Por que a presidenta é execrada e os governadores são poupados?

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Matheus Pichonelli em seu blog

Nos próximos anos, quem quiser entender a relação entre representantes e representados desde a redemocratização no Brasil até os dias atuais terá de passar certamente pela tensão das classes médias e altas em relação à política – aqui entendida como o governo central. Se antes as mobilizações vinham das massas, elas hoje surgem via WhatsApp e correntes no Facebook. Se antes elas priorizavam justiça social, hoje falam em uma genérica moralidade. Se antes trancavam as ruas, hoje esperam os feriados ou ficam nas varandas.

As formas tradicionais de manifestação, menos noticiadas, ainda existem, mas hoje convivem com outros atores. Para muitos, trata-se da revolta da barriga cheia: plenos de direitos e mantimentos, os revoltados seriam motivados pelo incômodo do convívio com outras classes e sotaques em seu quintal. É uma hipótese, mas nela vejo dois problemas. Um, o que legitima qualquer manifestação apenas se houver fome – como se nós, à direita ou à esquerda, não berrássemos por saídas para qualquer parte, e não apenas por comida. O segundo problema é imaginar que a insatisfação é recente, restrita a um governo ou alimentada pela má-vontade da mídia com determinados partidos. É também, mas isso, por si, não explica os diferentes níveis de informação e desinformação nesses atos.

Após o panelaço de domingo, dia 8/3, muitos se perguntaram por que não vemos revoltas similares contra governos estaduais e assembleias legislativas de obediência quase bovina aos Executivos locais. Ou às pequenas grandes atrocidades patrocinadas por prefeitos e juízes das pequenas comarcas. Umas das razões apontadas seria a baixa atenção da mídia a esses espaços. Decerto, mas quais os motivos dessa baixa disposição?

Arrisco: um veículo de comunicação de massa tem como desafio nacionalizar a pauta. O local e especifico só ganha atenção pelo absurdo ou o exotismo. Essa tendência comum ao próprio noticiário cria um bolsão de conforto a quem age sob uma distância segura dos holofotes. Não por acaso, câmaras municipais e assembleias legislativas gastam mais tempo e recursos para homenagear amigos com nomes de rua do que com projetos de lei efetivos.

Mais do que isso, quem “consome” as notícias de sempre não são exatamente os beneficiários dos serviços públicos locais. As classes menos abastadas e mais vulneráveis a omissões e truculência do Estado quase nunca entram na conta da opinião pública. A marginalização dos espaços urbanos cria categorias distintas de visibilidades. Em compensação, no centro, as classes altas hoje são todo ouvidos ao que se passa em Brasília.

Há uma razão para isso (e entende-las, frise-se, não significa minimizá-las).

Com exceção da crise hídrica, que ora afeta ricos e pobres (mais os pobres, claro) e coloca governadores no foco do noticiário, as áreas de atuação dos executivos estaduais ou mesmo municipais não sensibilizam a opinião (ou a revolta) das classes mais abastadas. Primeiro porque há uma confusão sobre os papeis dos entes federativos. Se uma espiga de milho espirrar, a ação automática é botar a culpa no presidente. Isso não é só um problema das elites. Tem a ver com um baixo grau de mobilização, engajamento e consequente incompreensão da divisão de papeis e poderes. E tem a ver, principalmente, com o modo de vida nesses espaços, que criou uma ponte direta entre os bairros nobres das cidades e o planalto central do país. Este cidadão não se mobiliza com os números do ensino público porque ele paga escola; não se sensibiliza com os índices da segurança pública ou penitenciária porque sua segurança é privada (é só ver os sistemas de segurança e monitoramentos dos condomínios, prédios, empresas, escolas e shoppings); não se importa com a saúde pública porque o plano de saúde é privado. Um ponto de interseção seria o transporte público, ainda assim limitado: a noção de independência e ascensão ainda é associada ao uso do automóvel.

De toda forma, há uma tendência de essa classe média e alta em minimizar as notícias sobre educação, saúde e segurança, pontos-chave nas franjas da cidade e cujas gestões cabem ao governador ou ao prefeito. Para os moradores do centro, são problemas distantes. A prioridade é pagar pelos mesmíssimos serviços privados. Daí a maior sensibilidade com medidas econômicas que afetam o bolso e uma consequente reação a projetos como a PEC das Domésticas, o peso da folha de pagamento (para contratantes e contratados), a taxa básica de juros, o dólar e projetos sensíveis relacionados a aborto, maioridade penal, descriminalização das drogas, etc.

Hoje, para os moradores do centro, a política, e todos os males que a política encarna, é atribuída a um único rosto. Isso, claro, não minimiza o erro tático da presidenta Dilma Rousseff, que deu as caras em um pronunciamento monocórdico dois dias após a divulgação da lista de políticos a serem investigados pelo Supremo Tribunal Federal – uma lista integrada por seus dois ex-ministros da Casa Civil. Noves fora as ofensas impronunciáveis, o panelaço pode ser justo ou injusto, mas a bronca não é um fenômeno recente: a concentração de poderes em torno da Presidência fez com que, entre 1999 e 2002, o Fora FHC fosse a frase mais repetida pelos brasileiros depois do Chama o Romário. Antes, crianças cantavam com o peito estufado um sucesso nas rádios chamado “Hoje estou feliz, matei o presidente”. A música, uma homenagem de Gabriel, o Pensador, ao então presidente Fernando Collor de Mello, chamava a primeira-dama de “puta” e dizia: “prometeu, prometeu, prometeu e não cumpriu. Então eu fuzilei, vai pra putaqueopariu”.

A relação quase direta entre eleitores e presidentes é, portanto, um ponto sensível e propício a rebeliões de determinados grupos em determinados momentos de deterioração política ou econômica. O prefeito sofre um pouco mais na avaliação da classe média, mas, ao menos por esses lados, ele tende a passar batido da execração quanto menos atrapalhar o caminho entre a casa (já descontado o IPTU) e o trabalho – sobretudo se o caminho for mal iluminado e estiver povoado por buracos ou ciclovias. O governador, que cria alianças e simpatias inclusive a partir da guerra fiscal, passa batido nessas manifestações – a não ser que elas sejam protagonizadas por servidores públicos organizados e sob ameaça, como aconteceu recentemente no Paraná. O cidadão comum de classe média pode até reforçar o coro, mas esta não é a regra.

Para boa parte dos moradores do centro, o governador e o prefeito são problemas dos pobres e os pobres, problemas dos governadores e prefeitos. Por isso não se vê panelaços quando um subordinado do governador classifica homicídio como auto de resistência. Ou quando os filhos da periferia são aliciados pelo tráfico. Em São Paulo, por exemplo, o crime só gera comoção nos centros e nos jornais quando o bolsão de segurança é furado e a criminalidade, concentrada na periferia, atravessa o rio Pinheiros.

Não é regra, mas uma tendência: por esses lados, quanto maior o rendimento, menor a atenção à coisa pública. Confinados, deixamos de ver os serviços e equipamentos públicos, como escolas, praças e creches como algo que também nos pertence – optamos por pagar pelos espaços privativos, em parte devido à péssima qualidade do serviço público. Só que quanto mais nos distanciamos dos espaços públicos, menos andamos a pé; quanto menos andamos a pé, menos participamos; quanto menos participamos, mais relegamos; quanto mais relegamos, menos compreendemos; quanto menos compreendemos, mais criamos cordões de isolamento. Quanto mais cordões, menos convivemos. Quanto menos convivemos, mais assistimos tudo ao longe – na varanda, com panelas, gritos e vuvuzelas. É uma forma de participar não participando.

Em tempo. Por mais que a revolta e a revolta sobre a revolta tenham centrado as atenções do noticiário de domingo, dia 15/3, faço minhas as palavras da amiga Rosane Pavam em sua página no Facebook: “Nada mais é tão importante no Brasil neste momento do que a morte de uma pobre criança por ser filha de homossexuais. Vontade de parar tudo”

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