Descolados e coxinhas 2.0 gourmetizam festas juninas

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O chamado “raio gourmetizador” atinge também as festas juninas, como mostra matéria da revista Veja SP em seu diligente trabalho semanal de elevar a moral da classe média. A complexa retórica dos “ingredientes” e das “harmonizações” agora constrói a mitologia do “rústico”, do “artesanal” e do “nativo” em quermesses e arraiais. Simples descolados e “coxinhas 2.0” (a versão autossustentável do coxinha tradicional) seriam os arautos de uma suposta simplicidade perdida pelo consumismo desenfreado de uma classe C sem educação. Parece que a Teoria da classe ociosa elaborada há cerca de 100 anos pelo economista Thorstein Veblen torna-se cada vez mais atual: a afetação sociolinguística da gourmetização como um “trabalho ocioso” que busca reconstituir uma distinção de classes ameaçada pela política econômica neodesenvolvimentista. Com a midiatização da tendência, hoje a gourmetização assumiria um duplo papel: gourmetizar não apenas a elite, mas também as massas como função disciplinar e ideológica.

Wilson Roberto Vieira Ferreira, via Revista Fórum em 16/6/2015

Chegamos às festas juninas onde nos quatro cantos do País se comemora os santos populares Santo Antônio, São Pedro e São João. Em seu diligente trabalho de elevação da moral de uma classe média que ainda vê nela alguma relevância, a edição da Veja SP de 10/6/2015 quis nos mostrar que as festas juninas já não são mais as mesmas. Daqui em diante, expressões como “arraial” e “quermesse” se confundirão com balada para jovens aspirantes a uma suposta elite descolada.

Esqueça o quentão, o “buraco quente” (pão francês recheado de carne ao molho) com carne louca, o pinhão e a barraquinha de pesca. Pense agora em uísque, “buraco quente” recheado com carne de costela de boi da raça angus (porque “harmoniza” melhor com cervejas artesanais), pista de dança com DJs e sanduíches feitos diretamente de food trucks com letreiros em handshop.

Esqueça os caipiras. Agora são hipsters. Chega de bilheterias onde trocava-se o dinheiro por fichas para disputar prêmios em barraquinhas. Agora são “ingressos antecipados” vendidos “em lotes”. Tudo isso para a festa junina parecer exclusiva e diferenciada. O melhor dos mundos: a simplicidade popular combinada com sofisticação hip!

Tudo indica que até o final dessa temporada de festas juninas provavelmente veremos algum arraial oferecendo pinhão orgânico, quentão de vinho Bordeaux e milho com sal do Himalaia…

O que vemos nas páginas impagáveis da Veja SP é mais um verdadeiro documento histórico que, no futuro, antropólogos e sociólogos certamente irão se debruçar para redigir suas teses de PhD. Eles descobrirão que esse fenômeno de afetação sócio-linguística se chamava jocosamente de “raio gourmetizador” e que surgiu dentro de um contexto político brasileiro de polarização e radicalizações morais e ideológicas.

“Menos é mais”
Como vimos em postagem anterior, a cidade de São Paulo deu até aqui a sua melhor contribuição sociocultural para o País: a simplicidade descolada, figura urbana que representa a verdadeira evolução do chamado “coxinha” (sobre isso clique aqui). Ele é agora o “coxinha 2.0”: figura autossustentável, preocupado com a agenda ecoplanetária e querendo parecer politicamente engajado no contexto dos protestos de rua. Aspira à simplicidade, porque os tempos estão difíceis com a crise planetária (ambiental) e nacional (corrupção do governo federal).

“Menos é mais” é seu mantra ao mesmo tempos simples (minimalista) e descolado (porque é um hip!). Menos Estado, menos corrupção, menos política (porque é corrupta) e uma sociedade mais justa.

É aqui que a porca torce o rabo. A ideia de sociedade justa que o simples descolado imagina não tem a ver com a igualdade. Aliás, a “igualdade” é imaginada como um conceito competitivo (com a igualdade das posições na largada de uma corrida), onde eles largam na frente por terem acesso ao “exclusivo” e “diferenciado”.

O simples descolado aspira à gourmetização geral da vida: da pipoca ao churrasco, do chocolate à agua mineral, tudo passa a ter uma versão gourmet exclusiva. O antigo carrinho de “dogão” prensado ou do x-tudo agora virou um food truck sofisticado. Até o carvão virou gourmet – não faz fumaça e é ecologicamente correto e ideais para “varandas gourmet”, onde as linguiças igualmente gourmet também “harmonizam-se” com cervejas compradas de alguma empresa que adquiriu um kit de fabricação artesanal de cerveja de alguma startup.

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Veblen: a Teoria da classe ociosa explica o “raio gourmetizador”?

Gourmetização é “trabalho ocioso”?
Cem anos depois parece que as ideias Teoria da classe ociosa do economista Thorstein Veblen (1857-1929) continuam bem atuais. Para Veblen, devido a sua natureza, o homem não se conformaria com o aumento geral da riqueza de uma comunidade que fosse o suficiente para realizar as necessidades de todos. Isso porque as necessidades individuais refletem sempre o desejo de sobrepujar os demais, a fim de ostentar sua honorabilidade.

Diferente da visão da teoria econômica de que o objetivo da produção é a subsistência (satisfação das necessidades físicas e espirituais), para Veblen a base da propriedade é a emulação – trabalho ocioso (tempo gasto em atividade não produtiva) investido em bens que representem distinção, honra, prestígio ou status. Ou em termos mais modernos: “exclusividade” e “diferenciação”.

Quando as classes médias se deram conta que a chamada “classe C” estava ao seu lado no cinema e aeroportos e ao ver videoclipes do funk ostentação estetizando a euforia desses novos consumistas por beber uísque importado e frequentar shopping centers, então procuraram o cinema vip com pipocas gourmetizadas com azeite trufado na cumbuca de cristal.

A política neodesenvolvimentista dos anos Lula democratizou o consumo, com a inclusão de novos consumidores capazes de bancar experiências antes impossíveis: compras a créditos de grifes conhecidas, passeios em shoppings ostentando sacolas de compras, cinemas multiplex, corte de carnes nobres e produtos e serviços premium.

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2 Respostas to “Descolados e coxinhas 2.0 gourmetizam festas juninas”

  1. Eduardo de Paula Barreto Says:

    .

    A PRECE DOS COXINHAS
    .
    Meu querido Papai do Céu
    Eu gostaria de Lhe agradecer
    Por esta existência doce mel
    Que me enche de prazer
    E se a minha vida é boa
    É claro que não é à toa
    Se sou feliz é porque mereço
    Porque sei que os Seus eleitos
    Nascem nos melhores leitos
    E dormem nos melhores berços.
    .
    Eu só queria aproveitar
    Para Lhe pedir um favor
    Daria pro Senhor amaldiçoar
    Os pobres que me causam pavor?
    É que eles melhoraram de vida
    E agora enchem as avenidas
    Com os seus carros populares
    Isso me deixa estressado
    Porque o meu carro importado
    Gosta de ocupar dois lugares.
    .
    Também sinto profunda aflição
    Quando vou viajar pra Europa
    Porque transformaram o avião
    Numa entidade filantrópica
    E vejo pobre por todo lado
    Usando perfumes baratos
    E roupas muito cafonas
    Se quiserem eles podem viajar
    Mas que seja pelo mar
    Naqueles botes de lona.
    .
    Hoje até nas faculdades
    Tem aquela gente horrenda
    Que estuda em pé de igualdade
    Mesmo sendo de baixa renda
    Mas isso é um absurdo
    Porque no breve futuro
    Não teremos mais serviçais
    Pra servirem as nossas mesas
    E isso reduzirá nossas diferenças
    E passaremos a ser todos iguais.
    .
    Então aproveito esta oração
    Para pedir a Sua santa ajuda
    Senhor dê o poder à oposição
    E mande pro inferno o Lula
    E assim poderemos voltar a ser
    Como éramos quando o PSDB
    Governava este nosso País
    E entoaremos o hino das elites:
    ‘Que o pobre nasça e morra triste
    E que o rico nasça e morra feliz’.
    .
    Eduardo de Paula Barreto

    .

  2. gustavo_horta Says:

    E a imbecilização continua na formação intensiva dos idiotas idiotizados que ainda não perceberam – alguns não aceitam de jeito nenhum – que são manipulados. Alguns são mesmo os manipuladores profissionais bem remunerados.

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