O que os Estados Unidos têm de ver com a Lava-Jato?

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Expansão do Aeroporto Internacional de Miami é uma das obras da Odebrecht em solo norte-americano.

André Araújo, via Jornal GGN em 23/6/2015

A cada dia, essa operação atropela conceitos e noções elementares de racionalidade na proteção do interesse nacional. Agora sabemos que, a pedido do Ministério Público Federal, autoridades norte-americanas ajudarão a força-tarefa e a polícia na investigação de elementos e fatos pretensamente ligados à Construtora Norberto Odebrecht que estão ou passaram pelos Estados Unidos.

A cooperação internacional anticrime já existe há bastante tempo. Existe a Interpol, há acordos de cooperação internacional, mas, na realidade, essas ações de cooperação se dão contra traficantes de drogas, de armas, de mulheres, sequestradores, assaltantes de bancos, pirataria contra navios e aviões. Não se dão contra empresas e contra executivos dessas empresas, porque seus países sede não vão submeter seus nacionais à investigação e jurisdição estrangeira de forma voluntária, a mãe geralmente não entrega o filho tão facilmente.

Não é normal um grande país pedir apoio estrangeiro para investigar uma grande empresa sua. A Alemanha vai pedir aos Estados Unidos para investigar a Mercedes-Benz? Ou a Volkswagen? Não importa o crime que essa grande corporação tenha praticado, o país onde ela tem sede, além de combater o crime, tem também interesse em proteger sua empresa, não vai entregá-la de bandeja a um governo estrangeiro que vai fazer a investigação visando seu interesse e aí, no caso, há grandes interesses.

A grande empresa é patrimônio do país, com ou sem crime. A Siemens fez os fornos dos campos de concentração? Fez sim, mas a Alemanha protege a Siemens e nunca irá pedir à Inglaterra para investigar a Siemens e persegui-la.

Seu interesse em combater um eventual crime não é maior que seu interesse em manter a Siemens como um patrimônio alemão, em Nuremberg, nenhum alemão acusou alemão. Há uma noção de pátria arraigada, é normal um Estado proteger seu nacional em dificuldades e não entregá-lo às feras estrangeiras.

É inacreditável que os procuradores não tenham essa noção elementar de interesse nacional. Jogar aos leões estrangeiros o maior grupo empresarial brasileiro sob pretexto de combater um eventual crime é algo espantoso. Pedir a um governo estrangeiro para investigar uma empresa brasileira, tornando-a vulnerável a processos no mundo inteiro, é algo inédito, para eles o crime é mais importante que a empresa quando na realidade a empresa é muito maior que o crime ainda a ser investigado, não há certeza de nada, tudo é baseado em delações mais que suspeitas. Ainda que o crime exista, não tem cabimento chamar investigadores de outro governo e um governo nada santo para investigar uma empresa que é um patrimônio brasileiro. Nossos podres devem ficar em casa, nós é que devemos resolvê-los.

Se a Odebrecht está sendo investigada no Brasil, isso é um problema do Brasil, não dos EUA. A Odebrecht é a 12ª empreiteira no ranking mundial e é grande empreiteira nos EUA, opera na Flórida há mais de 30 anos, fez importantes obras, de aeroportos à metrôs. Esse pedido de investigação do Ministério Público vai liquidar com a empresa nos EUA, depois vai liquidá-la em todo o mundo. Parece loucura, mas pode ser falta de noção.

As grandes empreiteiras norte-americanas vão adorar. Elas são a Bechtel (faturamento em 2014 US$28,3 bilhões), Fluor (US$16,9 bilhões) CB&T (US$10,3 bilhões), Kiewit (US$10,1 bilhões), a Odebrecht faturou em 2014 US$9,1 bilhões.

Interessa às empresas norte-americanas o mercado brasileiro e mais ainda interessa ocupar o espaço da Odebrecht no exterior, nos EUA e no Brasil.

Quando uma comitiva de procuradores da Lava-Jato, chefiadas pelo procurador-geral, foi aos EUA em fevereiro, publiquei aqui um post estranhando a viagem e suspeitando que iriam pedir ajuda do Departamento da Justiça contra a Petrobras, parecia absurdo para nós mas para eles parece que é normal.

Vejo que a coisa é ainda pior. Eles querem a ajuda norte-americana para perseguir empresas brasileiras no Brasil. Será que nos cursinhos de concursos não ensinam alguma coisa de economia global? Vão queimar espaços do Brasil duramente conquistados no mercado internacional de construção? Parece incrível, mas é exatamente o que estão fazendo. Pedir a um país estrangeiro para detonar empresas brasileiras. Ah, mas é para combater crimes.

Então vamos esperar o dia em que o governo norte-americano vai pedir ao governo brasileiro para investigar a General Motors aqui no Brasil. Jamais farão isso, sabe por quê? O governo norte-americano protege seus nacionais, pessoas e empresas, mesmo que criminosos, porque antes de criminosos eles são norte-americanos.

Uma das maiores obsessões da política externa norte-americana é impedir que seus nacionais sejam tocados, investigados ou processados por estrangeiros. Eles não fazem parte da Corte Internacional de Justiça porque não admitem que norte-americanos sejam julgados por não norte-americanos. Quando entram em qualquer país por acordo militares, como na Colômbia onde tem sete bases, o primeiro artigo de qualquer tratado é a garantia da imunidade processual de soldados norte-americanos naquele país onde está a base. Eles não aceitam isso de forma alguma. E nós vamos pedir para investigar a Odebrecht. Depois de investigar vão processar lá nos EUA. Nós estamos entregando a eles de bandeja uma grande empresa brasileira. Já entregamos a Petrobras, quem será que deu ao Departamento de Justiça as provas para a Petrobras ser processada por um governo estrangeiro? Tenho minhas suspeitas, mas guardo para mim.

Isso tudo é um pesadelo, não parece possível que brasileiros usem governos estrangeiros como escada dessa forma tão tosca, norte-americanos não são bonzinhos, já entram onde não são chamados agora imagine quando chamamos.

4 Respostas to “O que os Estados Unidos têm de ver com a Lava-Jato?”

  1. Eli Sant'Anna Says:

    Sem querer polemizar porque isso não contribui em nada, mas apenas contribuir com o debate. Em direito costuma-se denominar de “jus esperniandi” o choro dos desesperados que não encontram fundamento nas leis para amparar suas demandas. Aqui está acontecendo a mesma coisa. Não se trata de entregar ninguém para julgamento de autoridades estrangeiras, mas simplesmente um auxílio nas investigações de crimes que ultrapassam as fronteiras do país, para que as autoridades brasileiras julguem os culpados e isso atende sim ao interesse nacional. Discordar disso é apoiar essa roubalheira. Quanto aos equívocos do FHC precisam sim ser denunciados, mas a diferença é que enquanto uns isentos e desapaixonados querem a investigação de todos os culpados, os fanáticos só aprovam denúncias contra os adversários e se indignam quando a denúncia é contra militantes de seu partido. Esse país só vai tomar um rumo quando colocarmos o interesse do país, de nossos filhos e netos acima do interesse dos partidos e seus militantes. Nossa paixão maior deve ser destinada a nosso país e não a homens ou partidos.

  2. Moacir Says:

    Prova de que o Brasil não é uma verdadeira Nação. Se não os interesses nacionais estariam acima dos interesses privados de uma minoria ultra privilegiada.

  3. Rita Says:

    Perfeito!

  4. José Jésus Gomes de Araújo Says:

    É lembrar o felizmente fracassado acordo para entregar a base de Alcântara aos EUA.nos ominosos tempos de FHC Contêineres saídos da base ou para ela vindos não poderiam ser examinados por autoridades brasileiras; ocorrências cíveis ou penais, mesmo envolvendo brasileiros, seriam julgadas segundo as leis estadunidenses. E outros dispositivos humilhantes, criando um enclave estrangeiro no território pátrio. Se os signatários do contrato de entrega de uma base base ou qualquer porção de território fossem estadunidenses, pegariam prisão perpétua. Os EUA criam problemas diplomáticos, fazem guerras, para defender suas empresas. Lembro, também, a campanha da grande imprensa brasileira denunciando o Brasil na preparação da Copa do Mundo, assustando os turistas, o que levou a FIFA a cancelar metade das reservas em hotéis. Fico angustiado, pensando que ainda não nos tornamos uma nação.

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