Leandro Fortes: O Mais Médicos cansou de apanhar da mídia e achou uma saída

Mais_Medicos04_Oiapoque

Mais Médicos no Oiapoque, cuidando de índios.

Leandro Fortes, via DCM em 15/7/2015

À frente, há três anos, da Organização Pan-americana de Saúde (Opas) no Brasil, o dentista cubano Joaquin Molina não se surpreendeu quando, há dois anos, o Conselho Federal de Medicina encabeçou uma violenta reação ao programa Mais Médicos, do governo federal. “É um tipo de reação corporativista comum em todo o mundo”, explica, diplomático. “Não houve surpresa, é como uma demarcação de território, por causa da chegada de estrangeiros”.

A surpresa, diz Molina, foram as manifestações de racismo e preconceito contra os médicos cubanos. “De repente, passaram a dizer que eles não pareciam médicos, mas trabalhadores domésticos, porque eram negros, que por isso deveriam voltar para a África”, lembra.

Uma cena lamentável tornou-se um emblema dessa sanha levada a cabo por grupos de médicos em todo o País: em agosto de 2013, logo depois de chegar ao Brasil, o médico cubano Juan Delgado, de 49 anos, negro, foi vaiado e chamado de “escravo” por colegas de jaleco brasileiros, em Fortaleza, no Ceará.

A participação da Opas e, especificamente, de Joaquin Molina, na montagem e na operação do Mais Médicos foi fundamental para o sucesso do programa, lançado em 8 de julho de 2013 pelo governo federal para suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades brasileiras – rincões para onde médicos brasileiros, historicamente, sempre se recusaram a ir trabalhar.

Por isso mesmo, tanto a Opas quanto Molina foram os primeiros a serem acusados, junto com o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, do PT, de montarem um esquema para, na verdade, injetar dinheiro em Cuba.

Como era de se esperar, tanto a Opas, criada há 110 anos, dos quais, há mais de 50 no Brasil, quanto Molina, se tornaram alvo da mídia. A circunstância, no entanto, não parece alterar o permanente bom humor do cubano. “O problema é que, no Brasil, a mídia é muito apegada às más notícias”, avalia. “Não há manchetes positivas no noticiário, tudo vai pelo lado negativo”.

Por isso, de certa forma, pelo menos no que diz respeito ao Mais Médicos, a Opas desistiu de se comunicar com a população por meio da mídia tradicional e, agora, pretende usar mais os blogs e as redes sociais. “Nunca vi um projeto tão relevante, tão importante para um país como o Mais Médicos, mas o debate em torno dele ficou muito poluído pela política”, diz Joaquin Molina.

Assim, a instituição tem preferido despachar agentes internos de comunicação para muitas das zonas remotas onde atuam os profissionais do Mais Médicos para produzir vídeos e reportagens a serem veiculados na interface brasileira do portal da Opas (www.paho.org/bra) e, daí, passados adiante nas redes sociais.

Nada de coletivas nem viagens com jornalistas previamente pautados para falar mal do programa, não importa a realidade com a qual eles sejam confrontados.

Responsável pelo convênio que trouxe 11.429 mil médicos cubanos para o Brasil (o programa tem 14.182 mil profissionais), a Opas passou a ser tratada pela mídia como uma espécie de mercadora de escravos, a partir de uma tese abarcada pelo CFM e reverberada pela oposição, com a ajuda de sociopatas de plantão nas redes sociais.

A tese da escravidão cubana se baseia no fato de que, da bolsa de R$10 mil contratada pelo governo brasileiro, os cubanos têm direito a parte dela, R$3 mil. Os outros R$7 mil vão para o governo de Cuba, de acordo com o convênio firmado pela Opas, uma ação que só pode ser entendida a partir da realidade da ilha caribenha. O salário médio mensal de um médico em Cuba é de US$60,00 (R$180,00). No Brasil, portanto, ele ganha, hoje, cerca de US$1 mil – mais de 16 vezes do que ganharia em Cuba. Além disso, os municípios arcam com todas as despesas de transporte, moradia e alimentação dos profissionais cubanos trazidos pelo Mais Médicos.

Escapulir da mídia e investir na comunicação em rede ainda é uma experiência embrionária, e o exemplo da Opas pode servir de inspiração para outras entidades colocadas no pelourinho da imprensa por questões políticas, ideológicas ou, simplesmente, mercadológicas. Quando não pelos maus bofes da oligarquia midiática.

O sucesso do programa expôs a deformação da maioria dos médicos brasileiros, acostumados a números e prontuários de hospitais, mas pouco afeitos ao convívio humano, base da medicina de atenção básica, segredo do sucesso dos médicos cubanos em todo o mundo.

Mas, ao que parece, a lição foi aprendida. A próxima fase do Mais Médicos irá colocar outros 4.058 profissionais nos rincões e periferias das grandes cidades, mas nenhum deles será cubano.

São brasileiros que, apesar da mídia e dos detratores arregimentados por ela, conseguiram enxergar uma realidade que mudou a vida de 30 milhões de pessoas em 3.785 municípios atendidos. Destes, 400 nunca tinham tido médicos. Mesma situação dos 34 distritos indígenas, atualmente atendidos por 300 médicos cubanos.

Mas isso, você não vai ver na mídia.

● Leia também:
10 coisas sobre o Mais Médicos que a “grande mídia” não vai contar para você
“Mais Médicos deixou de ser uma política de governo e passou a ser uma política de Estado”
Ataques ao Mais Médicos ignoram efetividade da atenção primária
Sucesso: Em dois anos de existência, Programa Mais Médicos atende 63 milhões de pessoas
Mais Médicos: Mortalidade infantil é a menor em dez anos em bairro da periferia de São Paulo
Fora Dilma: Os médicos brasileiros e sua “ética”
Mais Médicos: 93% dos profissionais estão satisfeitos com o programa
Mais Médicos: Alheias ao embate ideológico, pequenas cidades comemoram vinda de médicos cubanos
Mais Médicos: Para 85% da população atendida a qualidade da assistência melhorou
Atualmente, para ser médico basta pagar R$6 mil por mês, diz Cremesp
“Médicos padrão Fifa”: Em São Paulo, mais da metade dos recém-formados em medicina é reprovada na prova do CRM
Para o Conselho de Medicina ler: Reino Unido contrata 3 mil médicos estrangeiros
Governo federal anuncia ampliação do Mais Médicos
Mais Médicos tem apenas 1,2% de desistências em seu primeiro ano de atendimento
Banditismo: Máfia de médicos desvia milhões de reais do SUS
Onde está a gritaria das associações de médicos contra a “máfia das próteses”?
Médicos brasileiros estão revoltados com estímulo ao parto normal?
Dilma Rousseff: Mais Médicos leva saúde a 46 milhões de pessoas
Mais Médicos supera meta e garante atendimento a mais de 51 milhões de brasileiros
Justiça nega liminar à desertora do Programa Mais Médicos
Boato coxinha: Tornozeleira de preso não será usada em médicos cubanos, mas sim em médicos de Minas
Quem vê cubanos como escravos nunca se indignou com escravos de verdade
Em Cuba, Dilma agradece por Mais Médicos e diz que bloqueio é injusto
Embaixada dos EUA ajudou cubanos a deixar o Mais Médicos
Mais Médicos: Evasão de brasileiros é 20 vezes maior que a de cubanos
CFM quer que cubanos “escravos” não atendam doentes e sirvam cafezinho
Você sabia que os EUA têm um programa para fazer médicos cubanos desertarem?
Caiu a máscara: Médica cubana montou farsa para encontrar namorado em Miami
Cubana usa Caiado para ir morar em Miami com o namorado
Máfia de branco cria site contra Mais Médicos
O salto no IDH das cidades e o Programa Mais Médicos
Em 2013, Mais Médicos atendeu 2.177 municípios em todas as unidades da federação
Porque o médico Juan Delgado é o homem do ano de 2013
Se ainda tinha algum, Veja perde o pudor e prega vaia contra cubanos
Dilma: Mais 23 milhões de brasileiros terão acesso ao Programa Mais Médicos
Marajás de jaleco: Por isso eles são contra o Mais Médicos
Por que os médicos cubanos são tão queridos?
Mais Médicos: Padilha peita presidente do Conselho Federal de Medicina
Quem não está acostumado, estranha: Pacientes se assustam com visita de médico cubano em casa
Primeiro médico cubano chegou em 1995 no interior de São Paulo
Coxinha preso por só bater ponto fazia campanha contra o Mais Médicos
Dilma sanciona Mais Médicos e entrega registro a médico cubano
Dilma pede desculpas em nosso nome, doutor Juan
Pesquisa CNT: 74% da população é favorável a vinda de médicos estrangeiros
Entenda por que os médicos cubanos não são escravos
Médicos cubanos recebem flores um dia após as agressões
Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco
Médicos cubanos: Quem são os responsáveis pelo corredor polonês em Fortaleza?
Quem são e o que pensam os médicos cubanos
Janio de Freitas: A reação aos médicos cubanos é doentia
Preconceito: Jornalista diz que médicas cubanas parecem “empregadas domésticas”
Vídeo: O dia que os médicos brasileiros envergonharam o País
Dez informações sobre a saúde e a medicina em Cuba
Médicos cubanos: Como se desmonta uma farsa de jaleco
Vinda de médicos cubanos reforça ódio ideológico ao PT
Mais de 70% dos médicos cubanos vão para o Norte e Nordeste
Mais Médicos: Alheias ao embate ideológico, pequenas cidades comemoram vinda de médicos cubanos
Paulo Moreira Leite: O extremismo dos doutores
Eliane Brum: Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico
Médico que diz que estrangeiros são enganação tem dois filhos “importados” de Cuba
Programa Mais Médicos, o Bolsa Família da saúde
Queremos médicos suecos!
Médicos brasileiros, o orgulho branco da nação
Recordar é viver: Quando FHC trouxe cubanos, Veja aplaudiu
Médicos cubanos: Avança a integração da América Latina
Coxinhas de branco: A vergonha da nação
Conheça o médico cearense que liderou os xingamentos contra os cubanos

Uma resposta to “Leandro Fortes: O Mais Médicos cansou de apanhar da mídia e achou uma saída”

  1. pintobasto Says:

    E nós comentamos: A culpa é da Dilma!
    Mais Médicos, um exemplo de estender bem estar social ao Povo!!!

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: