Leandro Fortes: “O discurso do ódio foi construído pela mídia e pela oposição que ela tenta colocar no poder.”

Leandro_Fortes03

O jornalista Leandro Fortes, que coordenou as redes sociais de Dilma Rousseff e do PT, fala das eleições de 2014. Para ele, uma das suas marcas foi o machismo contra a candidata.

Natalia Viana, via Agência Pública em 22/6/2015

Desde que ingressou na campanha digital de Dilma Rousseff (PT) como consultor da Agência Pepper Interativa, o jornalista Leandro Fortes – que passou por diversos jornais antes de se tornar colunista da revista CartaCapital durante oito anos – deixou claro que pretendia conhecer os meandros da comunicação digital para fundar a própria agência. Durante a campanha, coordenou as páginas oficiais da presidente e do PT nas redes sociais e hoje está à frente da sua própria empresa de comunicação digital, Cobra Criada. Sem papas na língua, ele aponta o uso de difamação, robôs e likes falsos na campanha de Aécio, mas nega que a sua equipe usasse dos mesmos artifícios. “Só se havia robôs controlados pela Secom, porque as redes de Dilma e do PT nunca tiveram.” Ele aponta o machismo como um dos principais elementos dos ataques à candidata nas redes. “O elemento novo foi que a direita brasileira saiu das catacumbas e, como não estava acostumada com a luz, perdeu todos os escrúpulos, os limites e, fundamentalmente, o respeito.”

Como você avalia a campanha de Dilma Rousseff na internet? Qual foi o peso da campanha online dentro da estratégia mais ampla de campanha?
Dilma não seria eleita se não fosse a campanha digital, assim como Aécio Neves não teria chegado aonde chegou não fosse o mesmo motivo. A comunicação em rede foi, na campanha de 2014, o componente protagonista do debate político, para o bem e para mal. No caso de Dilma, logo se percebeu que apenas a vantagem de tempo em tevê e rádio não era – como não foi – garantia de nada. Foi preciso criar um sistema de comunicação que incluía a transposição de todo material de campanha para o site de Dilma e, dali, para as redes sociais, sobretudo o Facebook da Dilma, principal canhão da campanha nas redes.

De maneira geral, qual foi o peso das campanhas e do debate online para os rumos da eleição? Quais foram os momentos decisivos?
Primeiro, o mais importante: graças ao espaço da internet, os candidatos, sobretudo Dilma, puderam abrir mão da intermediação exclusiva da mídia no debate político. Em 2010, foi quando essa percepção ficou muito clara, mas foi em 2014 que o uso franco desse espaço se deu. Até então, os debates de tevê consolidavam o sentimento público em relação às candidaturas, o que tornava o processo dependente dos interesses da mídia e do poder econômico. O debate online trouxe outros atores da comunicação para o centro da eleição e reequilibrou aquela balança que foi quebrada, em 1989, no debate entre Lula e Collor, editado de forma criminosa pela TV Globo para favorecer o candidato da família Marinho, do latifúndio e do grande capital. Hoje, com as redes sociais, aquela farsa desmoronaria em poucas horas.

A campanha de Dilma Rousseff foi alvo de uma série de boatos que se espalharam pelas redes. Sua avaliação é que houve um tom mais agressivo nesta campanha? Que elementos novos podem-se perceber na “campanha negativa” e da “campanha de guerrilha” em 2014?
O elemento novo foi que a direita brasileira saiu das catacumbas e, como não estava acostumada com a luz, perdeu todos os escrúpulos, os limites e, fundamentalmente, o respeito. Com a ajuda da mídia e sem pudor algum, montou-se uma estrutura de assassinato de reputação, difamação e calúnia em torno da candidatura de Aécio Neves para detonar Dilma e o PT nas redes. Para isso, usaram o esquema manjado de bater carteira e sair gritando “pega ladrão”. O grau de virulência contra Dilma também se explica por outro elemento, velho em si, mas que só agora também começou a aparecer sem disfarces nas eleições: o machismo. Duvido que essa gente que vive nas redes e, às vezes, chamando Dilma de “vagabunda” faria isso se o presidente fosse homem. Quando foi que essa classe média arauto da luta contra a corrupção se levantou para mandar FHC tomar no cu? Nunca.

Dilma Rousseff foi, por outro lado, acusada de utilizar boatos falsos, robôs e páginas pagas em sua campanha, entre diversas outras acusações semelhantes feitas por todos os partidos. Havia fundamento nisso?
Nunca houve robôs nas redes sociais de Dilma, pelo menos nas formais, que foram, em grande parte, montadas e coordenadas por mim. Isso foi uma ilação que apareceu num relatório do ex-ministro Thomas Traumann que circulou por dentro do governo até vazar para o Estadão. Thomas falou que “eles” [o PSDB] mantiveram os robôs ligados, e “nós” [o governo] desligamos os nossos… Só se havia robôs controlados pela Secom, porque as redes de Dilma e do PT nunca tiveram. Para se ter uma ideia, nos dezoito meses em que estive à frente do processo, como consultor da agência Pepper Interativa, o Facebook do PT saiu de 50.839 curtidas para 900 mil curtidas. E esse crescimento, de 1.770%, foi totalmente orgânico, ou seja, sem um único centavo aplicado em patrocínio de página e de posts. No Facebook da Dilma, esse fenômeno se repetiu, no mesmo período e da mesma forma: a fanpage saiu de 37.320 para a marca de 2,1 milhões de curtidas, um crescimento orgânico, sem robôs e sem dinheiro, de 5.627%. Toda essa informação é totalmente auditável. Mas vai dar uma olhada como funcionou o esquema de Aécio, uma enorme fachada de curtidas, mas por detrás era tudo oco, com redes de baixíssima interação, muito típico de quem enche o Facebook de patrocínios e bota a robozada para curtir.

Alguns dos sites e influenciadores que hoje comandam o discurso de direita nas redes (incluindo mobilização, apoio a causas que efetivamente retiram direitos da população etc.) já estavam presentes nas eleições. Era perceptível o aumento da mobilização de direita e do discurso do ódio?
O discurso do ódio nas redes sociais foi deliberadamente construído pela mídia e pela oposição que ela tenta, há quatro eleições, colocar no poder. Como não houve uma reação política e institucional rápida e vigorosa, essa raia-miúda pautada pela Veja e outros esgotos editoriais se empoderou e ganhou espaço no imaginário popular. O resultado é essa rotina de ódio e estupidez, dentro e fora da internet, que caminha para uma tragédia.

Na sua opinião, a temperatura do debate eleitoral influenciou no fenômeno que se seguiu meses depois nas redes, com um pico em março-abril de 2015, e cuja marca foi a proeminência do discurso de direita?
Não. O que influenciou isso foi a forma envergonhada como Dilma e o PT ganharam essa última eleição. Dilma venceu porque houve uma intensa mobilização da esquerda a seu favor, novamente pela blogosfera progressista e por ativistas digitais que compraram uma briga feia com a direita nas redes sociais. Mas, ganhas as eleições, a primeira entrevista da presidenta foi para a TV Globo, e não para a TV Brasil, uma emissora pública, de todos os brasileiros, que consome R$600 milhões por ano. Logo depois, veio a montagem de um ministério pífio, pressionado pelo “mercado” e com Kátia Abreu, o emblema máximo do latifúndio e de tudo de ruim que ele representa. Aí, a cachorrada sentiu o cheiro do medo e começou a babar nas redes.

O que o surpreendeu ao ir trabalhar na campanha? O que você acredita que teve um impacto negativo sobre o debate político nas redes? O que faria diferente?
Fui trabalhar na campanha depois de convidado por Danielle Fonteles, amiga de muitos anos, dona da Pepper Interativa, por sua vez, dona da conta do PT – não do governo, como muita gente confunde. Eu estava há oito anos na CartaCapital e achei interessante sair para fazer uma coisa diferente, aprender como funciona de fato a comunicação online e, é claro, ganhar mais. Mas também porque era para o PT. Sou eleitor do partido desde sempre, votei em Lula e Dilma em todas as eleições presidenciais, desde 1989, e tenho a percepção exata da importância que a chegada do PT ao poder central teve para o país. Dani me pediu para assumir as redes sociais do PT, que incluem o Facebook da Dilma, e prepará-las para as eleições de 2014. Foi o que fiz, juntamente com uma equipe montada para isso, e gostei demais de fazer. Remontamos as redes e transformamos o site do PT, que era obsoleto e incomunicável, numa agência de notícias. Fiquei surpreso, primeiro, comigo mesmo. Nunca pensei que gostaria de fazer outra coisa que não reportagem. Depois, com o baixo nível do debate nas redes, sem falar na ignorância e na má-fé. Por isso, fiz um esforço permanente para dar leveza à comunicação em rede sob minha responsabilidade, no que fui bem-sucedido. O impacto negativo sobre as redes veio, como sempre, do esqueminha mafioso comandado pela mídia, que produzia lixo automaticamente disseminado nas redes e compartilhado pelos suspeitos de sempre como arma de violência e chantagem eleitoral. Em um país com um grau ainda muito alto de analfabetismo político, o resultado está aí, como um chorume que escorre permanentemente para o mar: Revoltados Online, Marcha da Liberdade, vai pra Cuba, intervenção militar, ódio de classe, ódio de raça, ódio religioso.

Leia também:
Leandro Fortes: Mistério bolivariano foi revelado
Conservadores dos EUA financiam a nova direita latino-americana
“O pior analfabeto é o analfabeto político”: A atualidade de Bertold Brecht
Kim Kataguiri, o “defensor da democracia”, quer uma arma
Os “defensores da liberdade de expressão” atacam novamente
No Brasil, há um surto de hipocrisia
A ficha suja dos defensores do impeachment de Dilma
A “imparcialidade” do procurador do TCU que pediu a rejeição das contas de Dilma
Descolados e coxinhas 2.0 gourmetizam festas juninas
Líder do Revoltados Online quer “pegar Lula” na Bahia
Marcelo Rubens Paiva: O movimento coxinha micou
Analista alemã confirma: EUA manipulam “protestos” em todo mundo
E não é que o bandido que humilhou o haitiano era mesmo bandido?
Guilherme Boulos: A direita e a falácia do caviar
Marcha pela “paz”, alma de Herodes
Racismo: A cria do ovo da serpente
A mão que ajuda o facismo
Leandro Fortes: A balada de Kim Kataguiri
Bandidos da facção Revoltados Online atacam com deputados petistas na Câmara
Kim, você é contra o Estado, mas ainda bem que o Samu te socorreu, né?
Marcha dos coxinhas: O mico da “coluna Aécio”
A cultura do ódio na internet e fora dela
Na marcha dos coxinhas a Brasília, quem andam são os carros e o ônibus de apoio
Parecer entregue por Reale Jr. a Aécio descarta impeachment de Dilma
Vai vendo o nível: Musa do impeachment serve champanhe e caviar ao próprio cachorro
Quem inspira os jovens conservadores que protestam contra Dilma e a esquerda?
Pesquisa confirma: Quem foi às ruas não foi “o povo”, mas leitores reaças da Veja
Vitória (ES): Líder do “Vem Pra Rua” batia o ponto na Câmara e ia para casa
Apoiadores de Dilma emplacam hashtag #AceitaDilmaVez entre mais usadas do mundo
O fracasso dos protestos encerra, enfim, o terceiro turno
Protestos de 12 de abril: Esvaziamento de público e de pautas
Paneleiro contra a corrupção vende pontos da CNH
Lula deu uma surra no panelaço
Tremei, paneleiros. Lula está de volta às ruas!
A neodireita preconceituosa e as eleições
Nasce uma nova classe: A lumpemburguesia!
Vitória (ES): Líder do “Vem Pra Rua” batia o ponto na Câmara e ia para casa
É preciso “coragem” para chamar uma mulher de “vaca” da janela do prédio
O panelaço da barriga cheia e do ódio da elite branca
Paulo Moreira Leite: Panelaço virou panelinha
A revolta da varanda: Onde estavam os paneleiros antes?
Só pra quem tem estômago forte: Ecos das manifestações de 15 de março
Brasil surreal: O corrupto Agripino foi protestar por um Brasil melhor e sem corrupção
Por que a presidenta é execrada e os governadores são poupados?
O que está por trás da contagem de pessoas nos protestos?
Afinal, do que se trata? Simples: destituir Dilma e liquidar o PT.
Manifestações da middle class: Polifonia e ódio de classes dos “filhos da mídia”
“Nunca subestimem o ódio, o medo e a ignorância.”
Ricardo Melo: Dilma, a hora é agora
Os coxinhas, Paulo Freire e a ONU
Suiçalão: Lista do HSBC inclui artistas, cineastas e escritores do Brasil
Os reais motivos do inconformismo da elite reacionária
Propaganda: Reaça, a cerveja do coxinha homofóbico e reacionário
Suiçalão: Aécio lidera doações de donos de contas secretas do HSBC
Comportamento de coxinhas paulistanos é tema de análise sociológica
Manual de Ouro do Manifestante Idiota
Dicas para não pagar mico em tempo de manifestações
A revolução dos coxinhas e seus estranhos amigos
O futuro dos coxinhas do Leblon e dos Jardins
Neofascismo coxinha tenta virar ideologia
Mentira do Revoltados On-line: Viúva de Che Guevara recebe aposentadoria no Brasil há 10 anos
Golpe: Deputado denuncia o grupo fascista Revoltados Online
Revoltados Online: Hélio Bicudo se junta à extrema-direita
Saiba quem são os nazifascistas do grupo Revoltados Online

2 Respostas to “Leandro Fortes: “O discurso do ódio foi construído pela mídia e pela oposição que ela tenta colocar no poder.””

  1. gustavo_horta Says:

    Não há apenas um “discurso” de ódio. Há mesmo ódio contra alguma melhoria de vida para o povo, para a nação. As elites não aceitam, as elites ricas e burguesas não se conformam.

    Esculachados, esculhambados, arregaçados. Sempre os ânus são os nossos! Os caras não se cansam de nos “currar”!

    Os caras andam com tanta cara de pau que já estão tomando “óleo de peroba” em substituição ao uísque ali nas noites, nos bordéis e surubas da Avenida Paulista e em Higienópolis.

    Vale tudo agora nesta suruba; mas os ânus, só os nossos.

    E ainda há os idiotas idiotizados como eu, mas que sequer perceberam que são manipulados, enganados, iludidos. Uma m(a)rda!

    Cretinice, canalhice, covardia abundam.

  2. alex Says:

    Dividem entre tucanos e petistas para nós fazer de idiotas.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: