A transferência de renda e a economia

Programas_Sociais07_Bolsa_Familia

Rafael Patto e depoimento de Alexandre Contrucci

Quem pensa que os programas de transferência de renda do governo federal só são bons para o público diretamente beneficiado deveria ler esse relato.

Economia não é uma coisa estanque. O posto de trabalho que foi criado ou o salário mínimo que aumentou acima da inflação, não fazem diferença apenas para quem estava desempregado e não está mais ou para quem vive de salário.

Qualquer dinheiro que entra na economia é bom para todo mundo, porque a economia é uma coisa dinâmica. O dinheirinho do Bolsa Família que cai na conta da dona Maria pode ser bom também – como a gente vai ver no relato abaixo – para o profissional liberal, classe média, que não precisa de nenhum programa assistencial, mas acaba sendo indiretamente beneficiado quando existe mais dinheiro circulando e impulsionando a demanda popular por bens de consumo e prestações de serviços que antes ficavam restritos a um público muito menor.

Quem acha que o PT só faz pelos mais pobres é incapaz de enxergar o alcance e a capilaridade dos programas sociais que estão melhorando a vida de todos os brasileiros.

Quando o poder público coloca o dinheiro no topo da pirâmide – como sempre fez quando pagava dívida de cafeicultores, usineiros, banqueiros etc. –, o dinheiro fica só ali porque quem está no topo já vive com excedente. Mas quando o dinheiro é colocado lá em baixo, ele necessariamente irá circular por toda a pirâmide, porque os mais pobres não retêm dinheiro, e não retêm porque antes de poupar é preciso primeiro satisfazer necessidades. Se a pessoa precisa de uma geladeira nova, ou precisa pagar a mensalidade de um curso de especialização, ou precisa comprar um par de sapatos novos, ou um par de óculos, ou fazer um implante dentário, ela não irá guardar dinheiro.

Qualquer graninha a mais que essa pessoa tiver, ela vai empregar nessas necessidades. Portanto, ao colocar o dinheiro na mão dos mais pobres, o PT acabou colocando pra girar o dinheiro que antes só ficava parado nas mãos dos ricaços. Isso é que é construir um Brasil de todos! Só o PT fez isso, com Lula e Dilma. Por isso tem tanta dondoca e tanto dondoco por aí de birrinha com o PT. Mas eu não tô nem aí pra eles. Eu quero mais Dilma porque a emoção de um Alexandre Contrucci me toca muito mais do que o egoísmo dos desalmados.

***
Depoimento de Alexandre Contrucci
“Sou dentista, ex-professor de materiais dentários de uma instituição privada de ensino e atuo desde 1988 como profissional. Assisti de perto o quanto era difícil ter acesso a uma cadeira dentro de uma faculdade ou universidade.

Primeiro como acadêmico, pois eu e a imensa maioria de meus colegas fizemos nossos cursinhos para tentar, numa segunda ou até terceira tentativa, conquistar a merecida vaga e ‘garantir a realização de nossos sonhos’. Não por meritocracia, mas por pura sorte, nasci numa família que tinha condição de custear minha empreitada, e foi dispendiosa. Mensalidades, livros e apostilas, alimentação, roupa branca, materiais e instrumentais, condução, lazer para dirimir o estresse, odontoparty’s, eventos ‘da turma’, viagens de Inter-Odonto, seminários e congressos, e tudo que faz parte do entorno de uma intensa vida acadêmica.

Em meu último ano de estudos, na disciplina de clínica geral, fazia atendimento à população carente que se inscrevia na triagem de minha faculdade para receber atendimento desde o mais básico até o mais especializado. Gente que não tinha acesso a nenhum programa de saúde, muito menos tinha condição de pagar por tratamentos minimamente decentes em consultórios particulares. Negros, nordestinos, peões de obra, domésticas, garis [a mais baixa classe, segundo Boris Casoy], dentre tantos outros excluídos. Gente que compunha filas de espera de seis meses para conseguir uma vaguinha para cuidar de suas dores e das de seus filhos. Estética ainda não era merecedor.

Sabiam que iam ser atendidos por alunos em fase de formação, mas confiavam nos auspícios dos professores (aproximadamente meia dúzia, para cada 60 pacientes a cada duas horas). Era final da década de 1980.

Fui efetivado como professor em 1988, e desde aí comecei a me dedicar à formação de novos profissionais. Estava eu agora do outro lado do universo daqueles que também pretendiam realizar seus grandes sonhos, como futuros dentistas, e daqueles dos pequenos sonhos, os pacientes ‘desincluídos’, por assim dizer.

Já na vida de consultório, década de 1990, os colegas contemporâneos quase disputavam a tapa o paciente que tinha poder de compra para entregar suas bocas a nossos cuidados. Afinal já éramos profissionais e tínhamos muita energia e vontade para realizar nossos resultados e recuperar os investimentos de nossos provedores. Só que a gente se aborrecia porque a imensa maioria dos pacientes que entregaria suas bocas a algum recém-formado só podia pagar por extrações e pererecas, fora os primos, as empregadas de nossos parentes e os zeladores dos prédios deles.

Os ‘melhores’ não queriam saber da gente. Estética, porcelana, ortodontia, aumento de coroa clínica e implante ainda era cardápio só para nossos professores.

Hoje, recebo em meus consultórios e indico a um sem números de colegas, casos altamente especializados dessa mesma gente de antes, que continua querendo, desde sempre, o acesso à plena saúde, sorrisos dignos seus e de seus filhos.

Os mesmos negros, nordestinos, domésticas, garis, pedreiros, pintores de paredes dentre tantos, com a grande diferença que hoje sacam seus cartões e perguntam: ‘Doutor, parcela em 3 vezes para mim?’

Isto me emociona.

Me emociona mais ainda estar assistindo, pela segunda vez, uma colaboradora minha rumo à realização de seu sonho. Duas secretárias que não mais vão me chamar de patrão, mas sim de colega, graças a programas como o Prouni, como um dos exemplos, e sobretudo a suas forças de vontade.

Agora vem minha tristeza.

Tenho assistido meus contemporâneos e amigos, os quais ganham seus dinheiros com estas indicações e que não são poucas, negando suas próprias histórias e a história da maior revolução humanista que nosso país já assistiu. É deste inédito programa de inclusão que bebem meus colegas de curso, e que nos mantém confortáveis.

Não compreendo como se pode assumir posição anti. Seremos então os anti-gente, que não entendemos que passivos e ativos fazem parte do sorriso de qualquer ser humano?

Queremos elitizar nossas salas de espera?

Eu não”.

3 Respostas to “A transferência de renda e a economia”

  1. José Cunha Says:

    Pois é, Alexandre Contrucci, infelizmente, não é só na sua área que isso acontece. Ainda ontem eu comentava com um estudante que se formou em agronomia, graças aos Programas criados pelo governo do Presidente Lula, mas a única coisa que eles conseguem vê nos governos do PT é o que a mídia repassa nos seus telejornais.

  2. Dayse do N. Silva Says:

    Excelente o que retrata o artigo.
    Parabenizo Alexandre Contrucci!
    Visão social é um dos tipos de inteligência, reconhecida há muito pouco tempo atrás.
    Como você a possui, foi capaz de indignar-se com a”posição anti”.
    Ao contraŕio dos demais, que não a possui.

  3. Moacir Says:

    Aprender a pescar e ter acesso às águas em que estão os peixes.

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