O péssimo exemplo de Neymar Jr.

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Helio Gurovitz, via Portal G1 em 5/6/2015

Entre uma e outra maracutaia no campo fértil da cartolagem futebolística, o jogador do Barcelona Neymar Jr. e seu pai entraram numa lista de possíveis alvos da Receita Federal brasileira. A principal suspeita está na transação de transferência de Neymar Jr., do Santos para o Barcelona. De acordo com a reportagem, há suspeitas de que um terço da transação tenha passado ao largo da Receita. Em vez de o equivalente a R$185 milhões, Neymar Jr., de acordo com uma investigação do Ministério Público da Espanha, custou ao Barça R$284 milhões. O escândalo já fez ceifou cabeças na Espanha e agora chega ao Brasil.

Para quem acompanha as idas e vindas de Neymar Jr., não se trata exatamente de uma surpresa. Sob o discurso de marqueteiros competentíssimos, suas atitudes há muito já eram condenáveis. Em 2011, na final do mundial de clubes da Fifa, ele entrou com a camisa do Santos para jogar contra o Barcelona. O resultado, para quem não se lembra, foi 4 a 0 para o Barça. Na ocasião, ele já havia acertado sua transferência para o clube espanhol e, sem o conhecimento dos dirigentes do Santos, a empresa de seu pai já embolsara € 10 milhões pela transação. Em suma: ele recebeu dinheiro de um clube contra o qual disputaria uma final. Independentemente do que a lei afirme a respeito ou dos escrúpulos morais que advogados bem pagos certamente haverão de arranjar para justificar o fato, trata-se de um escândalo. Qualquer ser humano que tenha uma noção básica de certo e errado sabe que, em tal situação, o mínimo a fazer era se declarar impedido de entrar em campo. Ainda assim, Neymar Jr. jogou, perdeu o jogo, foi para o Barça (onde protagonizou várias conquistas), jogou pelo Brasil na Copa, fracassou com a seleção – e até hoje é considerado um herói da torcida.

Este é o nosso herói? Alguém que recebe dinheiro do time contra o qual vai jogar?

Esportistas são exemplos para as crianças, para os adultos e para a nação. Importa não apenas o que fazem em campo, mas sobretudo como se comportam fora dele. Embora sejam tão humanos quanto qualquer um de nós, portanto sujeitos a erros e desvios de conduta, eles têm um dever adicional, além de vencer as competições: devem servir de inspiração.

Quando o escândalo de Neymar Jr. veio à tona, no início de 2014, escrevi na própria Época um editorial sobre o assunto. Nele, mencionava vários atletas que souberam cumprir esse papel inspirador, pelo exemplo moral. Nos Estados Unidos, o jogador de beisebol Joe DiMaggio, o boxeador Mohammed Ali ou o jogador de basquete Magic Johnson. No Brasil, entre tantos outros, o primeiro nome que vem à mente é o rei Pelé. Todos inspiram não apenas por vencer, mas pela forma como vencem. Nas palavras do repórter Gay Talese, no memorável perfil que escreveu de Joe DiMaggio: “Um imortal, os jornalistas esportivos o chamavam, e a outros como ele, raramente sugerindo que tais heróis possam estar inclinados aos males do comum dos mortais, farreando, bebendo, tramando. Sugerir isso destruiria o mito, desiludiria meninos, deixaria furiosos os donos dos times, para quem o beisebol é um negócio. Então, o herói do beisebol precisa sempre desempenhar seu papel, precisa preservar o mito, e ninguém faz isso melhor que DiMaggio”.

Neymar Jr. e outros futebolistas brasileiros, que parecem se achar tão espertos e não ver problema algum em enganar o torcedor ou a Receita Federal, têm muito a aprender com o exemplo de DiMaggio. O brasileiro médio, que considera Neymar um herói, também. Sonegar impostos ou entrar em campo tendo recebido dinheiro do adversário é uma vergonha muito pior que a derrota – seja o placar 4 a 0 ou 7 a 1.

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Receita monitora bens de Neymar no Brasil
Via Brasil 247 em 5/6/2015

O atacante do Barcelona Neymar e seus pais tiveram seus bens arrolados pelo Fisco no dia 13 de abril deste ano. Arrolamento é uma descrição dos bens de uma pessoa, por meio do qual a Receita Federal confere e monitora o patrimônio do contribuinte, como imóveis e carros, para o pagamento de uma dívida.

De acordo com a revista Época, tanto o pai de Neymar quanto o atacante e as empresas envolvidas na venda do jogador ao Barcelona podem sofrer nas próximas semanas denúncia criminal. A revista diz que a Receita iniciou uma representação fiscal para fins penais no dia 7 de abril.

Ainda segundo a publicação, “o procurador da República Thiago Nobre Lacerda, de Santos, suspeita de sonegação fiscal e falsidade ideológica no caso, entre possíveis outros crimes”.

Neymar e seu pai já são investigados pela Justiça da Espanha por causa da polêmica transação para o Barcelona há dois anos.

Na semana passada, o presidente do Santos, Modesto Roma Júnior, afirmou que o clube também entrou com um processo na Fifa contra Neymar, seu pai, a Neymar Sport e Marketing S/S Limitada (Neymar Sports) e o Barcelona, também por causa da transferência do jogador para o clube espanhol.

A diretoria santista quer receber a diferença do valor anunciado (€57 milhões), no dia da transação, 31 de março de 2013, com o valor confirmado pela justiça espanhola (€83 milhões). Os advogados do clube querem receber a diferença com juros. O Santos terá de repassar a porcentagem dessa diferença questionada a DIS.

Além disso, o clube paulista pretende receber uma indenização por danos causados e ressarcimento das despesas referentes a ação.

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