Depois de destinar R$4,3 bilhões a acionistas, Alckmin quer aumentar preço da água

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Governador já estuda elevar novamente a tarifa, para alegria dos investidores e prejuízo da população.

Júlio Gardesani, via ABCD Maior e lido no Viomundo

Após aumentar a conta de água, no final do ano passado, e aplicar multa aos consumidores, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) agora quer novo reajuste na tarifa, desta vez, acima da inflação. A notícia é mais um motivo de preocupação para a população, que já convive com a crise de abastecimento de água. No entanto, faz a alegria de um seleto grupo de pessoas: os sócios da Sabesp, que negociam as ações da empresa na Bolsa de Nova Iorque. No final, quem vai pagar a conta dos “prejuízos” são os próprios paulistas. A majoração nas contas só pode ocorrer a partir de abril e ainda depende de liberação da Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo).

A pressão para o novo reajuste, que pode ser superior a 7% (valor da inflação oficial nos últimos 12 meses, medida pelo IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo), parte dos próprios acionistas. Isso porque, o que é bom para a população, não necessariamente é rentável para o mercado financeiro. Os descontos concedidos nas tarifas de água aplicados pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em meados de 2014, associado à queda do consumo – já que poupar água é a única solução para crise –, diminuiriam a arrecadação da empresa, fazendo com que os investidores da bolsa ganhassem menos dinheiro.

Assim, desde que a notícia do novo aumento começou a ganhar força, as ações da Sabesp voltaram a subir na bolsa de Nova Iorque. Depois de confirmar à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que “estuda” reajuste acima da inflação, na segunda-feira, dia 23/2, os papéis da empresa dispararam e os acionistas voltaram a lucrar. Nos últimos três dias, com a notícia do aumento, as ações subiram 5,4%.

O reajuste a ser aplicado pela Sabesp trouxe de volta o sorriso ao rosto de seus sócios, que, desde o final de junho, quando o governo começou a aplicar o bônus aos usuários que consumissem menos água, viram as ações da empresa despencar em 45% até os dias de hoje.

Em depoimento à Câmara de São Paulo, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, admitiu na quarta-feira, dia 25/2, que o novo aumento acima da inflação se daria por conta dos descontos concedidos à população.

“Não interessa a ninguém uma Sabesp que esteja, sob o ponto de vista econômico e financeiro, desequilibrada. Se ficar desequilibrada ela não presta o serviço que precisa à população”, argumentou Kelman.

O último aumento da tarifa anunciado pelo governo do Estado ocorreu em novembro do ano passado, somente após a reeleição de Alckmin, quando o valor foi reajustado em 6,49%.

Sabesp, bolsa de valores e os interesses da população
A Sabesp abriu o capital da empresa ao mercado financeiro em 1994, com a desculpa de que, com isso, teria mais dinheiro para investir em obras. Atualmente, 50,3% de seu controle acionário se encontram nas mãos do Estado, enquanto 47,7% das ações são de propriedade de investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%)

Embora o estatuto social da Sabesp determine que os acionistas podem receber 25% do lucro líquido anual da empresa, a concessionária entregou, em 2003, 60,5% do total aos cofres dos sócios.

Nos últimos dez anos, entre 2003 e 2013 (o balanço anual da empresa relativo a 2014 ainda não foi apresentado), dos R$13,1 bilhões que a Sabesp obteve de lucro com a cobrança de água da população, R$4,3 bilhões foram destinados aos acionistas, conforme relatório da Diretoria Econômico-Financeira e de Relações com Investidores da Sabesp, apresentado em março de 2014.

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Guilherme Boulos: “Lucro da Sabesp triplicou em 7 anos. A água não tem de dar lucro, é bem essencial à vida.”
Marcha pela Água reúne 10 mil pessoas e cobra transparência do governo paulista.

Aline Mariane e Eliézer Giazzi, via Candeia Jornalismo e lido no Viomundo

A Marcha Pela Água, que ocorreu na quinta-feira, dia 26/2, em São Paulo, reuniu cerca de 10 mil manifestantes (segundo a Polícia Militar) na zona sul de São Paulo em prol de transparência sobre a crise hídrica no estado. Os manifestantes se concentraram no Largo da Batata, em Pinheiros, e seguiram até o Palácio dos Bandeirantes – sede do governo estadual.

Convocada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a manifestação contou com a participação de diversos movimentos sociais e partidos políticos. Dentre as principais reivindicações, estão a distribuição de caixas d’água na periferia, o compromisso de formar uma comissão para identificar os locais onde ocorrem falta d’água crônica e a reavaliação dos contratos de demanda firme estabelecido com grandes gastadores. As demandas foram entregues ao diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, e às lideranças esperam uma resposta até a próxima semana.


Vídeo de Caio Castor, especial para o Viomundo

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