Os reais motivos do inconformismo da elite reacionária

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A elite se consolida alicerçada em práticas de corrupção. Por isso o fim do financiamento privado de campanha não é uma pauta de seus protestos.

José Augusto Valente, via Carta Maior em 20/3/2015

Observando as manifestações de sexta-feira, dia 13/3 – convocadas pela CUT e movimentos sociais – e de domingo, dia 15/3 – convocadas pelo Movimento Brasil Livre e pelo Vem pra Rua – fica claro o acirramento da divisão existente na sociedade brasileira. Embora saiba que a realidade é complexa, para fins de análise, considerarei apenas os aspectos mais relevantes.

De um lado, os pobres e parte da classe média progressista fazendo pressão para que o governo Dilma avance para a esquerda, ou seja, para que amplie e aprofunde as reformas sociais e políticas.

Do outro lado, os ricos e parte da classe média conservadora, desejando o retorno à direita, com tudo o que isso significa.

Em minha opinião, engana-se quem pensa que estes últimos querem apenas tirar a Dilma da Presidência. O que eles querem mesmo é um país socialmente desigual, machista, racista, homofóbico e alinhado com os EUA.

É preciso atentar que os avanços conseguidos pelos governos Lula e Dilma nestes aspectos, incluindo os avanços dos BRICS, estão construindo uma nova realidade insuportável para a elite e para a parte da classe média que se julga elite. Isso é notório nas redes sociais: quem frequenta, sabe do que estou falando.

No entanto, a elite propriamente dita quer sim o impeachment da Dilma, porque estão muito seguros de que seu governo contraria e continuará contrariando os seus interesses. Ao contrário do que alguns afirmam, penso que ela não acha que tanto faz ter a Dilma ou o Michel Temer no comando do executivo federal.

Com todo o respeito ao vice-presidente, e à parcela progressista do PMDB (Requião, Pezão, Eduardo Braga, entre outros), a elite econômica acha que num governo presidido por Temer, pressionado pelo grupo do deputado Eduardo Cunha, conseguirá mudanças que garantam seus interesses e a estratégica preservação do status-quo na área de Comunicação. Acredita que conseguirá, sem dificuldade, implantar o regime de concessão na exploração do pré-sal. Que conseguirá acabar ou reduzir bastante a política de conteúdo local, no âmbito da Petrobras, entre outras questões relevantes.

Em síntese, essa elite pensa que conseguirá voltar a ser o foco do direcionamento das políticas do governo federal, em todas as áreas. Como no período 1500-2002!

Já a classe média conservadora, com muita ou pouca renda, diz temer o “comunismo” que os governos do PT estão implantando (sic). Para conseguir o apoio destes, as elites construíram um modelo ideológico, que lhes garante a necessária adesão, votos e manifestações. A insuficiente politização dos governos do PT e do próprio partido contribui para deixar parte da população à mercê dessa “lavagem cerebral” anti-PT.

O que essas pessoas entendem por “comunismo do PT”?

  • Garantia do direito à moradia digna para os pobres, aumento de renda para a classe média e renda mínima para os miseráveis. Garantia de sistema de saúde, de educação e de assistência social público e universal. Baixo nível de desemprego. Além desses, programas como Mais Médicos, Brasil Sorridente, UPAs, Escolas Técnicas e Universidades públicas são considerados, por essa classe média, um desperdício de recursos.
  • Redução das desigualdades sociais. Para essa parcela, bolsa de estudos para os seus filhos estudarem fora do país é algo desejável. Já Prouni, Fies e cota para negros é uma excrecência a ser abolida. Para ela, pobre se quiser subir na vida tem que estudar e trabalhar bastante. Como se as condições históricas econômicas, sociais e culturais fossem minimamente favoráveis a isso. O ponto alto da raiva dessa classe média contra o PT é o fato de Lula, um operário, analfabeto (segundo ela), ter se tornado presidente do Brasil, se reeleger e, ainda por cima, ter garantido a sucessão para a Dilma. Mas o pior de tudo, para ela, talvez seja a possibilidade de Lula voltar à Presidência em 2018!
  • Criminalização do racismo e política de cotas. Onde já se viu garantir aos afrodescendentes os mesmos direitos dos brancos? Para elas, negros só podem ascender por mérito, e olha lá!, como se as condições históricas fossem permeáveis a isso.
  • Criminalização rigorosa do machismo e políticas de emancipação e autonomia das mulheres. Aqui também essa parcela da classe média entende que é um direito histórico dos homens poder agredir esposa, namorada, filha, irmã ou colegas de trabalho. Sempre foi assim! Porque agora tem que ser diferente? Não é à toa que o termo mais utilizado para se referir à Dilma é “vaca”! Além do mais, que história é essa de Lei Maria da Penha, para punir os machões? Autonomia econômica? Uma ova! “Lugar de mulher é na cozinha”.
  • Criminalização rigorosa da homofobia e políticas públicas para a parcela LGBT da sociedade brasileira. A recente punição da Justiça ao ex-candidato Levy Fidélix, por declarações homofóbicas, são inaceitáveis para os conservadores. Um governo que defende esses direitos tem mais é que cair, pensam eles!
  • Interferência na ordem econômica e na geopolítica mundial, com a consolidação dos BRICS, o que significa alinhamento com China, Rússia, Índia e África do Sul, bem com o recém-criado fundo próprio para desenvolvimento destes países, similar ao FMI. Esse movimento diminui a dependência em relação aos EUA, sendo considerado por eles uma afronta a nossos irmãos do Norte. Fingem não ver que esse movimento foi tão bem sucedido que até a Alemanha está interessada em fazer parte disso!

Finalmente, ouso dizer que a corrupção, para o movimento anti-Dilma, nunca foi e jamais será um problema real. Mas essa bandeira é levantada porque “não pega bem” lutar pela volta da desigualdade social, do machismo, do racismo, da intolerância aos LGBT e da dependência aos EUA. Ao contrário, bradar contra a corrupção – de preferência do PT, é claro! – garante uma boa imagem aos manifestantes.

A elite econômica e boa parte da classe média conservadora se consolidam e crescem alicerçadas em práticas de corrupção. São elas o poder corruptor, sem o qual não existiriam corruptos. No que depender delas, o financiamento de empresas privadas às campanhas eleitorais continuará vigindo.

Dito tudo isso, fica a triste constatação de que quanto mais os governos de esquerda fazem avançar uma pauta progressista, socialista, mais irrita os defensores do status-quo de antes de 2003.

Essa tensão, portanto, tende a aumentar, porque temos governos progressistas e de esquerda, não só no âmbito federal, mas em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e em cidades importantes como São Paulo.

Não resta a esses governos alternativa ao avanço das políticas econômicas e sociais. Mas para isso ser viável, há que aumentar sensivelmente a participação social, em espaços atrativos para a parcela progressista da sociedade. Há missão também para os movimentos sociais e para os partidos de esquerda. Mas me restringirei aos governos.

Atualmente, a correlação de forças nos é desfavorável e ela não será alterada somente com ações e comunicação eficazes. É fundamental termos um processo de tomada de decisão e controle social que garanta o necessário empoderamento da sociedade na defesa de um governo de esquerda. Quanto mais conscientes dos porquês das decisões, maior dificuldade terá a direita para a sua lavagem cerebral.

Quem nunca vivenciou um processo eficaz de participação social na gestão talvez tenha dificuldade de entender o que estou dizendo. Por isso, pretendo fundamentar essa tese em artigos futuros, com maior nível de detalhamento e de exemplos bem sucedidos.

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10 Respostas to “Os reais motivos do inconformismo da elite reacionária”

  1. Odilon José Fernandes Says:

    Nem tudo céu nem tudo inferno, há uma elite que deseja ser dela o estado, exp. pago x de tributo quero que se reverta a ela mesmo, há outra que deseja ser ela a chefe do poder executivo. A hegemonia de classe perdeu lugar para a igualdade entre os homens. Ovacionam a educação e se esquecem que milhares dos empreendedores de sucesso formado antes do ato institucional número 5 são advindos do ensino básico e que a mão de obra sem qualificação vem dos trabalhadores que concluíram o ensino médio no atual modelo de educação formado após o AI 5. Qual escritor escreveu a realidade da Historia do Brasil levando-se em conta os governos Eurico Dutra, Getúlio, eleito pelo voto direto, JK e Jânio Quadros registrando a realidade da época, e pode publica-lo? A substituição do projeto político pedagógico da educação pública e o afastamento, as deportações e as prisões dos grandes gênios da educação substituídos por profissionais amantes do golpe sucateou a educação e assassinou a cultura anulando o ser e endeusando o ter. A terra vai tremer, os corruptos vão perder e o Brasil vai vencer. Viva a democracia!

  2. pintobasto Says:

    A solução imediata para todos os problemas que afligem o Brasil seria a auditoria das dívidas interna e externa, auditoria das privatizações com FHC, José Serra, Gilmar Mendes e outros presos imediatamente, baixar a tal de Selic para 3% a.a., imediata REFORMA POLÍTICA sem a participação dos atuais politiqueiros ou partidos e monumental combate ao tráfico de drogas com a prisão de muitos passarões que ganham fortunas bilionárias com a desgraça da nossa população mais jovem!

  3. Tomaz Elias Robinson Says:

    Concordo com você a visão “populista”, querer ter a imagem de Pai do Povo, só faz com que se destorça politicas de libertação e crescimento das camadas da sociedade que vem sendo explorada a muito tempo.

  4. José Jésus Gomesde Araújo Says:

    O sr. Edivaldo apresenta um raciocínio típico de classe media. Esquece-se de que o governo tem dado muita desoneração de custos às empresas, atualmente cerca de 200 bi. Que fazem elas com tão grandes recursos? E quem cria empregos? O governo ou os empresários? Com a SELIC alta então… Quanto à política social, não custa mais do que 1% do orçamento federal; mas, como dizia Darcy Ribeiro, para os pobres tudo é considerado caro, desperdício. Aliás, os frutos dessas políticas não é imediato, seus resultados aparecerão a médio prazo. Mas o sr. Edivaldo não se queixa do montante pago aos rentistas; procure saber a porcentagem no orçamento federal, procure saber quanto do fruto de seu trabalho vai para os bancos, em vez de ser investido em benefício da sociedade..

  5. pintobasto Says:

    Dayse toda esta crise que o Governo enfrenta deve-se a erros crassos do PT comandado por Lula. Com Suas alianças com os maiores ícones da politicalha nacional, Lula, sempre um espertalhão caiu em grandes armadilhas como no caso do mensalão. Defenestrou Dirceu e causou grande descontentamento dentro do partido, depois sua ingerência no governo de Dilma, só tem causado dificuldades como temos visto no ministério que ela apresentou. Dilma tem que se afastar de Lula e suas alianças muito complicadas. Tem tudo para fazer um Governo bem mais sério que os anteriores!

  6. Dayse Silva Says:

    De fato, Marcos. O centro de tudo é a nossa Petrobrás.
    A “criação” da crise política nacional decorre do descontentamento da elite interna e talvez alguma externa. Tudo isto porque querem “a galinha dos ovos de ouro”:a Petrobrás.
    Basta que se observe as prisões dos empresários, todos do ramo da engenharia, prestadoras de serviços à Petrobrás.
    Ligando todos estes pontos, pode-se concluir sobre a verdade última da “crise”.
    Para os que amam, de verdade, este País, fica uma decepção profunda. Afinal, constatamos que 500 anos de história não foi suficiente para entendermos que o Brasil e suas riquezas são, de fato e de direito, do Povo Brasileiro e só do Povo Brasileiro. É assim com Países que se fazem respeitar como os da Europa, América do Norte, etc.

  7. Edivaldo Santos Says:

    Li seu texto e acho que você confunde algumas coisas, está atribuindo uma revolta a coisas que não estão em pauta. Eu sou descendente de sertanejos e como tal assisti, em algumas visitas que a terra do meu pai e da minha mãe, a situação deles antes e depois do governo do pt e vou dizer que muita coisa não mudou, a grande diferença lá é que agora ele tem carro e smart fones, bebem mais cerveja tem ar-condicionado em casa mas crescimento efetivo não se nota, esse dinheiro investido em programas sociais serviu para levar esse tipo de coisas que eles não tinham acesso, faça uma pesquisa lá e veja quantos dos jovens que nasceram durante esse período querem fazer faculdade, muitos deles nem conhecem o pro uni (esse sim é um programa social de verdade) nem conhecem o FIES. O que a classe média, que como eu e minha família, quer é a chance de ajudar o país a crescer de verdade e isso o governo e os sindicatos (que por acaso nasceram e ganharam o poder que tem hoje graças os que comandam o pais hj) estão atrapalhando, eu fico puto toda vez que faço as contas e percebo que 30% da oneração da minha folha de pagamento e dos impostos que eu pago poderiam gerar mais 50% dos empregos que eu já gero hoje, sou um empresário que muitos chamariam elite conservadora mas eu e meu ideal geramos 10 empregos na minha região e poderia gerar 15 se não fosse a falta de incentivo a uma classe que gera 75% dos empregos do Brasil tenho muitos colegas que fecharam as portas e foram procurar emprego pois desistiram de empreender, imagine se uma classe que gera renda e tributos para alimentar os “programas sociais” fizesse isso não haveria emprego para todos nem tributos para o smart fone, o carro, o ar-condicionado desse povo. Em suma minha indignação é grande quando tenho que despedir alguém pois não tenho como pagar seu salário pois sou obrigado a entregar ao governo que vai distribuir entre aqueles que não fizeram nenhum esforço para esse país crescer, pra finalizar meu pai veio pra São Paulo em busca de uma vida melhor, em busca de ter seu trabalho valorizado e assim por mérito crescer na vida, não somos ricos mas se olhar pra trás e ver como ele chegou aqui e ver como estamos hoje subimos um morro três vezes mais alto que o Everest, pode ser que lá falta criar oportunidades para que o povo também cresça do mesmo jeito que meu pai cresceu, acredito que esse é o papel do governo criar as oportunidades e não tirar dinheiro de quem foi atrás das suas oportunidades para dar aqueles que nada fazem.

  8. Marcos Pinto Basto Says:

    Jackson, muito grato por seu elogio ao meu desabafo! Nestes tempos de manifestações cozinhadas pelos yankees para correrem com o PT e Dilma do Planalto, dá vontade de postar uma série de verdades que machucam muito determinado tipo de terráqueos sem pátria que habitam entre nós. Só um ceguinho não enxerga que eles querem a Petrobras e a grande reserva de petróleo do pré-sal, além de nos afastarem do BRICS. Este o grande medo deles! O BRICS vai jogar uma pá de cal na cova deles.

  9. Jackson Roberto Says:

    Muito bem colocado, Marcos P. Basto!!!

  10. Marcos Pinto Basto Says:

    Só um pobre desavisado perdido há anos na serra da Mantqueira que não notou como a vida do brasileiro mudou para melhor nos 12 anos de PT no Governo.

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