecera de fato, a imersão de uma nova massa de trabalhadores no mundo capitalista urbano, vinda de seus direitos, passava desapercebido, ou era desconsiderado. A crise social ficava em segundo plano, a crise política aparecia no primeiro e a esquerda via tudo como uma crise moral – como queria a propaganda lacerdista.

Hoje acontece algo análogo. Há de fato uma crise política. Ressentidos se agrupam em torno de um candidato derrotado, mas inapetente pela busca de vencer a eleição seguinte, até por medo de seus correligionários. O governo, inepto em matéria de comunicação, comete erros atrás de erros, como o de ter seu chefe da Casa Civil fazendo um mea-culpa sem razão de ser diante de inimigos que só querem sangue de pescoço. A extrema-esquerda, com seus braços acadêmicos, se esmera em tentar fazer o Brasil retornara a seus esquemas teóricos insuficientes. Clama que os governos Lula, Dilma e FHC são braços do mesmo tronco. No meio disto um deputado em busca de uma corda de salvação para o poço em que vai afundar promete um processo de impeachment sem qualquer base legal, mas que satisfaz a seus anseios, ao do candidato derrotado que quer reverter o relógio da história, e ao ex-presidente meio avariado pela ameaça de ver seu sonhado reino submergir como um mero interregno entre a era Vargas e a era Lula. De quebra, vozes da mídia conservadora e esclerosada querem ganhar a medalha do mérito lacerdista, contribuindo para ou derrubando um governo de esquerda.

Mas ninguém presta atenção no pano de fundo que aduba esta crise política, que é de fato uma crise de natureza social. Aliás, este sim é um erro que o PT – genericamente falando – cometeu. Qual seja, o de imaginar que a paisagem social brasileira poderia mudar sem conflitos emergindo. Como em 54, há uma burguesia e uma classe média que se sente ameaçada pela ascensão social de setores dos “de baixo”, como dizia o saudoso Florestan Fernandes. A estrutura social não mudou, é certo, como quer a extrema-esquerda e seus porta-vozes acadêmicos, que querem enquadrar o Brasil pleno – ou pós-PT – nos seus moldes nos quais ele não cabe mais. Mas a composição social da paisagem mudou, com mais gente no convés do meio, menos no de baixo, e o da turma da primeira-classe se sentido ameaçada pelo acesso crescente dos “de baixo” às escadas até então de acesso privilegiado dos “de cima”: de aeroportos a shopping centers e universidades, nesta ordem de importância atribuída pelos usuários.

Esta é a raiz dos panelaços: gente que não se sentia ameaçada agora se sente perdida. Ou sente que vai perder os anéis e os dedos. Este é o caldo de cultura em que os golpistas de hoje navegam.

Vão se dar mal, ganhem ou percam. Se perderem, vão amargar mais uma derrota. Se ganharem, e conseguirem derrubar o atual governo, vão herdar uma massa falida – não a da esquerda ou a do governo – mas a própria. As direitas hoje não têm qualquer projeto para o país. Aliás, se há algo completamente estranho ao seu universo, é esta palavra – país. O que veem é um espólio de passado colonial à venda, sendo a questão mais importante a de definir quem vai recolher o produto da venda, ou a mais valia decorrente do processo. À extrema-esquerda interessa revogar – como em 54 – o “empecilho” de um governo que “adormece” as massas. E o Brasil que vá às traças. Melhor salvaguardar as teorias, para os acadêmicos, do que se pôr mãos a obras e pesquisar o novo para entender o que está se passando. É mais fácil desqualificar o que aconteceu – construir a saída de milhões de pessoas da miséria e da pobreza – do que tentar entender o que aconteceu, por que acontece e o que a partir daí pode acontecer.

Para as direitas só interessa morder o governo, desprezar a democracia e semear o caos.

Há um senão nisso tudo. As direitas de hoje são muito mais díspares do que as de 64 ou de 54. Vão resistir ao próprio caos em que navegam? Não vão. Nem mesmo se sabe se conseguirão seu objetivo imediato, tão frágil que ele é de qualquer ponto de vista que se olhe, do jurídico ao moral, e sem apoio na caserna militar. O que pode lhes sobrar é uma tremenda ressaca, que já houve no periodo entre abril e agora, agosto.

Agosto, mês de desgosto. Cuidado, pode ser para todos.

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2 Respostas to “Flávio Aguiar: No Brasil, o buraco é mais em cima”

  1. Roberto Rosa Medeiros Says:

    Viiiiiuu?

  2. Rita Says:

    Excelente.

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