As máquinas de vender intolerância e preconceito

Jornazistas01

Para compreender onda de fundamentalismo e crimes de ódio, que se espalha por países como EUA e Brasil, é indispensável examinar papel de certos programas de tevê.

Sandro Ari Andrade de Miranda, via Outra Palavras em 30/6/2015

O crescimento dos crimes de ódio é um fenômeno global. Sustentada por preconceitos e por valores fundamentalistas, temos observado uma onda de violência desmedida em diversos lugares do planeta, exatamente no momento em que explodem os meios de comunicação, o que, em tese, deveria garantir maior acesso à informação.

O ataque a igrejas das comunidades negras nos Estados Unidos, o espancamento de casais homoafetivos nas metrópoles brasileiras ou, simplesmente, de pessoas que se acredita serem homoafetivos (como num caso recente onde pai e filho foram espancados por simples manifestação de carinho), o incêndio criminoso de mesquitas na França, o massacre diário de palestinos pelo governo de Israel, são apenas alguns exemplos de aberrações que vivenciamos todos os dias.

Pior do que isto, o simples ato de ser levantada opinião contrária à dos ofensores ou dos grandes meios de comunicação também acaba resultando em ameaças, perseguições e agressões. A internet, que deveria ser o caminho da disseminação das informações transformadoras, tem sido canal de propaganda da violência moral, da étnica, da sexual e da simbólica.

Se durante o Iluminismo a luta por liberdade de imprensa e de opinião resultou numa conquista sem precedentes para a humanidade, criando os alicerces para a derrubada de impérios absolutistas, no mundo contemporâneo, na maior parte das vezes, os meios de comunicação não oferecem suporte à democratização da sociedade. Infelizmente, não são raros os exemplos onde a mídia de massa funciona como elemento de fomento a ódios, preconceitos e violência desmedida, como no caso do nazismo, do fascismo, e da islamofobia instaurada depois de 11 de setembro.

Os meios de comunicação, especialmente os canais de televisão, cumprem um papel decisivo no fomento ao preconceito, especialmente através da construção de arquétipos, de personagens onde o oprimido é sempre objeto de piadas. Portanto, os grandes meios de comunicação, dominados por oligopólios e grupos conservadores, também são o ponto de partida para vários crimes de ódio.

Num evento pré-campanha eleitoral em 2014, a novela Meu Pedacinho de Chão da Rede Globo de televisão, direcionada a um público infanto-juvenil, com primoroso trabalho estético e com rara qualidade de direção e interpretação, mesmo com sua projeção atemporal, apresentou todos os personagens negros como empregados, criticou o direito de voto dado aos analfabetos, uma conquista democrática de 1988, sem questionar a origem do problema, transformando trabalhadores analfabetos em pessoas desinteressadas na aprendizagem e converteu o Coronel, vilão da história, em herói redimido, num gritante retrocesso em relação ao roteiro da novela original, que foi construída sobre o alicerce da crítica social.

O que era para ser uma obra de arte, nos momentos citados foi palco para a disseminação de preconceitos de forma subliminar, e reforço para a campanha de ódio contra formas de pensar democráticas que é exercitado no dia a dia pelos telejornais da emissora. Por sinal, as novelas da Rede Globo, com raras exceções, sempre foram instrumentos de construção de arquétipos destinados ao controle dos avanços sociais. Vejam o exemplo “do bom e do mau sem-terra” no péssimo roteiro da reprisada novela O Rei do Gado, uma “obra-prima do preconceito”.

E aqui nem falo de uma recente novela das 18 horas (Buggy Uggy) ambientada na década de setenta, que tinha um militar moralista como “pai de família exemplar”, e não fez qualquer referência aos crimes praticados durante a “ditadura verde oliva” exercitados na mesma época. Também nem falo da reiterada imposição da “ditadura da maternidade” pelas novelas como única forma concreta de realização feminina. Normalmente as personagens que não sonham em ser mães são apresentadas como vilãs ou satirizadas, em síntese: mais uma forma de preconceito propagandeado.

Nesses folhetins televisivos vemos a construção de “bons políticos” que pregam discursos de um moralismo lamentável, enquanto passam o tempo todo convivendo de forma pacífica com seus parceiros e “bons correligionários”: latifundiários, grandes empresários, jornalistas com condutas duvidosas e famílias tradicionais. Ou seja, “nas novelas globais, o bom político é sempre aquele que defende o ideário e os interesses da emissora, mesmo que estes estejam em conflitos com o avanço da democracia”.

No ano de 2011 os canais da Discovery divulgaram um interessante documentário sobre o “perfilhamento racial” nos Estados Unidos e a forma como a polícia, mesmo em Illinois, reduto eleitoral de Barak Obama, continua prendendo pessoas de forma indiscriminada e sem justificativa com base em elementos étnicos, muitos dos quais terminam na morte dos acusados, sempre negros, pela ação policial.

Em algumas situações observamos a autovitimização do opressor como instrumento de pregação do preconceito e de perpetuação do poder dominante, como nos discursos inflamados de brancos contra as políticas de quotas e de ação afirmativa, ou a patética conduta de alguns parlamentares e religiosos brasileiros defendendo o “orgulho hetero”, num claro ato de homofobia.

Aliás, enquanto o direito civil caminhou durante milhares de anos, desde a sua matriz romano-germânica, para reconhecer que não existe direito “de família”, mas “de famílias”, em suas diversas formas, observamos a lamentável tentativa de retrocesso, com a tramitação no Congresso Nacional brasileiro, do projeto de Lei do Estatuto da Família, mais um arremedo de fundamentalismo, sexismo e homofobia.

O uso de símbolos opressivos ainda é pouco enfrentado na sociedade brasileira, mesmo que a violência simbólica seja criminalizada na “Lei Maria da Penha”. Este tipo de violência ainda é visto por determinados setores da sociedade como não violência, como algo que afeta apenas a subjetividade das vítimas. Assim, a violência simbólica segue servindo como ponte para diversos tipos de preconceitos, ou como porta de passagem para a violência física sem nenhum tipo de controle.

Portanto, se formos buscar a fonte da disseminação inconsequente dos crimes de ódio, não poderemos deixar de questionar o papel dos meios de comunicação de massa, ou da ação de alguns ocupantes de assentos nos Parlamentos. Enquanto aceitarmos de forma acrítica que valores conservadores sejam impostos às nossas casas todos os dias pelo rádio, televisão ou internet, ou que o presidente da Câmara vá ao púlpito do Congresso para ofender minorias, ou negarmos a violência simbólica, ainda continuaremos convivendo com a chaga do preconceito.

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14 Respostas to “As máquinas de vender intolerância e preconceito”

  1. José Roberto Blefari Batista Says:

    Excelente o espectro temático aberto e trazido a discussão pelo texto, somente quanto a recair a crítica sobre as produções televisivas que propagandeiam discriminações diversas sobre a rede Globo acho que é feito comumente, por quem discorre acerca da mídia de maneira a se esquecer um tanto, em porções importantes de modo tal que deveriam ser valorizados na discussão o quão outras redes como o SBT, a Record e a Band servem ao stableshiment e ao sistema de injustiças históricas, estas emissoras são bastiões do ethos e da moral que sustentam a sociedade que evoluiu no tempo as custas das práticas que estudamos como mazelas nos livros em nossos colégios mas que perpetramos cotidianamente, em grande parte devido a reprodução pessoal do que é transmitido e imprimido como certo e normal por esses veículos de informação que são deixados de lado indevidamente por muitos de nós que fazemos a crítica a mídia em detrimento de um foco demasiado recaído sobre a rede globo, e não creio que isso se justifique no pensamente corrente de que a globo é o símbolo máximo do que coletivamente o conjunto dessas emissoras pratica, antes, acho que uma empresa midiática que tem a frente um pastor de uma das maiores igrejas/empresa da atualidade no Brasil, outra que tem a sua frente um mega capitalista que serviu as forças armada na época da ditadura militar e que tem relações empresariais que no mínimo devem levantar suspeitas com os setores bancário e cosmético, e outra emissora que leva em seu nome o termo que designa os responsáveis pelo extermínio étnico-cultural que assolou as populações nativas do Brasil ao longo dos séculos do estabelecimento do que está aqui hoje do qual a cultura de massa se vale e que tem como principais atrações em sua grade televisiva programas voltados para atender e propagandear os interesses dos setores agrícolas pecuários igualmente ligados a esse processo histórico criminoso que sobrevive contemporaneamente nos porões ilegais do sistema legal, nos exeços deste já desmedido sistema praticado pelas máfias terríveis em cujo corpo socialmente camuflado de tais se confundem a lei e o crime novo-escravagista, neo-colonialista, novo-despotismo de coação. Portanto, peço mais atenção.

  2. Mario De Oliveira Pinheiro Says:

    Pensamos que os “animadores” desses espetáculos de fancaria nada mais são do que uns m…sabujos que vocalizam preconceitos e visões do mundo dos seus patrões “gangsters” midiáticos.

  3. Mario De Oliveira Pinheiro Says:

    Pensamos que os medíocres que “animam” esses espetáculos de fancaria nada mais são do que uns sabujos de m…e nada mais fazem do que vocalizar o que agrada aos seus patrões.

  4. Nilton Silva Says:

    O canal da Tv Cultura é o melhor do Brasil, pelo seu conteúdo e por ter um jornal competente que traz dois convidados com opiniões próprias e que debatem as notícias

  5. Fawagner Soares Teixeira Says:

    Muito tendencioso! Não vi ele comentando sobre milhares de cristãos que são mortos dioturnamente no Oriente Médio, principalmente por parte do ISIS!

  6. Wlins Amaranto Says:

    Por uma imprensa livre, democracia, corruptos na cadeia , seja de que partido for etc etc ete

  7. zenaode batista ferreira Says:

    Está na hora da população tomar jeito e mandar esses imbecis plantarem batatas! O único jeiro é baixar a audiência desses safados!!!!

  8. Andre Araujo Says:

    Faz tempo que não leio nada tao equivocado e tendencioso. “Julguem do que você é xingue-os do que vocês são”

  9. Gilda Says:

    as pessoas a maioria, claro, precisa se blindar com o saber, a leitura de bons livros, aprender a receber as informações e filtrá-las para que absorva só as coisas boas. Precisam aprender a utilizar o bendito controle remoto da tv se viciado na globo

  10. Dilma Says:

    Comentários tendenciosos da obsoleta esquerda brasileira que ganha espaço graças a um povo que tem ressentimento social em suas entranhas, enquanto o povo não aprender a superar e passar adiante, além de não sair do lugar , alguns ainda andarão para trás

  11. luis carlos Says:

    ESSA TV GLOBO, UMA NEFASTA, UM CANCER UMA ABERRAÇÃO, ONDE 80% DOS BRASILEIROS APOIAM SUAS INVESTIDAS CONTRA AS FAMILIAS E AINDA CORROMPENDO MUITAS PESSOAS, QUE NA HORA DO VOTO ELES A CHAMAM DE DESINFORMADOS, E QUANDO ASSISTEM A ESSAS BAIXARIAS DE SUAS NOVELAS SÃO EXPECTADORES INTELIGENTES, OLHEM O DISPARATE DESSA MALFADADA TV.

  12. Maria da Conceição de Lima gomes Says:

    Irrepreensivel sua análise. Não como discordar de uma só linha. Os Faustos Silvas, os Datenas, e os Marcelos Rezendes são eexcrecencias da midia. Sem falar na valorização de oessoas que não trazem e não fizeram nada que lhes de tanta visibilidade.

  13. Solimar Faustino Says:

    Pois é a desgraça que dá ibope e esses urubus precisam disso para a sua própria sobrevivência.

  14. gustavo_horta Says:

    ESTES CARAS, ENTRE OUTROS, MAS ESTES TEM GRANDE AUDIÊNCIA, ANDAM ESPALHANDO O ÓDIO DE FORMA DIRETA E, MUITAS OUTRAS VEZES, DE FORMA SUBLIMINAR E/OU SUB-REPTÍCIA (desleal, ilícita, cretina, canalha, covarde).
    SE PLANTAR GRAMA NÃO TEM JEITO DE COLHER TRIGO. SE PLANTAR ÓDIO NÃO SE PODE COLHER HARMONIA.
    “NESTE SOLO, SE PLANTANDO, TUDO DÁ”, COMO JÁ FOI DITO. CONTUDO COLHE-SE O QUE SE PLANTA.

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