A revolta da varanda: Onde estavam os paneleiros antes?

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Onde estavam?
Guilherme Boulos, lido no Esquerda Caviar

Quem acha que já viu tudo ficou pasmo no último domingo. Mal iniciado o discurso de Dilma sobre o Dia Internacional da Mulher, alguns dos bairros mais ricos e bem comportados das capitais do país foram invadidos por um bater de panelas e xingamentos contra a presidente e o PT. Foi a revolta da varanda.

Cheios de indignação, homens de bem, cidadãos respeitadores da lei e da ordem e jovens educados nas melhores escolas soltaram o verbo. Estavam cumprindo um dever patriótico, em defesa da moral e do povo brasileiro.

Muito bem. Mas como perguntar não ofende…

Onde estavam eles, no dia anterior, quando dez pessoas foram brutalmente assassinadas numa chacina no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo?

Há suspeita de que os autores tenham sido policiais militares. Aliás a polícia matou este ano uma pessoa a cada 10 horas nas periferias paulistas. Ah, se fosse nos Jardins, a república já tinha caído.

Dez homicídios. Paz nas sacadas.

Mas não sejamos injustos! Eles estão preocupados com temas maiores. É o Brasil que está em jogo.

Está bem então. Onde estavam eles na maior entrega do patrimônio nacional, quando se repassaram os minérios, as telecomunicações e a energia para controle estrangeiro?

A privataria da Vale, da Telebrás e do setor elétrico foi um crime de lesa-pátria e levou a perdas financeiras inestimáveis. Como se não bastasse, as privatizações foram conduzidas de modo corrupto, “no limite da irresponsabilidade”, como disse à época um tucano.

E, para não ser acusado de “petralha”, tomemos um fato mais recente. Onde estavam eles em 2013 durante o leilão do Campo de Libra – coração do pré-sal –, que entregou parte do petróleo a empresas multinacionais?

Silêncio em Perdizes. Nenhuma panela nas varandas do Lago Sul.

Talvez não estejamos compreendendo. A questão é a corrupção! Não podemos ficar parados vendo toda esta roubalheira!

Pois bem, vamos lá. Onde estavam eles quando, após a Operação Satiagraha, o banqueiro Daniel Dantas foi libertado e o processo anulado mesmo com todas as provas de corrupção, suborno e lavagem de dinheiro?

Onde estavam quando, em 2014, a sonegação fiscal –especialmente por grandes empresas e ricaços– roubou mais de R$500 bilhões dos cofres públicos em um ano, ultrapassando os R$415 bilhões do ano anterior?

Os R$500 bilhões equivalem a mais de 100 vezes os recursos desviados da Petrobras na investigação da Operação Lava-Jato.

E, no mês passado, onde estavam quando explodiu o escândalo do HSBC pelo qual 342 magnatas brasileiros, junto com colegas de outros países, enviaram ilegalmente bilhões de dólares para o banco na Suíça?

Silêncio em Moema. Nenhuma panela nas varandas do Leblon.

Falta coerência à elite urbana do país. São arautos da moralidade seletiva e chegaram bem atrasados para denunciar a corrupção nacional. Não lembro de ter visto nenhum deles no domingo, dia 8/3, pedindo reforma política com o fim do financiamento empresarial das campanhas.

Seu antipetismo, cada vez mais histérico, não é pelo muito que os governos petistas deixaram de fazer, mas pelo pouco que fizeram.

É evidente que o discurso de Dilma não merecia nenhum aplauso. Dizer que o ajuste fiscal –que faz os trabalhadores pagarem pela crise– foi um ato de “coragem” é inaceitável. Corte de investimentos sociais, aumento de tarifas e ataque a direitos trabalhistas é, sim, um ato de covardia.

Mas não é isso que indigna a turma da varanda. Envenenados por uma mídia que quer sangrar o governo e flerta com o impeachment, acreditando alguns desavisados que estão numa cruzada pelo Brasil, na verdade representam a tentativa de impor uma saída conservadora à crise do petismo.

É isso que novamente estará nas ruas em 15 de março.

Talvez sirva como lição para Dilma se dar conta de que a crise política está além dos muros do Congresso. E de que, se quer apoio popular para enfrentar a direita nas ruas, precisará reverter as medidas impopulares de seu governo. Fazer o ajuste para o outro lado, com taxação das grandes fortunas, política de combate à sonegação e garantia de todos os direitos e investimentos sociais.

Este sim seria um ato de coragem. E faria a turma da varanda perceber que era feliz e não sabia.

Leia também:
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7 Respostas to “A revolta da varanda: Onde estavam os paneleiros antes?”

  1. Marcelo A. G. de Miranda Says:

    Correção: o Eduardo Cunha foi presidente da TELERJ

  2. Marcelo A. G. de Miranda Says:

    Gostaria de responder ao comentário de Caio Lúcio. Prezado Caio, especificamente a propósito da parte em que vc se refere à TELEBRÁS, gostaria de lembrar que o mesmo Eduardo Cunha, hoje mencionado em investigações sobre propinas foi tesoureiro da campanha do Collor no Rio de Janeiro e parece que foi muito eficiente em sua missão, posto que recebeu como prêmio a presidência da TELEBRÁS. Fez uma gestão catastrófica na empresa, você pode imaginar.
    O que acontecia é que não havia investimento dos governos nas empresas do Sistema Telebrás. A prova disso é que em pouquíssimo tempo as empresas privatizadas começaram a atender à demanda que estava reprimida, porque seus compradores fizeram o básico: investiram. Espero que vc se lembre que pouco antes das privatizações as tarifas foram aumentadas pelo governo em mais de 200%.
    As empresas foram privatizadas com um “ágio” medíocre que foi devolvido pelo governo (FHC) em benefícios fiscais diversos.
    Ainda a respeito da privatização das telecomunicações: você está satisfeito com o serviço prestado pelas operadoras? você é bem atendido pelo pessoal semi-escravo que trabalha nos call centers terceirizados? Está satisfeito em pagar tarifas caríssimas se comparadas com outros países? Eu não estou.
    Amigo Caio, somos brasileiros, vivemos em um dos maiores e mais ricos países do mundo. Temos o dever de não nos deixarmos enganar pelo discurso de empresas/famílias que se beneficiaram da ditadura e que hoje ensaiam os mesmos movimentos que fizeram naquela época.
    Um forte abraço.

  3. Renato Lazzari Says:

    Ao Sr. Caio Lúcio Moreira: 1 – Se a telefonia fosse estatal até hoje, o preço seria menor do que o que é hoje. é que naquele tempo a tecnologia era cara mesmo. 2 – Ninguém garante que não há corrupção, propina e “bola” na Vale privatizada. A Alston e a Siemens são privadas, por exemplo. 3 – Com o fim do financiamento privado de campanha, a rigor o político eleito não fica devendo sua eleição a empresas privadas. Nesse caso o parlamentar só vai proteger uma empresa privada se receber propina depois de eleito. E para punir a eventualidade dessa propina, corrupção, graças ao PT, agora é crime. 4 – Procure inteirar-se do andamento do projeto. A ideia não é favorecer nenhum partido. Por isso mesmo o projeto tem aprovação dos parlamentares e só não está andando por causa de chicana do PSDBista Gilmar Mendes. 5 – Doze anos, não; faz mais de vinte que o governo – e a segurança pública – é do PSDB. De fato a pobreza urbana – que é da alçada federal – diminuiu no Brasil todo. talvez tenha diminuido no Jdim. São Luís também. Mas criminalidade é de responsabilidade do governo estadual.

  4. Renato Lazzari Says:

    Paneleiros e varandeiros me fizeram lembrar da turba enfurecida xingando Emmanuel Goldstein em “1984”, do George Orwell, sem nem se dar ao trabalho de ouvir o que Goldstein falava. Não é que a mídia oligopolizada e cartelizada do Instituto Millenium – Abril, Globo, OESP e Folha -, associada a figuras como Aécio Neves da Cunha, Aloísio Nunes, Reinaldo Azevedo, Fernando H. Cardoso, Eliane Cantanhêde e que tais, conseguiram transformar seus crédulos leitores e telespectadores em bois de uma boiada, conseguiram extirpar-lhes qualquer noção de crítica? E ainda se pretende chamar essas empresas de “imprensa”, e o que fazem, de “Jornalismo”, é mole? E agora Aécio diz que não vai às manifestações antipetistas. Não irá nenhum representante dessas empresas, também. Nenhum dos gurus e mentores do impeachment vai… tomara que o filho do Bolsonaro não vá, mas se for tomara que não vá armado, é muito doloroso se sentir assim abandonado pelos próprios gurus…

  5. Caio Lúcio Moreira Says:

    Meu Deus, quanta bobagem! Gostaria que respondessem algumas perguntas:

    Se não fosse privatizada a Telebrás, nós estaríamos nos comunicando hoje? Será que um trabalhador que ganha 900,00 reais teria acesso a um celular ou mesmo smartphone como se vê hoje? Se não se lembra, antes da privatização pagava-se mais de R$ 3.000,00 por um telefone fixo ou tinha a opção de esperar por quatro anos pelo plano de expansão da Telesp, lembra? Se a Vale ainda estivesse nas mãos do Estado quem garante que não teríamos também um “Valezão”?
    Quem garante que a proibição do financiamento privado de campanhas resolverá a corrupção? Pelo que eu saiba caixa 2 não é legal e isso não impediu nem mesmo o PT de utilizá-lo.
    Como se dará o financiamento público de campanha: quem é amigo do Rei receberá uma parcela maior?

    E a propósito do Jardim São Luis, periferia de São Paulo, eu pergunto: temos doze anos deste Governo; melhorou alguma coisa por lá ou só aumentou a quantidade de pessoas pobres morando no bairro?

    Se conseguirem responder com coerência uma dessas perguntas me darei por satisfeito.

  6. José Jésus Gomesde Araújo Says:

    As renúncias fiscais federais aos empresários atingem cerca de 200 milhões. O presidente da Câmara dos Deputados se negou a receber a MP que diminui tais privilégios. Onde estavam os defensores da moralidade, preocupados com a evasão de recursos no Brasil?

  7. glcves Says:

    “paneleiros”? …rs Isso em Portugal vai sugerir outra coisa, uma conhecida cha~mou de A REVOLTA DAS BAIXELAS, achei bem apropriado…rsrsrs

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