Em 1999, Brasil perdia R$1 bilhão por dia e FHC foi para a praia

FHC_Praia01

Estressado, FHC vive seu pior momento
Josias de Souza, via Folha de S.Paulo de 17/1/1999
Tucano reclama da falta de informação para agir e de pessoas com quem possa trocar ideias sobre o país.

Fernando Henrique Cardoso escolheu parte dos apetrechos que queria ver acomodados em sua mala: bermudas, camisetas, sandálias… Parecia finalmente decidido a seguir as instruções de Roberto Camarinha, o médico da Presidência da República.

Às voltas com um diagnóstico de estresse, repousaria por seis dias em um recanto paradisíaco do litoral de Sergipe. Ria-se do nome: praia do Saco. Mas se mostrava embevecido com a descrição que o governador Albano Franco lhe fizera do lugar.

Ao decolar de Brasília, na manhã da última terça-feira, o presidente estava animado com a perspectiva de repouso. Um único compromisso o separava do paraíso sergipano. Faria escala no Rio, para inaugurar o centro gráfico de O Globo.

No banheiro
Nem bem aterrissou no Galeão, foi logo alcançado por Pedro Malan. O ministro da Fazenda discou de Brasília. Cercado de ministros, observado pelos presidentes do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e da Câmara, Michel Temer, FHC buscou privacidade no banheiro da sala de autoridades da ala militar do aeroporto do Rio.

Assim, ao lado de uma pia, começou a gorar o descanso que planejara havia mais de um mês. Em vez do repouso prescrito pelo doutor Camarinha, viveria dali em diante o que definiu como alguns de seus piores momentos.

Em nenhum outro instante experimentou no governo uma fase de tais extremos, em que a sensação de poder se mistura à de impotência. Tonificado pela reeleição, parece mais frágil do que nunca.

No discurso de posse, há 17 dias, recusou o papel de gerente da crise. Mas, segundo a definição de um amigo, tem hoje o cotidiano gerido por ela.

Malan telefonou justamente para informá-lo sobre a deterioração do ambiente econômico. O governo talvez tivesse de antecipar a desvalorização do real, algo que era programado para março.

Pensou em retornar a Brasília. Foi desaconselhado. Imaginou-se que a informação de que voltaria à capital antes do previsto, às pressas, pudesse levar pânico ao mercado, açulando ainda mais a fuga de dólares. Assim, decidiu voar para Sergipe, embora soubesse que teria de regressar no dia seguinte.

Antes de seguir para o compromisso do Rio, levou o celular uma vez mais ao banheiro do Galeão. Pediu ao governador Albano Franco que não o esperasse em Aracaju (SE). Preferia que se juntasse aos governadores que, reunidos em São Luís, condenariam dali a algumas horas a moratória mineira de Itamar Franco.

Tensão e amargura
A crise do real pôs fim, ainda que momentaneamente, ao lendário bom humor de FHC. Não é de hoje, aliás, que, aos olhos de amigos e auxiliares, o presidente está diferente.

Era capaz de encaixar uma blague nos diálogos mais graves. Era do tipo que perdia o amigo, mas não perdia a piada. Mas mudou. Anda tenso, amargurado, queixoso.

Reclama de não dispor de boa informação para agir. Pragueja políticos à sua volta, dados a picuinhas. Maldiz o ex-aliado Itamar Franco, a quem qualifica de estopim da atual turbulência. Sente falta de pessoas com quem possa trocar ideias sobre o país.

Diz-se que tem saudades de ex-auxiliares. É incansável na exaltação das qualidades de André Lara Resende, expurgado do governo pelo grampo do BNDES. Ele o quer de novo governo. Fará o que for preciso.

O exílio de seis dias na praia serviria para recarregar as baterias. Mas o telefone não o deixou em paz na noite de terça-feira. Levou consigo, além de bermudas e chinelos, dois “grandes papos”: Leôncio Martins Rodrigues, um cientista político que o conhece desde os tempos do exílio no Chile, e Valter Pécly, um expansivo diplomata que chefia o cerimonial da Presidência.

Chegou a ensaiar um carteado. Mas foi interrompido algumas vezes –ora por Malan, ora por Clóvis Carvalho (Gabinete Civil). Sugado pela realidade, definiu com Malan o índice de desvalorização do real frente ao dólar.

Recomendou ao ministro que visitasse ACM. Malan se fez acompanhar de Pedro Parente, seu secretário-executivo. Os dois chegaram à residência oficial do presidente do Senado por volta de 22 horas. Encontraram a mesa posta. Jantaram com o anfitrião. Enquanto comiam, revelaram as providências que seriam divulgadas na manhã seguinte. Falaram inclusive sobre a saída de Gustavo Franco.

O Congresso
O momento é decisivo, disse Malan a ACM. O papel do Congresso seria vital. A eventual rejeição do minipacote fiscal do governo traria, segundo Malan e Parente, consequências nefastas para a economia do país. A votação estava prevista para a tarde do dia seguinte. Ocorreria horas depois do anúncio da desvalorização do real e da saída de Gustavo Franco.

Perto da meia-noite, Malan e Parente voltaram para o Ministério da Fazenda. O ministro discou para FHC. ACM ajudaria, informou.

O senador foi para a cama preocupado. Impressionava-o o fato de ter viajado na tarde daquele mesmo dia com um impenetrável FHC, cujo semblante não permitia perscrutar a eletricidade que cortava os subterrâneos de Brasília.

Durante boa parte do voo até o Rio, ACM dividira com FHC e o deputado Michel Temer a cabine presidencial do avião da FAB. Falaram sobre amenidades e sobre a tramitação dos projetos de interesse do governo no Congresso, entre eles a renovação da CPMF. Nada sobre a crise.

Às 7 horas de quarta-feira, já pendurado ao telefone, ACM conversava com os líderes partidários. Fez e refez contas. Perto de uma da tarde, telefonou para FHC. “Vai passar”, disse, referindo-se ao pacote do governo, de fato aprovado pouco depois.

A votação trouxe alívio a FHC. As informações que havia recebido ao chegar ao Planalto, de volta da praia do Saco, eram desoladoras. Tomara banho de mar e passeara de bugue antes de embarcar. E já estava uma pilha.

Fuga de dólares
Temia pelo futuro do real, àquela altura já desvalorizado por ato de Francisco Lopes, o novo presidente do Banco Central. Em contatos com os amigos, entre eles o ministro Paulo Renato (Educação) e o governador Tasso Jereissati (Ceará), revelava o temor de que pudesse ocorrer uma fuga expressiva de dólares.

Com base em informações da área técnica do governo, FHC estimava que a onda especulativa poderia sorver, só naquele dia, algo como US$5 bilhões das reservas em dólar do governo. A cifra terminou não se efetivando.

Em uma segunda tentativa de relaxar, FHC foi, de helicóptero, para sua fazenda, em Buritis. De novo, levou Leôncio Martins e Valter Pécly. Houve nova frustração. As más notícias invadiram o novo refúgio do presidente. Chegaram pela tevê, pelo telefone.

Ele se irritou ao saber que o pedido de demissão de Cláudio Mauch, diretor do Banco Central, injetara uma dose extra de insegurança no mercado. Não entendia as razões que o levaram a se demitir em meio à turbulência.

Alívio
Após trocar uma série de telefonemas, autorizou Malan a interromper a derrama de dólares das reservas do Banco Central no mercado. O câmbio, sempre tão dogmático, flutuaria livremente, num teste ousado.

De volta ao Alvorada, FHC reuniu os auxiliares econômicos e, na tarde de sexta-feira, parecia aliviado com o êxito, ainda que parcial, da estratégia. Parecia tentado a evitar uma nova fixação de limites para a variação do dólar.

No final do ano passado, FHC disse a algumas pessoas que 1999 seria o pior ano de seus dois mandatos. No último dia 4 de janeiro, após almoço em que recebeu cumprimentos de autoridades estrangeiras, lamentou não ter incluído em seu discurso de posse uma frase sobre as turbulências que o país ainda enfrentará. Teve receio de ser demasiado pessimista.

O presidente parece convencido de que atravessa a quadra mais delicada de sua passagem pela Presidência. E seus amigos, sob reserva, revelam-se preocupados com o seu estado. Acham que está excessivamente isolado.

Temem que, no instante em que conhece os seus mais altos desafios, num momento em que deveria esgrimir as suas qualidades máximas, o presidente se deixe abater.

Em resposta, FHC prepara para o início da semana movimentos que, imagina, reforçarão a impressão de que seu governo e ele próprio reúnem condições para superar a crise.

Roberto_Marinho10_FHC

Mesmo estressado, FHC foi beijar a mão de Roberto Marinho.

 

Leia também:
Para Dilma, a corrupção foi ignorada no governo de FHC
Autocrítica: No final de seu mandato, FHC reconheceu que seu governo foi um desastre
Bandeira de Mello: “Não há exemplo na história de entreguismo tão deslavado quanto no governo FHC.”
Datafolha confirma: FHC foi o pior presidente do Brasil pós-ditadura
Com uma frase, Dilma desmontaria o golpe pretendido por FHC
O segredo do caixa 2 de FHC
O golpismo vulgar e a biografia de FHC
Para ler, divulgar e guardar: O legado de FHC e outras “obras”
O golpismo vulgar e a biografia de FHC
A trama imunda do impeachment de Dilma
Ives Gandra e um parecer a serviço do vale-tudo
Com uma frase, Dilma desmontaria o golpe pretendido por FHC
FHC, a esquerda e a direita
FHC: “Sou de esquerda, mas ninguém acredita.” Por que será?
Privataria: Ano a ano, os estragos que FHC fez na Petrobras
Ao criticar o governo, FHC esqueceu o próprio passado
FHC e a miopia política
Paulo Moreira Leite: FHC, o homem da máscara de ferro do PSDB
FHC: O conformista inconformado
FHC quer ser o guru de todos os golpes
O PSDB é o sarcófago do Plano Real
Coisas sobre o Plano Real que o PSDB não fala
Cadu Amaral: Vídeo para os mais novos conhecerem um pouco sobre o governo FHC
Os rolezões de FHC com direito à companhia de Regina “tô com medo” Duarte e outros sanguessugas
Paulo Moreira Leite: Relato sobre uma viagem de FHC a Portugal, em 2002 (e a Nova Iorque)
Desigualdade caiu 1,89 com FHC e 9,22 com Lula
Quando a criação de 1,1 milhão de empregos é crise: O governo invisível não quer Dilma
PSDB diz que é escândalo emprestar dinheiro a Cuba. Esqueceram de perguntar por que FHC emprestou
País fecha 2013 com saldo de 1,1 milhão de vagas com carteira assinada
Recordar é viver: Para FHC, professor é “coitado” que não conseguiu ser pesquisador
A empresa que espionava o Brasil prestava consultoria ao governo FHC
A quem FHC pensa que engana com sua conversa de virgem em lupanar?
Privataria, reeleição e o cínico FHC
Recordar é viver: FHC mexeu no dinheiro dos mais de 70 anos e dos deficientes físicos
Recordar é viver: A história da fazenda de FHC
Palmério Dória: Por que FHC não está preso?
Espionagem: Um terremoto chamado Snowden
Entenda o motivo de a mídia golpista atacar a Petrobrax, quer dizer, Petrobras
Banqueiro do propinoduto paulista vendeu apartamento a FHC. Já pensou se fosse o Lula?
O Príncipe da Privataria: Livro revela como FHC comprou a reeleição
O Príncipe da Privataria: A Folha confirma o nome do “Senhor X”
Recordar é viver: Quando FHC trouxe cubanos, Veja aplaudiu
Leandro Fortes: A privataria e as desventuras do príncipe
Por que o mensalão tucano, a Lista de Furnas e os processos contra Aécio no STF não andam?
Lista de Furnas é esquema comprovado e repleto de provas na Justiça
Tatto defende CPI da Privataria e cobra explicações de FHC sobre Lista de Furnas
Se quiser, Joaquim Barbosa já pode avocar o processo da Lista de Furnas
Lista de Furnas: Deputados do PSDB são acusados de pressionar lobista preso
Lista de Furnas: Amaury Ribeiro já tem documentos para o livro A Privataria Tucana 2
Advogado acusa réu do mensalão tucano de ser mandante da morte de modelo
Perseguido por Aécio e com medo de ser assassinado, delator do mensalão tucano está em presídio de segurança máxima
TJ/MG: Processo que incrimina governantes mineiros desaparece
O Príncipe da Privataria: Livro revela como FHC comprou sua reeleição
Emprego: Um semestre de Dilma é melhor do que oito anos de FHC
Por que a reeleição de FHC nunca chegou ao STF
Para a reeleição de FHC, Cacciola doou R$50 mil
Proer, a cesta básica dos banqueiros
FHC só lançou programas sociais a quatro meses da eleição de 2002
A Folha noticiou a compra de votos por FHC para a reeleição, mas depois se “esqueceu”
Histórico catastrófico da era FHC
O que Dilma deve a FHC para ser chamada de ingrata?
Vídeo: Entenda como e por que FHC quebrou o Brasil três vezes
Celso Lafer descalço em aeroporto exemplifica submissão de FHC aos EUA
Em vídeo, Itamar Franco esclarece que o Plano Real não é obra de FHC
Salário mínimo: As diferenças entre os governos FHC e Lula/Dilma
Vídeo: Já pensou se fosse o Lula? FHC embriagado na Marquês de Sapucaí
FHC, o reacionário
Conheça o apartamento de FHC em Paris. Ele tem renda pra isso?
Vídeo: FHC tenta mentir em programa da BBC, mas entrevistador não cai nas mentiras
Adib Jatene: “FHC é um homem sem palavra e Serra, um homem sem princípios.”
FHC comprou o Congresso: Fita liga Sérgio Motta à compra de votos para reeleição
FHC comprou o Congresso. O STF não vai fazer nada?
FHC disse muitas vezes: “Não levem a sério o que digo.”
FHC e a reeleição comprada: Por que a Veja não consulta seus arquivos?
O retrato do desgoverno de FHC
Governo FHC: O recheio da pasta rosa e o caso do Banco Econômico
Os crimes de FHC serão punidos?
O Brasil não esquecerá os 45 escândalos que marcaram o governo FHC
FHC ao FMI: “CEF, Banco do Brasil e Petrobras estão à venda.”
As viagens de FHC, de Lula e a escandalização seletiva
Dinheiro da CIA para FHC
A festa de 500 anos do Brasil de FHC dá prejuízo de R$10 milhões ao estado da Bahia
FHC: PSDB está longe do povo. Partido nem sequer sabe o que é povo
Com indicação de FHC para ABL, Sarney faz Ayres Britto esperar a morte de outro “imortal”
Vídeo em que FHC chama os aposentados de vagabundos
Documentos revelam participação de FHC e Gilmar Mendes no mensalão tucano
FHC: “Nós, a elite, temos tendência à arrogância.”
FHC e o vitupério
Bob Fernandes escancara a relação de FHC com a espionagem dos EUA
Contratada por FHC, Booz Allen já operava como gabinete de espionagem dos EUA
Se cuida, FHC: Vem aí a CPI da Espionagem da CIA
A empresa que espionava o Brasil prestava consultoria ao governo de FHC
Era Lula cria mais empregos que FHC, Itamar, Collor e Sarney juntos
FHC já defendeu uma nova Constituinte, mas agora acha autoritarismo. Pode?
FHC se diz contra 100% dos royalties para a educação
FHC já admite que Aécio não tem condições de ser candidato
FHC é o bafômetro de Aécio
FHC não mostrou o Darf
Como a Globo deu o golpe da barriga em FHC e enviou Miriam para Portugal

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: