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Jornalismo de esgoto: Veja é desmascarada mais uma vez

A Veja publicou que uma embaixadora argentina tinha milhões de dólares no Felton Bank. O banco desmentiu essa informação. Será que a Veja vai se retratar?

Marcelo Justo, via Carta Maior em 13/4/2015

A truculenta história inventada pela Veja e reproduzida pelo Clarín se desfez em mil pedaços. O banco CNB confirmou que nem a embaixadora Nilda Garré, representante da Argentina na OEA, nem o filho de Cristina, Máximo Kirchner, tiveram contas no banco ou em seu antecessor, o Felton Bank de Dellaware, paraíso fiscal estadunidense. Numa carta para Garré, publicada no sábado,dia 11/4, pelo periódico argentino Pagina 12, a vice-presidenta do banco, Cassandra Guy, indicou que não existe nenhum registro de uma conta em seu nome no CNB ou no Felton.

No dia 30 de março, a revista brasileira Veja e o Grupo Clarín publicaram que Garré e Máximo Kirchner eram cotitulares de uma conta no Felton Bank, aberta em 2005, que tinha um saldo de US$41 milhões. Segundo as notas de ambas as publicações, cheias de condicionais, o dinheiro vinha do Irã, que teria pagado essa quantia para que a Argentina levantasse o pedido de detenção dos iranianos acusados pelo atentado contra a Amia (Associação Mutual Israelita), em 1994, que deixou 85 mortos. Numa tentativa de dar mais consistência à denúncia, apareceu um número de conta: 00049852398325985.

A grande repercussão da denúncia, que foi replicada através dos meios do Grupo Clarín (a Globo da Argentina) depois alcançou difusão internacional, não foram suficientes para tapar a fragilidade dos dados. O jornalista da Veja, Leonardo Coutinho, citava como fonte a um especialista internacional em finanças que não tinha nome e reconhecia não haver verificado a notícia de forma independente.

Mais estranho ainda, o Felton Bank, absorvido em 2011 pelo CNB, era um banco pequeno com um total de depósitos de US$71,8 milhões. Parecia altamente improvável que uma única conta desse banco tivesse US$41,7 milhões, ou seja, a metade dos fundos totais. Mais que isso, bastava consultar a informação oficial do FDIC (Federal Deposit Inssurance Corporation), organização estatal que regula os depósitos, era possível ver que a existência de uma conta como a que foi descrita na reportagem.

A FDIC só cobre depósitos de no máximo US$250 mil. Em seu relatório oficial, o organismo aponta que 91% do que foi depositado no Felton constava entre as operações que avaliaram. Com um cálculo matemático simples, observa-se que somente uns 6 milhões de dólares ficaram de fora dessa avaliação, por pertencer a contas com maior montante, ainda assim, não havia espaço para uma conta de US$41 milhões. Como havia dito Máximo Kirchner, na semana passada, a informação não só era falsa, senão ridícula. É tudo uma grande mentira, cuidadosamente planejada e dirigida. Nunca, nunca, nunca tive uma conta no exterior., disse Máximo Kirchner.

A suposta cotitular da conta, Nilda Garré, solicitou ao banco CNB – por fax, e depois pela via legal – que emitisse um certificado sobre se ela havia tido algum tipo de conta, seja como titular, cotitular, assinante em nome de alguma empresa. A resposta completa do banco, assinada por sua vice-presidenta e auditora, não dá margem a dúvidas: estimada senhora Garré, com relação ao seu pedido, estivemos revisando nossas contas e não há registro algum de uma conta em seu nome, nem no CNB nem no Felton Bank, confirma Cassandra Guy.

A denúncia da sociedade Veja-Clarín buscava atar ao mesmo tempo um suposto esquema de corrupção milionária com a morte do promotor Alberto Nisman, que comoveu a Argentina em janeiro, com figura de Hugo Chavez e com o Irã. Veja citou testemunhos supostos ex-agentes do governo venezuelano que maior contorno à denúncia, falando de uma relação íntima entre Garré e o ex-presidente Chavez que daria vergonha a 50 tons de cinza, e cujos êxtases podiam ser ouvidos de longe.

As datas levantadas por Veja e Clarín são tão incongruentes quanto a conta do Banco Felton e as referências eróticas. A hipótese era que o Irã havia pago, em 2005, uma quantidade multimilionária por um memorando assinado em janeiro de 2013, um caso único de suborno com oito anos de antecipação. Entre uma data e outra, tanto o ex-presidente Nestor Kirchner quanto a atual mandatária Cristina Kirchner denunciaram várias vezes o Irã na Assembleia Geral das Nações Unidas, por não colaborar com a Justiça argentina no Caso Amia. Em 2007, foram realizados os pedidos de alerta vermelho contra os funcionários de Teerã. Nada disso foi levado em conta.

Até o momento, nem Veja nem Clarín tiveram a dignidade de publicar um desmentido. Não é do feitio de nenhuma delas. Quando a revista brasileira publicou a primeira denúncia contra Garré, a funcionária argentina reivindicou seu direito de resposta e enviou uma resposta contundente, que a revista não publicou. Clarín sim publicou o desmentido, mas num canto inferior de uma página, em espaço quase invisível.

Nada disso importa, porque, como em toda a campanha de desinformação, o objetivo de ambas as publicações foi alcançado. Veja e Clarín semearam suspeitas sobre o governo de Kirchner e se serviram mutuamente como fonte informativa. Em suas notas, Clarín cita a Veja, que cita o Clarín, que cita a Veja, num círculo vicioso que não respeita a verdade e tampouco a ética. A denúncia foi publicada pelo Tea Party dos Estados Unidos e pelos fundos abutres desse país, como parte de sua longa batalha legal contra a Argentina. E tampouco se deve esperar que estas organizações publiquem desmentidos, supondo que lhe interessa resguardar o conceito de verdade e o bom nome dos denunciados.

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