Reforma política do Eduardo Cunha é um deboche com o povo brasileiro

Eduardo_Cunha_PMDB41_Reforma_Politica

José Antonio Moroni, via O Escrevinhador

Não é de hoje que a reforma política entra na pauta do Congresso e da sociedade. Essa agenda está presente, no mínimo, nos últimos 20 anos, porque a Constituinte de 1988 manteve os alicerces do sistema político herdados da ditadura, para não dizer sistema que imperou na nossa história.

No século 20, vivemos a maioria do tempo em ditaduras e, quando em democracia, um sistema formal e não real. Somos um país “democrático” com uma democracia sem povo, sem mecanismos eficazes de expressão da soberania popular, uma democracia submissa ao poder econômico, configurando um poder masculino, branco, proprietário, vitalício e hereditário.

Uma democracia com esse formato não tem lugar para os pobres, as mulheres, a população negra, os povos indígenas, os homoafetivos, lideranças da juventude, camponeses…

Neste ano, para não correr o risco da “sociedade fazer”, o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha resolveu fazer com as próprias mãos e da pior forma possível, tanto no método como no conteúdo. Simplesmente, desconheceu os debates e propostas acumulados pela sociedade nos últimos anos e, assumindo o papel de monarca absolutista, fez e desfez como quis.

A expressão disso, mas não só, foi a votação da constitucionalização do financiamento empresarial de campanha. Depois de perder em um dia, recolocou a pauta no outro. Ganhou a sua posição. Para que isso tenha ocorrido, precisou que partidos e parlamentares mudassem o voto. O que aconteceu na madrugada de Brasília para acontecer isso?

O pior é que os partidos e parlamentares não se sentiram na obrigação de explicar essa mudança, o que demonstra que somos uma democracia sem povo. O povo só é chamado para votar mesmo. No entanto, um dia essa realidade mudará, como diz a música “cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada”.

Depois de todos os escândalos que vieram à luz e que sempre existiram, os “representantes do povo” não querem só manter o atual sistema política, mas constitucionalizar o financiamento empresarial de campanha. Assim, fazem um deboche com o povo.

O que podemos esperar de um parlamento composto por uma maioria absoluta que tem muito dinheiro? Nas últimas duas eleições para deputado, as candidaturas eleitas (em torno de 9%) utilizaram mais da metade dos recursos totais de campanha registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em outras palavras: menos de 10% do total das candidaturas eleitas consumiram mais da metade de todos os recursos disponíveis. Esse dinheiro vem de onde? Os fatos estão aí, tiremos as nossas conclusões.

Na votação em relação à forma como elegemos “os nossos representantes”, perdeu o sistema que cristaliza o poder que temos: masculino, branco, proprietário, vitalício e hereditário. Menos mal que o distritão ou qualquer forma de distrital não tenha passado.

A opção da Câmara foi de deixar como está. O atual sistema não democratiza o processo eleitoral, concentrando poder nas oligarquias antigas ou novas. Temos um sistema de lista aberta, no qual os partidos apresentam suas candidaturas (não se sabe ao certo quais os critérios usados na escolha) e o/a eleitor/a vota em uma delas. Parece algo democrático, mas não é, por várias razões.

Uma delas é que as diversas candidaturas não têm as mesmas condições de disputa. Cada candidato faz seus acordos com os financiadores privados, que apresentam a conta depois. Como cada candidatura busca seus próprios recursos, a tendência é que esse financiamento reproduza os preconceitos e as relações de poder existentes na sociedade.

Aí está uma das explicações por que “se muda” para permanecer as coisas como sempre estiveram, deixando a política sem o seu poder de transformações e concedendo o poder de conservação das coisas como sempre foram.

Dessa forma, não há lugar para a representação dos sujeitos sociais e políticos que não estão no centro da engrenagem – mulheres, população negra, povos indígenas, juventude, pessoas homoafetivas –, a não ser que pertençam às famílias e grupos que sempre estiveram no poder, com as exceções de praxe.

Ainda está na pauta da Câmara a questão da cota para a representação feminina, afinal de contas, temos um parlamento com os menores índices de participação feminina, em torno de 10%. Aliás, ficamos atrás de países onde as mulheres são obrigadas a usar burca e são proibidas de dirigir sozinhas.

No entanto, as articulações estão soltas para não acontecer essa votação. Ficaria muito feio para a imagem do poder ter aquele monte de homens de ternos pretos votando contra a participação das mulheres. Afinal de contas, o poder também tem a sua ética e estética. Essa articulação é feita pela bancada BBB (boi, bala e bíblia), com o apoio da rede de tevê que tem os direitos autorais sobre a sigla.

Fora isso, no processo de votação, tivemos outras pérolas: partidos votando em teses que até o momento da votação eram radicalmente contrários, em troca de outra votação de seu interesse. Tudo feito como se fosse o caminho natural da política. Não, esse não é o caminho natural da política.

Política se faz com ética, com coerência, com defesa de princípios, com compromissos com os verdadeiros donos do poder, que é o povo e, principalmente, a “luz do dia” e não nas negociatas das madrugadas do poder. Mas como diz a música, um dia “cai, não fica nada”.

Por isso, militantes e ativistas das campanhas por uma verdadeira reforma política (como a da iniciativa popular da reforma democrática e eleições limpas e do plebiscito constituinte exclusiva e soberana do sistema político) continuaremos na luta.

Precisamos denunciar as manobras do poder, pois queremos o quanto antes o raiar do dia em que tudo cai e não fica nada. Só assim vamos construir uma verdadeira democracia, alicerçada na soberania popular e onde todas as formas de poder sejam exercidas tendo como objetivo a construção de uma sociedade de iguais.

Leia também:
Eduardo Cunha desengaveta projeto que legaliza o jogo do bicho
A reforma política de Eduardo Cunha
A dobradinha Gilmar Mendes-Eduardo Cunha
Paulo Moreira Leite: A síndrome de Pelé
Paulo Moreira Leite: Marco Aurélio Mello deu uma aula de Constituição e democracia
Fifa: Saiba por que o silêncio de Ronaldo e Pelé está ligado a J.Hawilla e aos EUA
Financiamento privado: Um caso claro de violação da Constituição
“Assisti, mas deletei”, diz deputado que viu vídeo pornô no plenário da Câmara
Shopping do Eduardo Cunha: Saiba o nome dos deputados que foram comprados para aprovar financiamento empresarial
Golpe: Eduardo Cunha consegue a aprovação do financiamento privado
Financiamento de campanha e distritão: Numa só noite, Eduardo Cunha teve duas derrotas
A trama de Eduardo Cunha para privatizar o SUS
Terceirizada, mulher de Eduardo Cunha ganhou ação contra Globo e foi contratada
Eduardo Cunha, o falsificador
A ficha de Eduardo Cunha, o homem que falta para “moralizar a política”
Cavalo não desce escada: PMDB não sai do governo
A rica biografia de Eduardo Cunha, o herói da oposição
Eduardo Cunha, o sabotador da República
Na lata do lixo da História, há um lugar especial para o PMDB atual
Entenda como funciona a oposição “extraoficial” de Eduardo Cunha
Presidência da Câmara: As diferenças entre Arlindo Chinaglia e Eduardo Cunha
Chinaglia avança após novo indício de cumplicidade entre Eduardo Cunha e doleiro
Cinismo não tem limite: Eduardo Cunha e Antônio Anastasia se queixam de vazamentos sem provas
Jornal Nacional atua como assessor de imprensa de Eduardo Cunha
Terceirizada, mulher de Eduardo Cunha ganhou ação contra Globo e foi contratada
Eduardo Cunha vendeu aos empresários o compromisso de aprovar a terceirização
Terceirização: Como ficará seu emprego se Eduardo Cunha cumprir a promessa que fez aos empresários
STF autoriza buscas em gabinete de Eduardo Cunha
Mesmo envolvido no escândalo da Petrobras, Cunha continuará o queridinho da mídia?
Depoimento de ex-diretor complica ainda mais a situação de Eduardo Cunha
Doleiro diz que Eduardo Cunha era “destinatário final” de propina
Eduardo Cunha e Renan Calheiros são a cara do Brasil
Eduardo Cunha, o senhor do caos
R$1 bilhão: Eduardo Cunha consegue a aprovação de shopping para deputados
Quem se atreverá a dar um “rolezinho” no shopping de Eduardo Cunha?
A democracia, o financiamento empresarial e a corrupção
Financiamento público de campanha: #PanelaçoGilmarDevolva
Operação Lava-Jato confirma que financiamento privado nas eleições faz mal à democracia
Miguel Rossetto: “Financiamento empresarial corrói a transparência dos partidos.”
“O financiamento privado de campanha nada mais é que um empréstimo, pago depois com dinheiro público.”
Gilmar Mendes justifica por que engavetou ação do financiamento de campanha
O engavetador tucano Gilmar Mendes acusa OAB de ser laranja do PT

2 Respostas to “Reforma política do Eduardo Cunha é um deboche com o povo brasileiro”

  1. gustavo_horta Says:

    Eduardo Cunha é apenas a ponta de lança, o bode expiatório. São uma quadrilha a dar goleadas sucessivas.
    A quadrilha ataca mais uma vez.
    “É… Assistimos meio que passivamente essa corja, esse ovo de serpente, crescendo sem parar… Estamos mesmo é fodidos!”
    A quadrilha ao redor do Cunha é muito unida!
    – Terceirização do trabalho, incluindo a atividade fim
    – Autorização de financiamento privado nas eleições
    – Redução da maioridade penal
    – Isenção de impostos para as igrejas, agremiações e arrecadadores para as religiões
    – Fim da reeleição nos cargos executivos
    – Fim do fator previdenciário
    – Extinção da lei contra o armamento individual
    – Eliminação da identificação de transgênicos nos alimentos comercializados
    – Mandato de cinco anos para todos os cargos
    – …

    COMO SE VÊ, PINTO NÃO TEM OMBRO!

  2. Marcos Pinto Basto Says:

    E a culpa maior de Eduardo Cunha, um escroque criminoso chegar ao ponto de avacalhar com toda a população fazendo aprovar a PL 4330 que trata da terceirização como se fosse algo bom para o trabalhador quando todos nós sabemos que se trata solerte roubalheira do trabalhador e da Receita Federal porque a maioria das empresas que praticam a terceirização são sonegadoras de impostos e de direitos sociais, como escrevia, a culpa maior é do PT que monitora a grande maioria dos sindicatos e já deveria ter fomentado uma greve geral, exigindo o fim desta tal PL 4330 e a destituição de Eduardo Cunha do cargo de deputado federal.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: