Operação Publicano: O mais novo escândalo tucano esquecido

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Beto quem? PSDoquê? É partido? Perguntavam-se editores dos jornalões enquanto o valente Mossoró Hoje dava capa aos 50 presos do governo Beto Richa.

João Feres Júnior, via Carta Maior em 12/6/2015

Deu no Mossoró Hoje, “Gaeco cumpre 50 mandados de prisão na Operação Publicano no PR”. Saiu no Jornal de Londrina, edição de 11 de junho, “Quatro ex-inspetores de fiscalização são presos; detidos ocuparam cargo na primeira gestão de Beto Richa”. Deu no Bonde News, portal de notícias do Paraná “Mais de 20 pessoas são presas em Londrina na nova fase da Operação Publicano”. Está na página do Ministério Público do Paraná notícia com o título: “Gaeco cumpre 68 mandados de prisão e 65 de busca e apreensão”, com data de 10 de junho.

Cheguei a essa listagem de meios de comunicação digitando a expressão “Operação Publicano” na linha de busca do Google. A notícia parece ter sido publicada somente em jornais e sites do Paraná, com raras exceções que merecem destaque. Esse texto pretende cumprir a difícil tarefa de examinar o agendamento da grande mídia, ou seja, a seleção que essas empresas fazem do que é noticiado e, consequentemente, do que não é. Como é difícil pesquisar o que não existe, quando o caso é de omissão, vamos ter que prosseguir pela comparação cuidadosa e a busca de pistas aqui e acolá.

O fato: o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná, cumpriu ordens de prisão de mais de meia centena de pessoas, algumas delas ligadas diretamente ao governador Beto Richa, do PSDB, suspeitas de participarem em esquema de propina milionário na Receita do Paraná. A investigação que gerou essas ordens de prisão ocorre há algum tempo e foi batizada de Operação Publicano.

Contudo, a busca do Google revela que esse fato foi noticiado quase que exclusivamente pela imprensa paranaense. A questão é: será que ele foi ignorado pela grande imprensa nacional, aquela que tem suas bases nos estados do Sudeste? Tomemos as edições do dia 11 de junho, imediatamente posterior à onda de prisões. Vamos levar em consideração aqui somente os “quality papers” também analisados pelo Manchetômetro: O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo.

O Estadão não contém qualquer menção em sua capa às prisões da Publicano. O jornal traz uma reportagem sobre o tema, mas ela aparece na página 11. A notícia é bem negativa para o governador, seu nome vem no título “Operação prende amigo e busca parente de Richa”. O corpo da matéria nomeia Richa e identifica seu partido, o PSDB, e descreve o ocorrido, focando nas ligações de alguns dos envolvidos com o político tucano. No final os jornalistas reproduzem a versão do governador sobre os fatos, estrutura “clássica” da linguagem jornalística, nem sempre respeitada nos dias que correm, de se ouvir as diferentes versões das partes envolvidas.

A capa da Folha de S.Paulo não é muito diferente da do Estadão. O fato é inteiramente ignorado. Também como seu par paulista, a Folha reserva uma matéria para o assunto nas profundezas de seu caderno de política, página 10. Richa agora é mencionado não no título, mas no subtítulo da notícia: seu primo, Luiz Abi Antoun, não foi localizado pela polícia. O nome do governador vem logo antes da identificação partidária: PSDB. Em seguida descrição do ocorrido, com foco nas conexões com o governador e coluna à direita da matéria com a versão de Richa. As semelhanças entre os dois jornais – falta de menção na capa, colocação da notícia na rabeira do caderno e a estrutura da matéria – são impressionantes.

O jornal O Globo segue seus pares paulistas no que toca a cobertura de capa: inteiramente silente em relação ao caso. Mas o periódico da família Marinho não se prende aos padrões adotados pelos outros e inova ao também ignorar solenemente o “escândalo” nas páginas internas da edição do dia 11 de junho. Na verdade, o nome de Richa não está ausente nessa edição. A página 6 do primeiro caderno traz seu nome no título de uma matéria: “Professores do PR encerram greve; Richa diz esperar a paz”. A matéria narra que os professores resolveram terminar a greve mesmo não conseguindo o aumento almejado. Cita os confrontos violentos que ocorreram entre grevistas e forças de segurança do estado, com saldo de 200 feridos e diz que, a O Globo, Richa admitiu que a crise provocou “arranhões” em sua imagem. O texto termina com uma citação do governador: “sou contra a violência… considero esse episódio encerrado”. Em suma, nada de operação Publicano nas páginas de O Globo. A única coisa que temos é um texto anunciando o encerramento de outra crise do governo Richa, que permite que ele tenha a última palavra.

Estendendo a análise para a internet, ou seja, além da página escrita, é importante notar que os vastos sites noticiosos dessas mesmas empresas de mídia adotam agendamento similar. A home do UOL, pesquisada às 8 horas do dia 11 de junho, não faz qualquer menção à operação do Gaeco. Sua chamada principal diz respeito à aprovação do mandato de cinco anos na Câmara e as duas manchetes seguintes focam em empresas envolvidas na Operação Lava-Jato, Sete Brasil e Camargo Corrêa.

O mesmo ocorre com o site G1, das Organizações Globo, pesquisado 20 minutos após. Nenhuma menção em meio a uma miríade de notícias. Mas, diferente do jornal O Globo, completamente silente acerca do caso, o G1 tem uma notícia sobre ele enterrada nas profundezas do site. A página  [2] é na verdade da RPC (Rede Paranaense de Comunicação), concessionária da Rede Globo no Paraná, e mais, é dedicada à região Norte e Nordeste do estado, onde se localiza Londrina, cidade foco do escândalo e berço político da família Richa. Ou seja, a lógica de contenção regional da notícia funciona mesmo quando ela aparece nas páginas da Globo.

O agendamento da mídia deve ser estudado não somente descobrindo o que os meios deixam de mostrar (O Globo) ou mostram de maneira tímida (Folha e Estadão), mas também analisando o que eles mostraram, ou seja, os assuntos que foram destaque nas suas capas e páginas.

Começando pelo Estadão. (1) A manchete principal relata a decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir biografias não autorizadas. Ao lado, na parte superior do jornal, (2) uma chamada para matéria sobre decisão do Congresso de aumentar o mandato de políticos para cinco anos e (3) outra anunciando “Inflação vai a 8,47% e cresce aposta na alta de juros”. Abaixo, do lado esquerdo temos (4 e 5) duas chamadas para matérias sobre o escândalo de corrupção da Fifa, uma em cima da outra, e do lado direito também duas chamadas, com letras maiores, com os seguintes títulos: (6) “CPI mira Lula e PT usa encontro para desagravo”, relatando a citação do Instituto Lula na Operação Lava-Jato e (7) “Pacote ignora ferrovia em construção na BA”, dizendo que o pacote de obras de infraestrutura anunciado por Dilma omitiu trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Por fim temos (8) uma chamada sobre a proposta de diminuição da maioridade penal restrita a crimes hediondos, do senador Aloysio Ferreira do PSDB, juntamente com várias chamadas pequenas listadas abaixo:

(9) TJ prevê déficit de pelo menos R$900 milhões
(10) Papa cria tribunal para julgar bispo por pedofilia
(11) José Serra – Democratizar a democracia
(12) PT tentará disfarçar a crise

Alguns assuntos são bem relevantes para os editores da capa do Estadão. Das 12 matérias, pelo menos 6 são negativas para o governo e a situação (3, 6, 7, 9, 11 e 12). Três notícias (4, 5 e 6) versam sobre corrupção, duas sobre a Fifa e uma sobre o PT. A quarta notícia, sobre o trem, alude à possibilidade de corrupção ou incompetência no governo. A Operação Publicano, apesar de ser caso de corrupção grande, não aparece, nem tampouco o governador e seu partido. Na verdade, o PSDB é sim citado, mas para mostrar o protagonismo do senador Aloysio Ferreira. O texto que vai abaixo da chamada (12) não poderia ser mais representativo da opção de agendamento do Estadão: “Carta de Salvador [do Congresso do PT] usará palavras mais para manter as aparências do que para salvar o País do buraco”. Isso é apresentado sem mediações, autoria ou qualquer referência à opinião de tal ou qual articulista. Trata-se de fato de chamada para o editorial, ou seja, opinião expressa do jornal.

A manchete de capa da Folha é praticamente idêntica à do Estadão, mas o resto da capa é diferente, com menos ênfase dada ao noticiário político e um conjunto de notícias sobre variedades que vão do futebol à ciência. As chamadas para matérias de política são dignas de nota, contudo. A matéria do aumento de mandato votado na Câmara está lá, mas sem tanto destaque. Também sem muito destaque, estão 3 chamadas seguidas, empilhadas: (1) Senado aprova lei que amplia e consolida os direitos do deficiente”, (2) Vitrine de Dilma, Pronatec terá 1/3 das vagas abertas em 2014 e (3) Itália autoriza a extradição de Pizzolato a partir de segunda. Assim, a despeito de a política não ser o principal assunto da capa, das quatro chamadas sobre o tema, duas são francamente negativas para a situação. Chama atenção que o jornal tenha decidido noticiar a extradição de Pizzolato, assunto frio, e tenha calado acerca do escândalo quentíssimo do tucano do Paraná. Aqueles que gostam de explicar o comportamento da grande mídia sempre pela lógica do interesse mercadológico certamente concluirão que uma gota de sangue a mais extraída do “mensalão” agrada mais aos leitores de Folha do que um novo escândalo do PSDB. Essa é uma maneira pobre de raciocinar, contudo.

Finalmente temos a capa de O Globo. Manchete garrafal sobre a decisão do STF. Abaixo um título também enorme relatando a decisão da Câmara sobre os mandatos. Há uma coluna à esquerda que corta toda a capa, de cima a baixo, com as seguintes chamadas:

(1) Inflação nas alturas: Moradia, comida e transporte mais caros
(2) Miriam Leitão: Com inflação tão alta, não há agenda positiva que se sustente
(3) Nordeste deve ter mais voos
(4) Exclusivo: Figurante de R$83 milhões
(5) Vitrine de Dilma: Pronatec perde 66% das vagas
(6) Saúde em crise no Rio: Pacientes fazem faxina em hospital
(7) Obama manda reforço contra EI

Tirando a notícia sobre Obama e aquela sobre a saúde no Rio, todas as outras são negativas para o governo. (1), (2) e (5) são explícitas já no título. O texto que acompanha (3) explica que a infraestrutura de acesso aos terminais aéreos preocupa. (4) faz alusões a possível falha, incompetência ou corrupção na estatal EPL.

Esse é, portanto, o sumário da cobertura com a qual os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e seus sites noticiosos, brindaram os leitores brasileiros nesse dia 11 de junho de 2015. É importante notar a semelhança no comportamento dos três meios, nas escolhas de agendamento. A operação Publicano vira o mais novo escândalo tucano a ser esquecido ou relegado às profundezas da cobertura. Enquanto isso esses meios de comunicação continuam diuturnamente enxovalhando o Governo Federal, a situação e o PT com notícias negativas.

O Estadão comete 6 matérias negativas em uma capa, O Globo, 5, e a Folha de S.Paulo, sempre mais comedida, manda 3 em seguida. O Globo consegue superar seus pares ao não somente ignorar solenemente as prisões da Publicano em toda sua edição, enquanto os outros reservam matérias nas últimas páginas do caderno, mas ao se referir a Richa somente para anunciar que a greve dos professores do Paraná acabou.

Beto quem? De onde? Partido? Que partido? Perguntavam-se os jornalistas e editores desses jornais, enquanto o Mossoró Hoje estampava matéria principal na home do seu site.

João Feres Júnior é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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Uma resposta to “Operação Publicano: O mais novo escândalo tucano esquecido”

  1. tony Says:

    A grande mídia interessa manter o PSDB limpinho,isso para tentar tirar o PT.A ordem é omitir a ladroeira do PSDB.Geraldo vem ai,limpinho,cheirosinho.

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