Afinal, do que se trata? Simples: destituir Dilma e liquidar o PT.

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O governo cometeu erros, alguns muito graves, não há como negar. Mas surge um sentimento injustificável de ódio. E não é um ódio banal: é ódio de classe.

Eric Nepomuceno, via Carta Maior

Não há como negar que existe uma concreta e substantiva dose de insatisfação geral, inclusive em parcelas significativas, talvez majoritárias, do eleitorado de Dilma Rousseff. Saber que a verdadeira situação da economia foi camuflada não apenas durante a campanha eleitoral, mas ao longo de todo o ano, é causa de frustração e inquietude. Ver como rapidamente – e da maneira mais torpe possível – foram anunciadas medidas restritivas, que durante a campanha eram imputadas ao adversário, caso alcançasse a vitória, também levou milhões de brasileiros a se sentirem enganados.

A – digamos – pouca habilidade de Dilma ao armar seu ministério, um dos mais formidáveis desfiles de mediocridades num país que já viu, entre outras bizarrices, Renan Calheiros ser ministro de Justiça, foi a sequência do mal estar.

E então vieram os índices de inflação, que ainda estão longe de ser efetivamente graves e dramáticos, mas são, sim, preocupantes. O passo seguinte, nesse mostruário de pequenos (embora sanáveis) desastres, foi a articulação absolutamente desarticulada entre o governo, o Congresso e os aliados. E, como se tudo isso fosse pouco, continua em curso outro escândalo, graças às denúncias concretas de corrupção, desta vez na Petrobras.

Ou seja: foram oferecidos todos os ingredientes para uma receita de crise política de bom tamanho.

Acontece que o verdadeiro problema é outro. Pela primeira vez desde a retomada da democracia, em 1985 e depois de 21 anos de benefícios para os mesmos grupos econômicos e midiáticos que agora clamam pelo Estado de Direito, surge em pleno esplendor um sentimento que andou bem distanciado do cenário político, e que é o ódio.

Assim de fácil, assim de simples: o ódio. Mais que a fúria de um Carlos Lacerda, que em última instância era um orador brilhante, o que temos é um ódio rasteiro, sem pena nem glória.

E não é um ódio banal: é ódio de classe. Preconceito de classe. As elites e as classes médias tradicionais, que invejam as elites enquanto a elas se submetem, se lançam com fúria desatada não exatamente contra o alvo de seus preconceitos, mas contra seus promotores.

O alvo é essa nova classe ignara e bruta que de repente ocupa aeroportos, gente ralé que viaja em avião usando sandálias de borracha e deixam perfeitamente claro que não sabem como se portar à altura de ambientes seletos como os aeroportos; essa gentalha que compra geladeiras e nos obrigam, digo, nós, brancos, que só soubemos o que é ter fome quando a empregada atrasou o almoço, pois nos obrigam a esperar pela entrega de um novo modelo de tanto que compram; enfim, essa turba que de repente começa a exigir melhor qualidade na educação, na assassina saúde pública, no humilhante transporte público.

A essa gente, o verdadeiro alvo, o desprezo. Aos que promoveram essa gente a ponto de nos perturbar, o ódio.

Da mesma forma que o Brasil soube disfarçar doses colossais daquele preconceito racial que os cínicos mais indecentes negam existir, a questão agora é tentar disfarçar o preconceito de classe. Porque as elites brasileiras que odeiam os pobres e, mais ainda, os que deixaram de ser pobres, se dizem defensoras da justiça social – desde que, claro, seja feita de acordo com seus critérios esdrúxulos. Porque as elites brasileiras exigem, em primeiro lugar e acima de tudo, a preservação de seus privilégios de sempre, agora ameaçados por uma crise econômica provocada, dizem, por governos irresponsáveis e inconsequentes, que gastaram rios de dinheiro para que os miseráveis passassem a ser pobres, e os pobres passassem a integrar a mesma economia de mercado, de consumo, que alimenta essas mesmas elites.

No fundo, é esse o motor que gera o cenário que vivemos.

O governo é inábil, com certeza. Cometeu erros, alguns muito graves, não há como negar. Há muita culpa no cartório da corrupção, claro.

Mas não é disso que se trata. Do que se trata é de fazer o Estado dismilinguir, retomar o domínio do país. Devolver às margens o que é marginal, aos subúrbios o que é suburbano, ao pé do chão o que se atreveu a andar de avião.

De destituir Dilma, liquidar o PT, enterrar Lula da Silva. Que, claro, cometeram erros e equívocos, mas, acima de tudo, cometeram um pecado capital, imperdoável: levar adiante um projeto de país, e não um projeto de preservação dos benefícios de determinada classe.

E isso, vale repetir, é crime imprescritível. Pecado imperdoável.

Para os porta-vozes e porta-silêncios das elites preconceituosas, Dilma merece o direito de escolha. Os mais educados dizem que não é o caso de impeachment, e oferecem a ela o nobre gesto da renúncia. Os mais desembestados sentenciam que a saída é deixá-la – e a seu governo – sangrar. Os mais energúmenos preferem diretamente destituí-la.

Será que não há uma única alma capaz de convencê-la de que é preciso se defender? E não apenas se defender, mas defender um projeto de país?

Por que ela, que em seus anos jovens soube resistir a tudo, superar tudo, não dá um passo concreto, não faz um único gesto viável para reagir a uma conspiração baseada no mais vil dos sentimentos, que é o preconceito?

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7 Respostas to “Afinal, do que se trata? Simples: destituir Dilma e liquidar o PT.”

  1. Moacir R. de Pontes Says:

    Nossa Saúde Pública não é a verdadeira assassina, pois consegue fazer mais do que a medicina privada com um terço do orçamento per capita desta. Assassina é a política de sonegação de recursos para a produção adequada do Bem Comum. É a mistificação de que, se cada um cuidar de seu próprio interesse, o interesse de todos estará bem cuidado. Como se a Cidade fosse a somatória de interesses privados. E onde está o grande erro de Dilma: em não ter cedido logo de cara ou em ter resistido o mais que pôde?

  2. Tomaz Elias Robinson Says:

    Dayse Silva, você está correta na sua colocação, porém o que não concordo é ver governos fazendo promessas, e não cumprindo, as vezes fazendo nada mais que a obrigação e tratando isto como se fosse um grande favor as classes menos esclarecidas e que tem menos oportunidade . Se aliando a politicos profissionais que entra governo muda governo independente da ideologia partidaria estão lá se fingindo de aliados e o governo aceitando em nome de uma falsa governabilidade. É ver pessoas que se aproveitam cods cargos para se enriquecerem alegando depois que estão ajudando o povo nos seus discursos hipocritas., isto é o que tem que mudar, é necessário que numa reforma politica se acabe com a reeleição, de qualquer mandato de vereador a presidente, e que se acabe com os privilegios, tais como planos de saude vitalicios, aposentadoria com 8 anos de mandato e outros abusos que ocorrem.Agora fica a pergunta quem fárá isto?

  3. Dayse Silva Says:

    Governar um País não é fácil. Sobretudo governar um país de elite como a nossa, de certos políticos, muitos dos quais são eleitos a cada pleito, por décadas e décadas.
    A Dilma não inventou este embrolho nacional.
    Isto é velho. É histórico.É endêmico.
    O que há é frustração de alguns poucos, que se acostumaram a ter os seus interesses protegidos, enquanto o povo sofria.
    Contrariamente, a partir do governo Lula muito se tem feito para melhorar o nível de vida das classes sociais mais pobres.
    É preciso reduzir o “gap” entre as classes sociais brasileiras. A desigualdade econômico-social não tem justificativa, senão no atraso das sociedades humanas.
    É preciso dar oportunidades iguais a todos os brasileiros.
    É assim nos Países Europeus e nos EE.UU.
    A elite do nosso País viaja muito ao exterior, mas finge não perceber a diferença que há entre a distribuição de renda nesses países e no Brasil, a despeito da riqueza do nosso País.
    Precisamos dar melhores condições de vida a todos brasileiros, melhorando currículos escolares, criando novas escolas, com bom corpo de professores, melhor alimentação, melhores moradias, ,etc, etc
    Sem uma boa educação às nossas crianças e aos nossos jovens não teremos um futuro promissor para o nosso povo.
    Leiam sobre a história da Coréia do Sul, a partir dos anos 50, e vocês entenderão porque este País é hoje o que é.

  4. Romero Gaia Santana Says:

    simples e objetivo…. o nome de Aécio estava na lista apreendida na sede da Camargo Correa pela PF… se dúvida é só pesquisar sobre a operação lava jato autos de apreensão 1060/2014 item 30 e o nome do ex-presidenciável está lá…. as manifestações que tanto pedem o fim da corrupção pediu que ele fosse investigado??? acho que não… enquanto isso o pobre anastasia toma chumbo…

  5. Tomaz Elias Robinson Says:

    Mais um detalhe na foto, será que a moça de blusa preta rendada que está puxando o braço da Dilma é “das elite”? A expressão dela vale tanto quanto tantos cartazes discriminatórios que houve nas passeatas

  6. Tomaz Elias Robinson Says:

    Seu comentário é ótimo, só ficou uma dúvida, será que você também não odeia esta elite que você esta falando, será que no fundo você também não está preocupado com quem tem muito e que talvez você não tenha? Eu espero sinceramente que a Dilma tenha a capacidade de reconhecer os erros que cometeu na politica econômica, que se arrependa de seguir a cartilha do marketing eleitoral que lhe impuseram, de aceitar o dialogo porém mostrando que está aberta a fazer concessões. Que não queira fazer um governo populista e sim um governo honesto, distribuindo a renda mantendo o auxilio aos mais necessitados porém demonstrando claramente que isto tem que ser por um determinado tempo, que cada um deve procurar o seu sustento. Propondo mudanças verdadeiras e não acobertando crimes. Que pare de alegar, que os governos anteriores faziam, o que fica parecendo que, então porque reclamam de se fazer neste governo. Que seja solidária com o infortúnio das famílias, porém lembrando sempre que as leis são para serem cumpridas. E por fim que tente sinceramente acabar com os privilégios que as classes politicas tem, estes sim a verdadeira causa da revolta de grande parte da população.

  7. pintobasto Says:

    É isso mesmo! Dilma necessita reagir a essa preconceituosa legião de abocanhadores de regalias e muito dinheiro com a Reforma Agrária, Regulamentação da Mídia, taxação das grandes fortunas, auditoria das dívidas interna e externa, reajustar salários dos militares e reestruturar as FFAA com vista a uma eficiente segurança do território nacional.

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