Paraísos fiscais, o preço que as democracias pagam

HSBC21_DocumentarioA fraude do HSBC vem sendo encoberta pela imprensa brasileira. Provavelmente, para proteger políticos, empresários e os próprios barões da mídia.

Leneide Duarte-Plon, de Paris, via Carta Maior

O furo internacional que o Le Monde (associado a jornais de outros países) deu sobre a evasão fiscal de pessoas físicas do mundo inteiro, organizada pelo banco HSBC na Suíça, tem a perfeita contrapartida no magistral documentário Le prix à payer, do canadense Harold Crooks, em exibição em Paris. Infelizmente, como era de se esperar, a fraude de milionários brasileiros com contas no HSBC vem sendo sistematicamente encoberta pela imprensa nativa. Provavelmente, para proteger políticos, empresários e, quem sabe, os próprios barões da imprensa.

Le prix à payer mostra como o dinheiro das grandes empresas multinacionais se desloca de um continente a outro, num mundo paralelo, sem domicílio fixo. Essas megaempresas são mais poderosas que muitos Estados. A tese do filme é clara: a evasão dos impostos priva o Estado-providência dos recursos que o financiam e abala os fundamentos da democracia.

O documentário explica a gênese dos paraísos fiscais no mundo, a partir da história da City de Londres, e revela que em 2010 havia de US$21 mil bilhões a US$32 mil bilhões do patrimônio mundial escondidos em diversos paraísos fiscais. O que representa de 10% a 15% do patrimônio financeiro mundial. E se o preço a pagar fosse a morte das democracias, interroga-se o cineasta.

Montado com entrevistas de economistas – entre eles Thomas Piketty e Paul Krugman – além de estudiosos do assunto como a economista e socióloga Saskia Sassen, professora da Universidade de Columbia, o filme é uma aula de como funciona o opaco sistema financeiro internacional e seus paraísos fiscais, concebidos para proteger fortunas de particulares e de grandes grupos industriais, na ginástica para escapar ao fisco. O filme vai à gênese dos paraísos da finança offshore que se originaram da City de Londres e se formaram em antigas colônias do império britânico como Jersey, Ilha de Man, Gernesey e Ilhas Caimãs. Para Saskia Sassen, o contrato social foi rompido e a idade de ouro do Estado providência terminou. As imagens de algumas cidades americanas atestam a profundidade da crise financeira que se instalou em 2008: famílias expulsas de suas casas, bairros inteiros abandonados, casas fechadas se deteriorando.

Mas o filme mostra também os povos despertando e manifestando em diversas capitais do mundo como no Occupy Wall Street e no movimento dos Indignados, na Espanha.

Algumas das cenas mais impressionantes do documentário mostram executivos de grandes empresas – como Apple, Google ou Amazon – sendo interrogados por parlamentares, numa comissão parlamentar inglesa e noutra americana. Matt Brittin vice-presidente da Google no Reino Unido, em determinado momento tenta justificar a soma ridiculamente baixa de imposto pago na Inglaterra (o resto do lucro fabuloso fica protegido em um paraíso fiscal) dizendo que fizeram o que a lei permite. A presidente da Comissão parlamentar, Margareth Hodge, lhe responde que o que fizeram “pode não ser ilegal, mas é imoral.”

O problema é que as multinacionais não têm nenhum compromisso com a moralidade. A lógica que as move é o lucro e os dividendos que devem ser pagos aos acionistas. E quanto mais dividendos, melhor. Harold Crooks propõe como solução uma cooperação internacional para preservar os Estados democráticos da monumental evasão de recursos que deveriam ser empregados para o bem de todos em saúde, pesquisa, transportes, educação e cultura, além da defesa estratégica. Quando o rombo chega ao nível que o filme mostra, é o próprio Estado democrático que corre risco.

Questionado por um deputado trabalhista, um executivo do banco Barclays se mostra incapaz de dizer quantas filiais seu banco tem nesses paraísos fiscais. O deputado refresca sua memória: são 300 filiais. Em Washington, diante da Comissão de Inquérito do Senado, vemos um senador democrata interrogar um responsável da Apple que teve um lucro de US$180 bilhões e não tem domicílio fiscal em lugar nenhum.

O filme teve como co-roteirista a jornalista canadense Brigitte Alepin, cujo livro La crise fiscale qui vient (A crise fiscal que está chegando), serviu como fio condutor do documentário. Ela compara a situação atual diante dos impostos com a do povo (le tiers Etat) antes da Revolução Francesa. O peso dos impostos repousava sobre os menos afortunados. Ela compara as multinacionais de hoje com a nobreza pré-Revolução, que não pagava impostos.

Segundo a ONG Oxfam, em 2016, o 1% de pessoas mais ricas possuirá um patrimônio acumulado maior os 99% restantes. O filme tem, ainda, o mérito de mostrar muitos ex-insiders denunciando a iniquidade do sistema internacional que promove a evasão fiscal.

3 Respostas to “Paraísos fiscais, o preço que as democracias pagam”

  1. pintobasto Says:

    E quem disse que sonegação, burla e roubo de grandes quantias, são preços a pagar por democracia?
    Na democracia que desejamos não existe lugar para procedimentos que enfraquecem o estado que administra a nação. O que vemos por aí de paraísos fiscais são uma amostra das democracias de fachada que temos neste planeta, na realidade são plutocracias.
    Existem porque temos neste mundo imensa legião de terráqueos que nasceram, cresceram e se multiplicaram roubando seus semelhantes menos avisados sobre a cobiça alheia. Aqui no Brasil temos muitos ladrões. Roubam dinheiro, informações e se voce descuidar-se, roubam-lhe até os calções. Estamos fritos!

  2. José Jésus Gomesde Araújo Says:

    Acontece que o Tiers État repetia, confiante: “Ça ira”. Sieyès deu identidade ao Terceiro Estado com o texto Qu’estce le Troisième État?, identificando-o com a nação. E, um dia, as cabeças rolaram. Não quero ver isso acontecer de novo. Mas esperar bom senso e senso de humanidade desses (e dessas, porque também as há)marginais da nação?

  3. José Jésus Gomesde Araújo Says:

    Ante o comportamento da imprensa nativa com relação às denúncias sobre o HSBC, acorre-me, como sempre me ocorre em situações análogas, a frase do falecido Millôr Fernandes: A imprensa brasileira sempre foi canalha.

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