A legalidade ou um jogo de truco?

Sergio_Moro10_Vaccari

“Fugitiva” no Panamá, a Marice de Moro não era Marice: era Giselda.

O herói substituto de Joaquim Barbosa na narrativa conservadora, tão confiante na cumplicidade da mídia, não hesitava em ver o que as imagens da câmera negavam.

Saul Leblon, via Carta Maior em 23/4/2015

Conta-se que em uma revista semanal de conhecida isenção jornalística, repórteres não raro recebem um título pronto e a recomendação expressa: providenciar um texto “investigativo” que o justifique.

O juiz Sérgio Moro e a equilibrada equipe responsável pela Operação Lava-Jato poderiam ter feito estágio na referida redação, com a qual, aliás, mantém laços de simpatia recíproca e de valores compartilhados.

Mesmo que não o tenham feito há sinais preocupantes de comungarem um singular método Paraná de investigação nessa sua cruzada como paladinos contra a corrupção, assim incensados com direito a pôster épico na primeira página da Folha de São Paulo.

Armados de uma sentença – como os títulos prévios da mencionada revista –, eles se puseram a campo para compor um lego jurídico em que as peças servem na medida em que se encaixam nos espaços reservados.

Tudo recortado pelas lâminas de um primarismo, cujo fio da meada se resume a um juízo de valor: a corrupção no Brasil nasceu – e morrerá, se depender da monarquia de Curitiba – junto com o PT.

A última e mais desconcertante evidencia de que a Nação está ao sabor desse jogo de cartas marcadas em que a investigação cumpre papel acessório à sentença, foi a prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, de sua esposa, Giselda Rousie de Lima, e da cunhada, Marice Corrêa de Lima.

Quatro dias após a prisão da cunhada de Vacari, em 17/4 – antes declarada foragida e assim denegrida pelo jornalismo isento durante as 48 horas em que se encontrava em um Congresso sindical no Panamá, o juiz Sérgio Moro pediu a prorrogação de sua detenção.

Justificando-a, em pomposa declaração à mídia, praticamente sentenciou a investigada.

“Embora Marice não tenha sido identificada nominalmente, os vídeos apresentados não deixam qualquer margem para a dúvida de que a pessoa em questão é Marice Correa de Lima”, afirmou o juiz Sérgio Moro, no feriado da última terça-feira (Globo.com, 21/4/2015 12h22)

O responsável pela Lava-Jato respaldou sua esférica assertiva no exame de imagens das câmeras de segurança de um banco, a partir das quais o “método Paraná” de investigações corroborou a manchete preconcebida.

Aquela nacionalmente martelada nas horas seguintes, que atribuía à Marice Corrêa de Lima a responsabilidade por depósitos considerados suspeitos na conta da irmã, Giselda (esposa do tesoureiro do PT).

Pronto. Mais uma porta da corrupção petista arrombada pelo “método Paraná”.

No pedido de prorrogação, Moro alegou que a medida “oportunizará” novo depoimento de Marice “na qual ela poderá esclarecer ou não sua participação nos depósitos em espécie realizados na conta da esposa de João Vaccari Neto e as circunstâncias que envolveram esses fatos”.

O “método Paraná” de investigações sustentava que entre 2008 e 2014, a mulher de Vaccari, Giselda Rousie de Lima recebeu cerca de R$323 mil em depósitos da ordem de R$10 mil mensais.

As quantias em alguns casos teriam sido depositadas em caixas eletrônicos.

O vídeo alardeado por Moro, de março de 2015, fecharia a peça condenatória contra Marice. Seria ela a mulher que aparece em uma agência bancária, efetuando um depósito.

“Assim, tudo indica que Giselda recebe uma espécie de “mesada” de fonte ilícita paga pela investigada Marice [em depósitos] feitos até março de 2015”, diziam os procuradores, segundo o portal Globo.com.

Em depoimento à Polícia Federal, Marice, em vão, afirmou não ter feito nenhum depósito para Giselda em março de 2015.

Sim, em vão, porque o “método Paraná” já tinha seu labirinto decifrado.

“Nesse contexto, a prisão preventiva de Marice é imprescindível para a garantia da ordem pública e econômica, pois está provado que há risco concreto de reiteração delitiva”, defendia o MPF, que ainda pedia a apuração da viagem dela ao Panamá, “pois levanta suspeitas da manutenção de depósitos ocultos no exterior, como por diversas vezes se verificou com outros investigados nesta operação”.

O juiz Sérgio Moro foi além.

O herói substituto de Joaquim Barbosa na narrativa conservadora avaliou como “perturbadora a extensão temporal aparente da prática criminosa” por parte de Marice Corrêa de Lima.

No mesmo despacho em que determinou a prorrogação da prisão temporária, o magistrado menciona que há registros de envolvimento de Marice no escândalo do “mensalão”.

Vai por aí o “método Paraná”.

Atire primeiro.

Pergunte depois.

O constrangimento do ambiente jurídico é que as fotos e vídeos sobre os quais se baseou o assertivo e pomposo ajuizamento de Moro neste caso desmentem o preconcebido de forma clara, serena e ostensiva.

Será apenas um ponto fora da curva na Lava-Jato? Ou a síntese de um ambiente condenatório embalado pela cumplicidade irrestrita daqueles que em vez de arguir incensam o flerte com o arbítrio?

Agora se sabe, da boca do próprio juiz Moro, que Marice não era a mulher dos vídeos que, há dois dias, ele dizia “não deixarem qualquer margem para a dúvida de que a pessoa em questão é Marice Correa de Lima” (Globo.com, 21/4)

A mídia tolamente hipnotizada ou deliberadamente cínica, em boa parte cúmplice do “método Paraná” de sentenciar antes, para investigar depois, olhava para as fotos dos vídeos publicadas em suas próprias página como os bobos da corte da fábula do Rei Nu: elogiava a fina seda do monarca de Curitiba.

E Moro estava despudoramente nu de razão neste caso.

Mas de tal forma confiante no silencio obsequioso da mídia aliada que não hesitava em expor ao ridículo suas palavras, lado a lado das fotos que as contradiziam.

E a mídia nada disse diante do exclamativo estupro das evidências.

Nada disseram os colunistas da indignação seletiva nas longas, constrangedoras últimas 48 horas em que as fotos circularam como a criança da fábula que gritava “o rei está nu, o rei está nu”.

Foi preciso o próprio rei admiti-lo para jornalismo genuflexo, de novo, endossa-lo.

As irmãs Giselda (esposa de Vaccari) e Marice (cunhada) são parecidas.

Mas não são iguais.

Da análise pedestre, a olho nu, sem a ajuda dos recursos digitais hoje disponíveis, avultava a diferença entre a cunhada condenada pelo “método Paraná” e a imagem capturada pela PF das câmeras do caixa automático.

Quem fazia o depósito a Giselda nos vídeos era a própria Giselda.

Só Moro não via – ou não podia ver sem ter que descartar mais uma peça teimosa do lego com o qual quer levar o PT ao inferno, a Petrobras ao fundo do pré-sal, as empreiteiras nacionais a falência e o Brasil ao buraco sem fim. Ou pelo menos tentá-lo até 2018, quando então, os bobos da corte que hoje elogiam a seda fina de seu traje invisível vestiriam outro monarca para catapultá-lo ao trono do Brasil.

Erros acontecem.

Evitá-los é o dever de todos.

Sobretudo, porém, é o dever de um juiz não ceder à sulforosa sofreguidão dos que antepõem aos fatos – e às fotos – a sua opção política, temerariamente envelopada em força de lei, como se a investigação legal fosse um jogo de truco cuja principal matéria prima é o blefe contra adversários políticos marcados para morrer.

O caso Marice/Giselda pode não ser um ponto fora da curva na circularidade vertiginosa em que evolui a Lava-Jato.

Não se faça juízo prévio dos fatos em investigação neste episódio ou em qualquer outro em questão.

Não só da Lava-Jato, mas também da extensão imponderável dos ilícitos no Metrô de São Paulo ou no escândalo de Furnas em que, segundo depoimento público do doleiro Alberto Youssef – esquecido pela monarquia de Curitiba – Aécio Neves e a irmã desfrutaram de um comissionamento de longos cinco anos a US$100 mil por mês.

Dê-se a todos a isonômica e devida presunção da inocência.

Antes que condenações prévias, a exemplo do caso caricatural das irmãs Marice/Giselda, subordinem o ambiente jurídico brasileiro ao arbítrio de um rei nu e ao elogio da seda fina que o veste por parte dos bobos da corte.

Uma resposta to “A legalidade ou um jogo de truco?”

  1. pintobasto Says:

    Sérgio Moro esteve nos EUA fazendo um curso ou especialização que desconhecemos o teor e regressado ao Brasil foi dirigir a operação LavaJato da PF.
    Tem-se mostrado incansável algoz do PT e bastante condescendente com membros do PSDB que estão envolvidos em outros casos muito nebulosos. Já cometeu várias lambanças e a última foi a prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto que já havia se colocado à disposição da justiça, mas Moro achou por bem trancafiá-lo para não interferir nas investigações e tratou de pressionar a esposa de Vacari como suspeita de estar envolvida na movimentação de verbas. Meteu no rolo uma cunhada do tesoureiro, acusando-a de fazer depósitos em dinheiro para a irmã. Afinal cometeu um erro crasso que declarou publicamente, mas continuou mantendo preso o tesoureiro do PT porque sua mente foi bitolada para atormentar o partido no Governo que ele tenciona derrubar.
    O Partido dos Trabalhadores continua tão omisso em relação a seus membros atacados pela oposição como no caso do mensalão e não se nota uma ação mais efetiva da parte de Lula que ainda consegue arrastar imensa massa humana para seus propósitos. Falta sensibilizar a população para os abusos de Moro!

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: