Cuba x Cosmos: Diplomacia ganhou por goleada

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O desembarque da equipe nova-iorquina na terra caribenha terminou com 37 anos de isolamento futebolístico.

Dario Pignotti, via Carta Maior em 4/6/2015

A goleada do Cosmos por 4 x 1 sobre a Seleção Cubana de futebol, com Pelé como espectador de luxo, foi uma nova vitória diplomática do presidente Raul Castro dentro da estratégia de aproximação com seu colega Barack Obama, anunciada em dezembro do ano passado.

“O futebol é a maior família do mundo, porque une as pessoas, e é uma alegria muito grande que Cuba tenha se recebido o futebol, assim como os Estados Unidos”, declarou Pelé.

Disse isso em Havana, na sua condição de maior jogador de todos os tempos e embaixador do clube nova-iorquino, onde brilhou jogando há quatro décadas, quando despertou o interesse dos norte-americanos no futebol.

O presidente da Associação Cubana de Futebol, René Pérez, deixou claro que “a partida foi um pretexto para continuar com a aproximação dos dois povos separados durante mais de 50 anos por esse capricho imperial chamado bloqueio”.

O vencedor do encontro realizado no estádio Pedro Marrero não foi “nem o Cosmos, nem a Seleção de Cuba, [quem venceu] foi o futebol, o esporte e a irmandade entre os povos”, afirmou o presidente Raul Castro.

Vale sempre destacar o contexto da festa esportiva, ocorrida pouco tempo depois de restabelecido o diálogo, mas sem que existam relações formais, já que ainda não reabriram as respectivas embaixadas.

O espetáculo celebrado na terça-feira, dia 2/6, foi um passo a mais na delicada tarefa de aproximar a Cuba socialista que com a potência capitalista que a submete a um bloqueio questionado por praticamente toda a comunidade internacional, exceto alguns estados belicistas e racistas, como Israel.

Desde o final do ano passado, ficou claro que, independente do que aconteça nos próximos anos, os governos de Raul Castro e Barack Obama deram passos firmes para reconstruir os vínculos – e que foram dados com um ritmo pouco vertiginoso, como fica demostrado nesta breve cronologia:

Em 17 de dezembro de 2014, Raul e Obama anunciaram simultaneamente o reinício das conversações. Em 21 de janeiro, se realizou em Havana a primeira reunião de alto nível entre as delegações de ambos os países. Em 12 de abril, os presidentes mantiveram um encontro no Panamá, durante a Cúpula das Américas. Finalmente, em maio, o Congresso dos Estados Unidos retirou Cuba da chamada “lista negra” de países que promovem o terrorismo.

Essa sucessão de acontecimentos, que para muitos pareciam impossíveis há um ano atrás, demonstraram a vitória da tese daqueles que consideravam o bloqueio uma medida extemporânea.

O próprio Obama admitiu que o castigo aos cubanos por terem a tido a petulância de defender sua soberania e adotar um regime socialista a 145 quilômetros da Flórida foi um erro.

A partir dessa perspectiva, o jogo desta semana ganha significado, com Cuba vestindo camisetas vermelhas e os nova-iorquinos do Cosmos, com vários latino-americanos em seu elenco, jogando de uniforme verde.

“Depois de muitos meses de trabalho, finalmente estamos aqui (em Cuba). O campo de jogo estava em condições muito melhores do que as que esperávamos” elogiou o técnico do Cosmos, o venezuelano Giovanni Savarese, que comanda em seu grupo estrelas como Raul González, ex-goleador do Real Madrid.

Antes do jogo, o veterano Raul, de 37 anos, se mostrou surpreso por ver “tanta gente, torcedores do Real Madrid, torcedores do Barcelona, mesmo debaixo de tanta chuva. Temos que oferecer um bom espetáculo para essas pessoas que vieram”.

Pelé e o papa
A simpatia do argentino Diego Maradona pela causa cubana é conhecida, assim como sua amizade com o comandante Fidel Castro, que, em janeiro o passado, enviou uma carta para desmentir a enésima campanha de contrainformação que dava ele como morto.

A aparição de Diego com um texto escrito pessoalmente por Fidel enterrou a conspiração sobre seu falecimento, e demostrou mais uma vez a repercussão global dos astros esportivos.

Entretanto, a imagem de Diego, que recebeu nesta quarta-feira (3/6) o apoio do mandatário venezuelano Nicolás Maduro para presidir a Fifa, pode resultar pouco eficaz para conquistar as mentes e corações da opinião pública norte-americana.

O norte-americano médio, pouco informado, tende a ser conservador, e cultiva um certo desprezo para com os latinos, devido ao doutrinamento permanente ao que é submetido por parte dos aparatos de hegemonia ideológica.

Se Maradona é um personagem que desperta a ojeriza dos meios de comunicação e parte do público ianque, Pelé é contrário disso: sua imagem afável e despolitizada gera mais apoio.

Devido aos seus vínculos com o establishment, Pelé, que aproveitou a viagem para Havana para declarar seu respaldo à reeleição de Joseph Blatter na Fifa – horas antes do próprio Blatter renunciar surpreendentemente ao cargo –, é um personagem cujos elogios à ilha socialista não são nem um pouco suspeitos.

Pelo mesmo motivo, o astro brasileiro é alguém mais convincente para um auditório estadunidense que ainda alimenta um certo rancor anticomunista, sem contar a popularidade e admiração que Pelé conquistou nos Estados Unidos com a sua inesquecível passagem pelo Cosmos nos anos 70.

Não há dúvidas de que o jogo entre a equipe nova-iorquina e o combinado de Cuba, realizado nesta terça em Havana foi parte de um discurso pensado para o povo norte-americano.

Mais precisamente, foi uma mensagem dirigida à populosa comunidade latina dos Estados Unidos, e em primeiro lugar a de cubanos residentes na Flórida, na Costa Leste.

Ao mesmo tempo, o evento repercutiu nos meios latinos da Costa Oeste, em estados como Califórnia, Texas, Novo México e Arizona, onde a coletividade latina é de ascendência mexicana, pessoas muito católicas e fanáticas por futebol.

Papa
A visita de Pelé à ilha aconteceu três meses antes de confirmada a viagem do papa Francisco, que chegará no dia 19 de setembro em Cuba, para logo depois partir aos Estados Unidos.

Espera-se que centenas de milhares de católicos participem das missas que celebrará nos dois países.

Certamente, a viagem do Papa, por motivos religiosos e políticos, estará marcada pela aproximação entre Washington e Havana, a qual teve nele um dos grandes colaboradores, com seus bons ofícios e a mui sigilosa diplomacia vaticana.

Pertencente à ordem dos jesuítas, o papa Jorge Bergoglio se reuniu no mês passado com o presidente Raul, que estava acompanhado pelo chanceler Bruno Parrilla.

Raul, tal qual o seu irmão Fidel, estudou numa escola jesuíta e agradeceu a ajuda do primeiro papa latino-americano na causa, e até prometeu, em tom bem-humorado, que voltaria à Igreja.

Fanático por futebol e pelo clube argentino San Lorenzo, além de admirador de Maradona – que também passou pelo Vaticano este ano – Bergoglio reiterou a importância da nova relação entre a primeira potência mundial e o país caribenho.

Para Cuba, a chegada de Francisco foi fator duplamente positivo.

Por um lado, sua posição influiu sobre alguns líderes ocidentais, para revisar sua obsoleta hostilidade para com Cuba.

Nessa mesma linha de diplomacia positiva estimulada pelo Papa, no mês passado, o presidente francês François Hollande aterrissou em Cuba, onde se reuniu com Raul e Fidel e reiterou sua rejeição ao bloqueio.

Por outra parte, o Papa Francisco, artífice do diálogo entre Washington e Havana, começou a desmontar o anticomunismo obcecado que dominou o Vaticano durante os reinados do polaco João Paulo 2º e o alemão Bento 16.

Se os diálogos entre Raul Castro e Barack Obama encerram o capítulo da guerra fria na América, a chegada de Bergoglio representou algo similar dentro da Igreja, onde ainda persiste um foco reacionário que se opõe às suas predicações reformistas.

Graças a renovação promovida por Francisco, reforçada com o encontro do Papa com o padre peruano Gustavo Gutiérrez, referente da Teologia da Libertação, se estabeleceram as bases para recompor o diálogo entre marxistas e cristãos, testemunhado no livro de Frei Betto Fidel e a religião.

Cosmos depois da Guerra Fria
O clube Cosmos surgiu como um fenômeno inédito no futebol norte-americano (“soccer” é o termo usando nesse país, para se diferenciar do outro esporte do país popularmente conhecido como “football”), na segunda metade dos Anos 70, quando contrataram Pelé e o capitão da Seleção Brasileira de 1970, o lateral Carlos Alberto.

Para popularizar o “soccer” entre o grande público norte-americano, o Cosmos também trouxe o “kaiser” alemão Franz Beckenbauer, o italiano Chinaglia e o holandês Neeskens.

Além de promover um negócio milionário, os executivos do Cosmos eram conscientes de que estavam influindo no tabuleiro da Guerra Fria, onde Washington, em sua guerra de contenção do comunismo, buscava uma maior aproximação com a cultura popular latino-americana.

Isso explica porque o ex-secretário de Estado Henry Kissinger participou da contratação de Pelé. O mesmo Kissinger que apoiou fortemente o golpe de Estado no Chile em 1973, entre outros sofridos pela América Latina naqueles anos, e que, segundo documentos secretos conhecidos há poucos meses, sugeriu a invasão de Cuba, em 1976.

Kissinger, patrocinador da Operação Condor, queria, através de Pelé e do Cosmos, suavizar a imagem estadunidense na época em que o país apoiava ditadores no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, países onde o futebol é uma paixão nacional, onde os Estados Unidos tinham infiltrado agentes de inteligência que trabalhavam para esses regimes.

Como parte dessa diplomacia do futebol, Kissinger foi à Argentina durante a Copa do Mundo de 1978, a convite do próprio ditador Jorge Videla. O torneio foi vencido pelo país anfitrião, graças à pressão do general sobre o selecionado peruano, antes da vergonhosa partida em que a Argentina venceu a equipe inca por 6 x 1 e conseguiu a enorme e inesperada diferença de gols que necessitava para se classificar à final.

Agora, com o jogo realizado no Estádio Marrero (que tem esse nome em homenagem a um dos combatentes mortos no ataque ao Quartel de Moncada, em 1953, um importante episódio da pré-Revolução Cubana), o Cosmos volta a cumprir um papel na diplomacia informal.

O desembarque da equipe nova-iorquina na terra caribenha terminou com 37 anos de isolamento futebolístico. A última vez que uma equipe estadunidense jogou contra a Seleção Nacional de Cuba foi em 1978, quando o Chicago Sting se visitou Havana.

O passo seguinte nesse reencontro futebolístico entre ianques e cubanos será em julho, durante a Copa Ouro, que se disputará nos Estados Unidos, com a participação das seleções de América Central, Caribe e América do Norte.

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